• Publicado em 25/10/2011

    A classe média alta e os supérfluos

    No ano passado, meus pais (profissionais ultra-bem-sucedidos que decidiram reduzir o ritmo em tempo de aproveitar a vida com alegria e saúde) tomaram uma decisão surpreendente para um casal – muito enxuto, diga-se – de mais de 60 anos: alugaram o apartamento em um bairro nobre de São Paulo a um parente, enfiaram algumas peças de roupa na mala e embarcaram para Barcelona, onde meu irmão e eu moramos, para uma espécie de ano sabático.

    Aqui na capital catalã, os dois alugaram um apartamento agradabilíssimo no bairro modernista do Eixample (mas com um terço do tamanho e um vigésimo do conforto do de São Paulo), com direito a limpeza de apenas algumas horas, uma vez por semana. Como nunca cozinharam para si mesmos, saíam todos os dias para almoçar e/ou jantar. Com tempo de sobra, devoraram o calendário cultural da cidade: shows, peças de teatro, cinema e ópera quase diariamente. Também viajaram um pouco pela Espanha e a Europa. E tudo isso, muitas vezes, na companhia de filhos, genro, nora e amigos, a quem proporcionaram incontáveis jantares regados a vinhos.

    Com o passar de alguns meses, meus pais fizeram uma constatação que beirava o inacreditável: estavam gastando muito menos mensalmente para viver aqui do que gastavam no Brasil. Sendo que em São Paulo saíam para comer fora ou para algum programa cultural só de vez em quando (por causa do trânsito, dos problemas de segurança, etc), moravam em apartamento próprio e quase nunca viajavam.

    Milagre? Não. O que acontece é que, ao contrário do que fazem a maioria dos pais, eles resolveram experimentar o modelo de vida dos filhos em benefício próprio. “Quero uma vida mais simples como a sua”, me disse um dia a minha mãe. Isso, nesse caso, significou deixar de lado o altíssimo padrão de vida de classe média alta paulistana para adotar, como “estagiários”, o padrão de vida – mais austero e justo – da classe média europeia, da qual eu e meu irmão fazemos parte hoje em dia (eu há dez anos e ele, quatro). O dinheiro que “sobrou” aplicaram em coisas prazerosas e gratificantes.

    Do outro lado do Atlântico, a coisa é bem diferente. A classe média europeia não está acostumada com a moleza. Toda pessoa normal que se preze esfria a barriga no tanque e a esquenta no fogão, caminha até a padaria para comprar o seu próprio pão e enche o tanque de gasolina com as próprias mãos. É o preço que se paga por conviver com algo totalmente desconhecido no nosso país: a ausência do absurdo abismo social e, portanto, da mão de obra barata e disponível para qualquer necessidade do dia a dia.

    Traduzindo essa teoria na experiência vivida por meus pais, eles reaprenderam (uma vez que nenhum deles vem de família rica, muito pelo contrário) a dar uma limpada na casa nos intervalos do dia da faxina, a usar o transporte público e as próprias pernas, a lavar a própria roupa, a não ter carro (e manobrista, e garagem, e seguro), enfim, a levar uma vida mais “sustentável”. Não doeu nada.

    Uma vez de volta ao Brasil, eles simplificaram a estrutura que os cercava, cortaram uma lista enorme de itens supérfluos, reduziram assim os custos fixos e, mais leves,  tornaram-se mais portáteis (este ano, por exemplo, passaram mais três meses por aqui, num apê ainda mais simples).

    Por que estou contando isso a vocês? Porque o resultado desse experimento quase científico feito pelos pais é a prova concreta de uma teoria que defendo em muitas conversas com amigos brasileiros: o nababesco padrão de vida almejado por parte da classe média alta brasileira (que um europeu relutaria em adotar até por uma questão de princípios) acaba gerando stress, amarras e muita complicação como efeitos colaterais. E isso sem falar na questão moral e social da coisa.

    Babás, empregadas, carro extra em São Paulo para o dia do rodízio (essa é de lascar!), casa na praia, móveis caríssimos e roupas de marca podem ser o sonho de qualquer um, claro (não é o meu, mas quem sou eu para discutir?). Só que, mesmo em quem se delicia com essas coisas, a obrigação auto-imposta de manter tudo isso – e administrar essa estrutura que acaba se tornando cada vez maior e complexa – acaba fazendo com que o conforto se transforme em escravidão sem que a “vítima” se dê conta disso. E tem muita gente que aceita qualquer contingência num emprego malfadado, apenas para não perder as mordomias da vida.

    Alguns amigos paulistanos não se conformam com a quantidade de viagens que faço por ano (no último ano foram quatro meses – graças também, é claro, à minha vida de freelancer). “Você está milionária?”, me perguntam eles, que têm sofás (em L, óbvio) comprados na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, TV LED último modelo e o carro do ano (enquanto mal têm tempo de usufruir tudo isso, de tanto que ralam para manter o padrão).

    É muito mais simples do que parece. Limpo o meu próprio banheiro, não estou nem aí para roupas de marca e tenho algumas manchas no meu sofá baratex. Antes isso do que a escravidão de um padrão de vida que não traz felicidade. Ou, pelo menos, não a minha. Essa foi a maior lição que aprendi com os europeus — que viajam mais do que ninguém, são mestres na arte do savoir vivre e sabem muito bem como pilotar um fogão e uma vassoura.

    PS: Não estou pregando a morte das empregadas domésticas – que precisam do emprego no Brasil –, a queima dos sofás em L e nem achando que o “modelo frugal europeu” funciona para todo mundo como receita de felicidade. Antes que alguém me acuse de tomar o comportamento de uma parcela da classe média alta paulistana como uma generalização sobre a sociedade brasileira, digo logo que, sim, esse texto se aplica ao pé da letra para um público bem específico. Também entendo perfeitamente que a vida não é tão “boa” para todos no Brasil, e que o “problema” que levanto aqui pode até soar ridículo para alguns – por ser menor. Minha intenção, com esse texto, é apenas tentar mostrar que a vida sempre pode ser menos complicada e mais racional do que imaginam as elites mal-acostumadas no Brasil.

    Contribuição de Adriana Setti, jornalista e blogueira, residente em Barcelona. Do blog Achados.

    Compartilhe | |  Envie a um amigo |   Mais... |
    • 16 Comentários recebidos

      • Em 25/10/2011, Japim escreveu:

        Desculpas Adriana, mas gastar um pedaço tão bom deste Jornal virtual, para escrever "isso", lamentável!!!

      • Em 25/10/2011, Henrique escreveu:

        o problema é fazer isso no Brasil , meu caro amigo ....não vou nem detalhar outras coisas, vou ficar apenas no transporte publico ...tem condições ?????

      • Em 25/10/2011, franz hals escreveu:

        Conhece o pensamento de OSCAR WILDE "Da-me o supérfluo que eu dispensarei o necessário."?

      • Em 25/10/2011, Sonia Maria Francoso escreveu:

        Japim, este e um site democratico, tem espaço para todos os tipos de comentarios...Um ponto interessante para comentarios seria sobre os preconceitos que existe arraigado em nossa sociedade. Devemos respeitar a opiniao alheia mesmo se te faz bem ou nao...tenho certeza que muitos acharao este artigo interessante, assim como eu achei!

      • Em 25/10/2011, joao elias escreveu:

        Quem conhece o Brasil vai entender meu comentário. Somos uma nação com metade da população descendente de ex-escravos sobre os quais pesa o racismo, a discriminação e o preconceito. Tudo isso com a finalidade de não deixá-los se integrarem na sociedade de classes. Educação ruim de propósito para que permaneçam desqualificados profissionalmente e quando a duras penas se formam são rejeitados no mercado de trabalho, etc. Desde modo ficam burrinhos e baratinhos. Isso o europeu daí não tem disponível, o "europeu" daqui tem. Não são os afrodescendentes desqualificados que encarecem a vida da classe alta, são o carro extra, o estacionamento caríssimo, a gasolina custando $1,60 (um dolar e sessenta) o litro. O carro mais caro do mundo pago em dobro (+ 1 para o dia do rodízio), convênio saúde caríssimo e ruim, e por aí vai. Sua contribuição foi muito valiosa para que possamos refletir sobre o custo Brasil da vida nababesca de uns poucos e da vida dura de outros muitos.

      • Em 25/10/2011, Alex Alex escreveu:

        Comparar o Brasil com a Europa é complicado.O Europeu não é mais inteligente ou mais ignorante do que o brasileiro.O problema da Europa é a escassez.Já trabalhei na Europa e com Europeus no Brasil.O comportamento deles no Brasil é totalmente diferente.Concordo plenamente com a simplificação da vida.Porém a generalização pode causar distorções.O texto pode ser utilizado para reflexão.

      • Em 25/10/2011, Alberto Muritiba escreveu:

        Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disse, mas as defenderei até a morte o direito de dizê-las. Voltaire

      • Em 25/10/2011, Marcio escreveu:

        O texto não compara países ou continentes, apenas reflete a realidade de uma das classes brasileiras. Como a escritora coloca, todos temos o direito de escolher nossos modos de vida. Sinto pena, porém, daqueles que sacrificam a si e aqueles ao seu redor por um estilo de vida cada vez mais estressante e competitivo.

      • Em 25/10/2011, Saint-Clair escreveu:

        Muito lúcido o artigo. Sem querer desmerecer ninguém, me parece que alguns não entenderam a mensagem.Independentemente de estarmos no Brasil, com todas as dificuldades que conhecemos, como as do transporte público, como citou o Henrique, o fato é que, algumas pessoas ralam tanto, que nem conseguem usufruir o que tem, como bem disse a cronista. Tem gente que faz dívidas além do seu próprio limite,para andar de carro 0Km e depois nem consegue encher o tanque. Se o problema é fugir do transporte público, não poderia ser um carro mais modesto? Existem calças jeans (DECENTES), por R$ 50,00/60,00. No entanto, muita gente prefere comprar os jeans de R$ 300,00/500,00 parcelados em 10X só porque tem etiqueta dessa ou daquela marca. Como bem dito, viram escravos desse esquema de vida. Penso, que essa foi a intenção do artigo.

      • Em 26/10/2011, Jorge escreveu:

        Adriana, algumas coisas dependem de nós e eu mesmo decidi morar bem localizado e não ter automóvel. Outras não dependem, como o oneroso condomínio de nossas moradias, que quando eu falo quanto pago para meus parentes de fora pensam até que sou mentiroso ou esnobe, já que em nenhum condominio residencial deles se imagina ter 6 funcionários e mais custo elevado de administradora. Mas nossas cidades foram sendo erguidas de um jeito e tem uma tal violência que alguns modos civilizados/racionais dificilmente chegarão aqui tão cedo. Mas eu gostaria de confirmar: aqui existe mesmo uma mentalidade "jeca" fortemente arraigada, nas cidades grandes e pequenas.

      • Em 27/10/2011, José Emílio Gomes escreveu:

        Trabalhei durante vários anos em uma multinacional sueca aqui no Rio de Janeiro. Um dos diretores técnicos, Dr. Mathis, um gênial e conceituado engenheiro, de quem me tornei muito ligado por razões profissionais e, até certo ponto, ideológicas, uma vez me fez um comentário sobre a gritante diferença entre o padrão de vida de um engenheiro no Brasil e de um engenheiro na Suécia, ou seja, a diferença de padrões entre as classes médias desses dois países. E o que ele me disse foi exatamente o que expõe a Adriana. E ele ainda ficava chocado com a gritante diferença salarial entre profissionais aqui no Brasil, coisa que ele não conseguia entender o porquê! Ele achava a nossa classe média extremamente esbanjadora, em detrimento das classes menos favorecidas. Belo texto Adriana! É para refletirmos mesmo!

      • Em 27/10/2011, Rita Aguiar escreveu:

        Gostei demais! Há que se pensar...Realmente!

      • Em 27/10/2011, José Wilson escreveu:

        Gostei bastante também! Penso que temos que disseminar esses pensamentos, para ver se, um dia, melhoramos a nossa sociedade, tão injusta e concentradora de renda.

      • Em 30/10/2011, Telma escreveu:

        Muito bom o texto da Adriana para reflexão. Porém, há sempre o outro lado da questão. Não faço parte da classe média alta paulistana, então escrevo do ponto de vista de uma pessoa de classe média, não alta. Considerando-se o lado das empregadas domésticas, manicures, etc..., a minha faxineira e a minha manicure ganham mais do que professora. Ouvi dizer que as européias não utilizam os serviços das manicures com a mesma frequência com que as brasileiras utilizam. Se o Brasil não oferece iguais oportunidades de estudo para todos, o que elas poderiam fazer além do que fazem? A profissional de química de um salão de beleza cobra de R$ 130,00 a R$ 150,00; ela fica com 70% e tem várias clientes todos os dias. Observem quanto ela ganha mensalmente; e ela viaja ao exterior todos os anos. Não tenho empregada doméstica, mas não é possível ficar sem a minha faxineira e fazer o trabalho mais pesado que ela faz. Prefiro usar esse tempo que eu empregaria nessa limpeza, na leitura.

      • Em 30/10/2011, Telma escreveu:

        Talvez eu tenha saído um pouco do foco da questão da Adriana, que é a classe média alta e Adriana não prega o fim das empregadas domésticas. Eu só quis dar um aparte.

      • Em 01/12/2011, thdv hdv escreveu:

        Concordo com a Adriana Setti, qndo diz que a vida no exterior é mais barata que no Brasil (moro fora há 6 anos). Porem tenho que dizer que esta reportagem é velha (1 ano já, http://colunas.epoca.globo.com/mulher7por7/2010/10/30/como-a-classe-media-alta-brasileira-e-escrava-do-alto-padrao-dos-superfluos/) e nao foi escrita agora. E infelizmente a Adriana faz isso regularmente, repete as reportagens iguais a cada determinado tempo. Um leitor ocasional nao se dá conta. Mas qndo vc assina uma revista (como normalmente acontece com suas reportagens na Viagem e Turismo), e esta pagando por ela nao acha "legal" ver a mesma reportagem com as mesmas palavras serem repetidas a cada tempo. Exactamente como essa, podia pelo menos mudar um pouco o texto...

    • Deixe seu comentário

      Digite seu nome

      E-mail para contato

      Escreva seu comentário  Máx. 3000 caracteres

      Enviar agora

      Comente com responsabilidade

      Respeitamos sua opinião e teremos o maior prazer em publicá-la neste espaço.

      Lembre-se:

      Mensagens de cunho ofensivo ou politicamente incorretas não serão publicadas.

Mobile and Web Analytics