• Publicado em 04/12/2011

    A escola pública no show da vida

     

     

    Instigado por comentários que li/ouvi, resolvi assistir, no último dia 27, ao programa “Fantástico”. Fiz essa grande exceção  a um comportamento de muitos anos,  mantido para o bem dos meus fins de domingo, porque queria ver o quadro  “Conselho de Classe”, em que a Globo vem expondo o que resolveu editar depois de muitas dezenas de horas de gravação no colégio República do Peru, escola pública do Rio de Janeiro. A justificativa: enfocar como é o dia a dia de quatro professores da 6ª. série do Ensino Fundamental daquele estabelecimento.      Visto o programa – a terceira apresentação de uma série de cinco, tendo, em média, 12 minutos de duração cada uma -, resolvi acrescentar minha opinião a umas tantas outras, tendo antes o cuidado de procurar conhecer, na internet, o teor das duas primeiras  abordagens.

    Lamentei muito do que vi e ouvi. Não se deve, seja em nome do que for, submeter um assunto sério como a educação pública a uma exposição do tipo “reality show”, em que professores, ingênuos talvez, expõem a si próprios e aos seus alunos em atitudes que mais parecem buscar os tão falados 15 minutos (no caso, seriam 12) de fama...

    Julgo que, aos mestres em questão – cuja qualidade e intenções não coloco em discussão, até porque seria leviandade, já que não os conheço – talvez tenha faltado malícia para reconhecer que não seria deixando-se apresentar sob rótulos  como “exigente”, “linha dura”, “ mãezona” e outros, que estariam exemplificando o bom educador. Creio não ter havido sensibilidade nos momentos em que, na menção aos alunos, deixaram transparecer a visão (que espero que não tenham) de que o problema do ensino é o estudante, com seu “rebolation” em sala de aula, suas bolas arremessadas para o ar, sua preocupação com maquiagem, sua indisciplina  e sua desmotivação. A meu juízo, faltou-lhes, ao menos nesses três primeiros “blocos”, uma atitude crítica quanto às condições do ensino no país – não apenas o ensino público, mas a educação vista como um todo, em uma sociedade repleta de mazelas.  E então, em meio aos  novelescos perfis traçados para eles, perderam uma excelente oportunidade de não se deixarem levar pelo estrelismo, um dos perigos da minha profissão.  A quem serve uma negativa exposição dos alunos e do ambiente de uma escola pública? Serve a quem esse consentido clima “Big Brother Brasil”, com microfones e câmeras “escondidas” em busca de  “espontaneidade”?     

    A “chamada” para o quarto bloco – que estará indo ao ar quando este texto já estiver circulando no DR – fala de uma festa dos professores, gente “que vai dançar até o amanhecer”. Nada contra as festas de congraçamento, nada contra a alegria e descontração. Mas tudo a favor, também, da sensibilidade para ao menos tentar imaginar hipotéticos objetivos e preservar-se.

    Terão sido os “atores” previamente consultados quanto à versão final dos programas? Acredito – ou quero acreditar - que não. Penso que talvez percebessem, então, que em nada ajudaria os propósitos da educação uma frase dita sem pensar de professor confessando ter relação “de amor e ódio” com os alunos; que a autopromoção embutida em alguns depoimentos não é uma contribuição positiva; que o tom “tropa de elite” dos comandos de alguns  mestres, aí incluída a contagem de 72 “Senta!” proferidos por um único professor, não é pedagogicamente adequado; que, enfim, a edição deixou mal a eles e a nós, que defendemos a qualquer preço o democrático ensino público.    

    Resta questionar, também, a Secretaria Municipal de Educação. Será que não se preocupou em analisar o que iria ao ar como resultado de tanto tempo de gravações? Será que considerou satisfatória a edição? Terão sido ingênuas as autoridades educacionais ou também elas terão aderido ao desejo da exposição , mesmo que do tipo “falem mal , mas falem de mim”?  Em alguns depoimentos na internet, que até defendem a edição, apontam-se aspectos positivos apresentados: as salas não estão infladas de alunos, a escola é de regime integral (7 horas), apresentam-se em alguns poucos momentos modernos recursos pedagógicos. Concordo. Mas esses aspectos aparecem no detalhe, não se aprofundam, e o que predomina mesmo, ao menos para mim,  é uma visão meio anárquica, até caótica, do ambiente.

    Se falhou a Secretaria de Educação, não falharam os jornalistas do “Fantástico” no seu intento de transformar tudo em um “ show da vida”. Muitas das situações, claro, são do dia a dia de um colégio, seja ele público ou particular. Mas o que a edição acabou por mostrar - de forma subliminar - foi uma escola pública pouco confiável. Um tipo de escola que talvez preocupe  os pais  da emergente classe média carioca e que, nesta providencial época de renovação de matrículas, podem (quem sabe?) ser tentados a buscar a solução para as suas preocupações nos braços receptivos e onerosos – mas nem sempre eficientes - das escolas da iniciativa particular.

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    • 6 Comentários recebidos

      • Em 04/12/2011, Xico Júnior escreveu:

        O tema "Conselho de Classe", exibido pela Rede Globo, dentro do Fantástico, foi bom colocado. Mas há alguns porém: entrendo - e nisso acredito - que os professores, ingenua e incautamente, foram usados sem terem o menor conhecimento do que iria para o ar, já que foram inúmeras horas de gravações. Segundo: a manipulação na Globo é a coisa mais óbvia que se tem conhecimento. Terceiro: não querendo defender quem quer que seja, se a Secretaria Municipal de Educação interferisse não faltariam "profissionais da comunicação", como classifica Mino Carta, que se insurgissem como sendo um ato de CENSURA, uma arbitrariedade à livre expressão e ao jornalismo independente ou "liberdade de imprensa". Viriam, à toda, com argumentos do tipo: VOLTA Á CENSURA, retorno ao período ditatorial, e assim por diante. Ainda mais que é a Rede Globo (uma multinacional que tem como testa-de-ferro os Marinhos) quem manda e desmanda na política, no judiciário e na "liberdade de imprensa" no Brasil. Meu ajuda aí, ô!

      • Em 04/12/2011, Renata escreveu:

        Ao contrário do que foi postado, não creio que os professores tenham sido ingênuos não. Acredito, inclusive, que eles se utilizaram do quadro do Fantástico como uma forma de denunciar o que se vive em boa parte das escolas públicas brasileiras (e que é, ou deveria ser, de conhecimento de todos). Concordo com o autor da matéria no que diz respeito ao fato de ser abusivo transformar isso em um "reality show". Professores despreparados, recursos tecnológicos pouco utilizados, alunos nada interessados, além de indisciplinados, dentre uma série de outros itens a serem elencados, são situações cotidianas. Nada do que se viu é novo. Sabemos que muito do que se sai na mídia serve para mobilizar a população, em maior ou menor grau. Sendo assim, o meu singelo desejo é que as pessoas possam peneirar aquilo que ouvem e veem a fim de buscar uma luz no fim do túnel, afinal, como bem diz Maria Tereza Nidelcoff, em um des seus livros "a escola é a compreensão da realidade". Que marcas queremos deixar??

      • Em 06/12/2011, Rita Aguiar escreveu:

        Um artigo que, sem dúvida, merece discussões! Não assisti. Tive uma boa prévia. Concordo com Xico, quanto a SME e discordo de Renata quanto ao "o que se vive em boa parte das escolas públicas" (particulares, também!) Concordo com Rodolpho quanto às mensagens subliminares. Esse é meu maior medo! Mas foi um excelente artigo e dois excelentes comentários. Só tive a ganhar!

      • Em 07/12/2011, Roseli escreveu:

        As escolas públicas deveriam barrar a entrada de grupos de faculdades particulares entrassem dentro de uma sala de aula para divulgação de seus serviços oferencendo aos alunos de classe pobre mirabolantes planos de pagamento.

      • Em 09/12/2011, maria luiza alves de souza escreveu:

        o professor WALTER LOPES so esta querendo mstrar uma nova maneira de lhe dar com os alunos eu gostei parabens

      • Em 10/12/2011, Tito Vieira escreveu:

        Ora, Rodolpho... É óbvio que não houve ingenuidade alguma, nem de professores e muito menos de quem produziu a matéria. Talvez dos alunos, visto que ainda não tem maturidade pra perceberem o tipo de armação que se faria com a matéria. Creio que o brilho dos holofotes tenha sido atraente demais pros professores, infelizmente tão relegados ao ostracismo pelos nossos governantes. Se não há surpresa alguma na "profundidade" da matéria - "profunda" como um prato de sopa, coo tudo o que passa no Fantástico -, também não há nenhuma surpresa pelo fato da vaidade ter vencido a coerência. Só há o que se lamentar, principalmente o tempo perdido assistindo ao programa.

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