- Publicado em 29/01/2012
A lei da Copa e a soberania nacional
Adoro futebol, desde criança. Minha condição de banguense permite a convicta afirmação de que adoro o futebol pelo futebol mesmo, e não porque fanaticamente tenha elegido um clube vencedor como uma religião, ou porque me queira sentir vitorioso ao fim de cada semana , transferindo para mim as vitórias do meu time. Gosto do futebol pela plástica desse esporte, pelo que há de coletivo nas evoluções de uma equipe bem estruturada, pela confraria colorida e alegre que ele propicia ao redor do campo. São muitas as razões para que eu goste do “velho esporte bretão”, que alguns chamavam de violento, certamente porque não conheciam o MMA... Uma dessas razões, porém, seguramente, não é a identificação de uma seleção brasileira com a nação, pois não participo da opinião de quem acha que, em épocas de Copa, aqui nos transformamos em uma “pátria de chuteiras”...
As discussões que estão ocorrendo em torno da formulação de uma Lei Geral da Copa colocam em destaque, necessariamente, a força descomunal que se pretende tenha o futebol, em detrimento de muitos valores que deveriam constituir “claúsula pétrea” em nossa sociedade. Afinal, o Brasil vem se firmando no cenário mundial nos últimos anos e, seguramente, isso não tem nada a ver com vitórias no campo futebolístico, que aliás andam escassa entre nós, mas com conquistas comunitárias que as políticas sociais do governo vêm implementando.
Muitas vezes já me referi aqui ao descalabro que é esse açodamento pela construção de estádios em certas cidades que, após a Copa, não vão utilizá-los de modo a obter benefícios que justifiquem os altos custos dos empreendimentos, muitos deles feitos exclusivamente com dinheiro do povo. Nesses casos, o tão propalado “legado” a ser deixado será um elefante branco. Em muitos lugares, a obra faraônica restará ali, imponente, em verdadeiro escárnio às efetivas necessidades populares.
Mas isso já é irreversível e só resta acompanhar o desenvolvimento da coisa. Há muitos outros valores em jogo, além dos financeiros. Recentemente, tivemos entre nós, uma vez mais, o secretário-geral da FIFA, Sr. Jérôme Valcke, na condição de avaliador da nossa competência e quase se atribuindo a última palavra em assuntos que têm a ver com as políticas internas do país e, se pensarmos bem, com a própria soberania nacional. Ao afirmar, por exemplo, que está na hora de encerrarmos a discussão sobre a Lei da Copa e aprová-la (só faltou dizer; ”aprová-la do jeito que queremos”), o Sr. Jérôme extrapola suas funções. Uma frase sua: "Só porque vocês ganharam cinco Copas do Mundo, vocês acham que podem pedir, pedir e pedir". Pior é que conta com o apoio interno de muitos brasileiros que, por razões e interesses os mais variados, fazem coro às suas “recomendações”. A mídia comprometida com os aspectos econômicos do evento, tão “zelosa” em muitas outras situações, faz um coro não muito discreto às críticas quanto aos nossos atrasos em cumprimento de prazos. Compondo o cenário, o ex-jogador Ronaldo Nazário, membro do Comitê Organizador local, tenta substituir, com o carisma que possuiu quando “fenômeno” futebolístico, a discutibilíssima credibilidade dos titulares do esporte brasileiro, entre eles o Sr. Ricardo Teixeira.
Há muitos assuntos pendentes e que a tal Lei da Copa terá que regular. Um deles: a venda de bebidas alcoólicas nos estádios em que os jogos se realizarem, contrariando legislação interna do país que proíbe tal prática. Em entrevista que deu, o secretário da FIFA, em um primor de sofisma, disse que não queria falar de venda de bebidas alcoólicas, mas de venda de cerveja...
Outro assunto é a colocação de ingressos mais baratos para estudantes e idosos, prática institucionalizada no país, sendo que o Governo quer acrescentar como beneficiários os indígenas e os detentores do Bolsa Família. Há quem considera oportunista ou demagógico o acréscimo governamental, mas a verdade é que a proposta, entre outros méritos, pode ter o de deflagrar , pelo exemplo, outras medidas da espécie que atinjam esses segmentos, depois que a Copa acabar. Esse seria um legado, talvez. De qualquer forma, o caso dos estudantes e idosos é diferente, pois se trata de manter o que já existe, sem retrocessos.
A verdade é que, por mais que gostemos de futebol, não dá para permitir, por isso, arranhões na soberania brasileira. E se a Copa é um negócio onde todos querem lucrar, o mínimo que esperamos é que esse lucro não se faça às custas de prejuízos à cidadania.
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10 Comentários recebidos
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Sobre o autor deste artigoRodolpho Motta Lima
Advogado formado pela UFRJ-RJ (antiga Universidade de Brasil)
e professor de Língua Portuguesa do Rio de Janeiro, formado
pela UERJ , com atividade em diversas instituições do Rio de
Janeiro. Com militância política nos anos da ditadura, particularmente no movimento estudantil. Funcionário aposentado do Banco do Brasil.
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Em 29/01/2012, Dirval Cruz escreveu:
Caro Rodolpho, seu artigo é corretíssimo e põe o dedo na ferida, como se dizia antigamente.
Em 29/01/2012, Ronaldo Chagas escreveu:
Rodolpho,Excelente Texto!Nota 10!A FIFA deveria ter consciência de que não é dona do futebol. A Lei Geral Da Copa é um insulto à soberania de qualquer país! ABRAÇOS!
Em 30/01/2012, Marcello Jallas escreveu:
Rodolpho,Não concordo com você por um motivo muito simples, as regras da Copa já eram estas, e provavelmente foram colocadas às nossas autoridades (pres. Lula), quando pedimos para ser sede. Então não tivessemos pedido, não teríamos desvios, e nem ferida a nossa soberania. Mesmo hoje, as meias entradas são demagogia, pois sempre que qualquer um recorre ao cambista, ele sempre, e só tem, e seu lucro vem daí, meias entradas. Eu preferiria "ferir a nossa soberania" à entregar os lucros aos cambistas. ABS...
Em 31/01/2012, José Luiz Rossi escreveu:
Desde os portugueses o País obriga-se a atender interesses exóticos.E tome de FMI,B.Mundial,igrejas,multis,etc e agora até FIFA!Tenha paciência.
Em 31/01/2012, Fernando Bernardo escreveu:
Ótimo !. Primeiro, libera-se bebidas na copa, depois vem as blitzes da lei seca e...Voilá !. Mais um(a) OTÁRIO(A) torcedor(a) apanhado, mai$ multa$ aplicadas e FIFA e governos ficam felizes para sempre !. Só não vê quem não quer !.
Em 31/01/2012, Guto Jimenez escreveu:
Lei da Copa, roubalheira desenfreada na cbf (minúsculas propositais), parcialidade escancarada da dita mídia esportiva, jogadores mascarados e alienados, estilo de jogo ultrapassado e previsível. Na boa: o melhor que poderá acontecer ao futebol brasileiro será se a seleção ficar na primeira fase ou sofrer mais um "maracanazo" pros uruguaios. Não consigo torcer a favor com tanta safadeza e descontrole.
Em 01/02/2012, SILVEIRA escreveu:
A roubalheira é para todo lado, onde nascerão os novos ricos em pouco tempo.Os alienados e interressados deputados só olham para o próprio umbigo e se lixam paro o legado inacabado que virá depois. Torcemos para que as ditas obras de infraestruturam sejam concluidas antes do inicio do evento, pois depois já era...como sempre acontece após as eleiçoes. Os ingressos sempre são comercializados pela cbf e fifa, e como nas ultimas copas são administrados por 'testas de ferro' dos cartolas, pagos pelos operadores de turismo com 1 ano de antecedencia e que ficam torcendo para recebe-los até o horario dos jogos para evitar contratempo aos turistas corajosos que compraram os pacotes da copa. Vide copas como a da França onde foram vendidos o mesmo ingresso em + de uma federação e depois não foram entregues, culpando os donos das operadoras de turismo no Brasil, chegando ao cúmulo de serem presos. Vai ser pior no Brasil...........
Em 02/02/2012, ricardo carvalho escreveu:
Em entrevista ao JB o jornalista Andrew Jennings o minimo que ele chama o Blatter é de corrupto. O que ele diz com todas as letras é: o que ele (Blatter) quer é estuprar o Brasil. A presidente deveria é expulsar os dois, ele e seu secretario geral do País. Digo eu: sediar a copa tudo bem. Mudar leis do País para agradar uma entidade acima de tudo comercial não. Segundo O Globo, que ao que parece, esta atuando como porta-voz, a Fifa já teria deixado a Inglaterra de stand by para o caso das coisas não se resolverem de forma satisfatória. Deixem rolar, quero ver a Fifa mudar as leis por lá.
Em 02/02/2012, NELSON NISENBAUM escreveu:
Sem delongas, registro apoio e cumprimento o autor.
Em 03/02/2012, Vinícius Schreiner escreveu:
Goataria de fazer uns comentários antes, sobre os comentário. Primeiro, a FIFA não é dona do futebol, mas é dona da Copa. Pode pedir o que quiser. Só bebe e é multado quem bebe e dirige. Beba, encha a cara e pegue um taxi. Assim você não vai ser um otário nem um bêbado com um carro na mão. Falando sobre o texto, discordo totalmente. Para que a copa aconteça, é necessário dinheiro, patrocínio. Empresas não vão patrocinar se não puderem ter lucros, se sua cerveja não for vendida ou se ganhar só metade pelo preço dos ingressos. Aí não tem copa. A FIFA tem todo direito de exigir. Quer? É assim. Não quer? Os EUA, Inglaterra estão prontos para receber uma copa.