• Publicado em 11/03/2012

    A visão míope dos republicanos

     

    Miami (EUA) - Ao contrário das eleições anteriores, os resultados desta Super Terça, 6 de março, não serviram para definir o candidato oficial do Partido Republicano, mas, sem dúvida, Mitt Romney vem pouco a pouco consolidando sua liderança e, pelo que tudo indica, deve mesmo sagrar-se o vencedor.

    Ele, no entanto, deverá enfrentar forte resistência junto à ala mais conservadora do partido que não se identifica com Romney, cuja postura de homem rico e com visão liberal afasta-o desta parte do eleitorado. E, em sua provável disputa com Barack Obama, em novembro, ele precisa deseperadamente destes votos para derrotar o atual presidente da República.

    Para obter esse apoio, Romney vem inclusive renegando suas antigas convicções. O ex-governador de Massachusetts vem sistematicamente dando declarações que negam seu passado, a fim de justamente ser aceito por esta fatia mais radical do Partido Republicano. Não é à toa que ganhou apelido de político “flip flop”, em alusão às famosas sandálias de borracha que fazem este barulho quando estão sendo usadas. Ou seja, mudam sempre de posição.

    O provável representante do Partido Republicano na eleição presidencial está cada vez mais inclinando-se para os conservadores radicais, arriscando-se inclusive a perder apoio entre alguns eleitores independentes que estão insatisfeitos com o governo Obama. No entanto, uma guinada extrema à direita pode afugentar estes possíveis votos. Vale lembrar que aqui nos EUA, ao contrário do Brasil, ninguém é obrigado a votar. Portanto, se nenhum dos candidatos despertar o interesse do eleitor, ele simplesmente deixa de comparecer à zona eleitoral, sem, é claro, ter ameaçado seus direitos constitucionais.

    Dentre os vários temas polêmicos, com certeza, a reforma imigratória é um dos mais candentes. Os democratas estão pouco a pouco conquistando a simpatia do eleitorado hispânico em função do apoio declarado a uma reforma imigratória ampla e abrangente. Já os republicanos mais empedernidos rejeitam qualquer tipo de acordo para regularizar a situação dos imigrantes indocumentados, repetindo o mantra de que eles “desrespeitaram as leis do país”.

    Embora não se pode negar o fato de que ter entrado ilegalmente no país é mesmo um tipo de crime passível de penalidade, também é forçoso reconhecer que a grande maioria dos imigrantes indocumentados está aqui nos Estados Unidos para trabalhar honestamente e sustentar suas famílias. Assim, seria lógico optar-se por um tipo de anistia que os incluísse no sistema americano.

    Além de o país receber uma substancial injeção de recursos financeiros no curto prazo – em razão das multas cobradas pelo governo para regularizar a situação -, no médio e longo prazo o recolhimento dos impostos aumentaria e a economia teria um grande impulso com geração de empregos e mais investimentos.

    Deixando de lado, os aspectos econômicos, há um ponto básico que está sendo desprezado pela maioria dos líderes republicanos: a sobrevivência do partido. Os democratas já contam com a simpatia dos judeus americanos, dos negros americanos e agora estão consolidando a preferência junto aos latinos e hispânicos americanos. Resumindo: estão ampliando significativamente sua base eleitoral, da qual faz parte os brancos mais liberais e cosmopolitas.

    O irônico é a miopia dos líderes republicanos. Eles não estão percebendo que este endurecimento está empurrando os eleitores de origem latina nos braços dos democratas. Dentre os neodemocratas figuram os latinos cristãos, católicos e evangélicos que seguem os princípios conservadores, e teoricamente discordam da teoria evolucionista, desaprovam o aborto e são contrários a relacionamentos homossexuais, para destacar alguns pontos - itens que constam da cartilha dos democratas. Isto é, do ponto de vista cristão, eles se aproximam muito mais dos conceitos defendidos pelos republicanos.   

    Seria lógico, portanto, que o Partido Republicano tentasse atraí-los para suas fileiras. Porém, a xenofobia e o racismo exacerbados impedem que seja feita esta aproximação e seus porta-vozes se escudam no legalismo exagerado para incitar os parlamentares a rejeitar qualquer tipo de solução que possa regularizar a situação dos imigrantes indocumentados no país.

    Essa dicotomia pode custar caro aos republicanos no longo prazo, uma vez que seus potenciais eleitores estão posicionando-se nas trincheiras dos adversários e os recalcitrantes xenófobos podem perder a guerra em todos os sentidos – constatar o crescimento significativo do Partido Democrata e, por conseguinte, terem de amargar a derrota, com a aprovação de uma lei imigratória que tire das sombras cerca de 12 milhões de indocumentados.

    O ponto da virada é agora. Mitt Romney, caso confirme sua indicação, deveria adotar um discurso conciliatório e procurar aparar as arestas, a fim de conseguir ser aceito por todas as divisões do Partido Republicano. Do contrário, eles terão de se conformar em ver Barack Obama na Casa Branca comandando os EUA por mais quatro anos.

    Aí, quando quiserem consertar o estrago, pode ser tarde...

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    • 2 Comentários recebidos

      • Em 11/03/2012, Guto Jimenez escreveu:

        O estrago já está feito. Não há credibilidade em nenhum dos candidatos pra fazerem o eleitorado acreditar em uma mudança de postura. O GOP está cada vez mais se identificando com os "WASPs" (White Anglo-Saxon Puritans), algo quase surreal nos dias de hoje. A não ser que haja um desastre enorme, a reeleição do Obama já está no bolso.

      • Em 11/03/2012, Gustavo Horta escreveu:

        E o quico?

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