• Publicado em 29/08/2010

    Ainda aquela noite em 67

    Jean-Luc Godard chegou a declarar que documentário é a verdade em 24 quadros por segundo. Grande mentira. Por mais verdadeira que seja a captação, as imagens passarão pelas mãos do montador, este sim, autor da “verdade” exibida. Quem conhece os segredos da edição sabe que uma cena ou seqüência pode ser manipulada para o bem ou para o mal com simples inversão de uma frase ou supressão na edição final da pergunta que motivou a resposta editada.

    O documentário sobre aquela noite em 67 mostra o ponto culminante de um processo iniciado por mim anos antes com o objetivo de promover nova geração de compositores músicos e cantores que não encontravam espaço na mídia. Artistas que traziam propostas musicais e estéticas mais modernas, mais apropriadas a uma também nova platéia que encontrava naquela música eco mais coerente com sua cultura e anseios do que era servido pelo radio e televisão de então. Esse processo tinha a Bossa Nova como êmulo.

    O primeiro Festival Nacional da Música Popular Brasileira, de onde sai a sigla MPB, conseguiu abrir as portas da televisão para o elenco que teve Elis Regina com Arrastão de Edu Lobo e Vinícius de Moraes como catalisador. Não aproveitado pela TV Excelsior encontrou abrigo na Record. Contingências acidentais, como o incêndio que destruiu os estúdios, obrigaram a que toda programação fosse gravada “ao vivo”no Teatro Record Consolação.

    Foi oportunidade para exercitar o poder daquela música. Palco e platéia, cuja reação provou ser a música popular alternativa às novelas que já registravam grandes índices de audiência. Depois do Festival de 66 a programação musical da Record a colocou no primeiro lugar. Ainda no Festival de 1966, por sentir seu potencial, aconselhei Vandré que olhasse com carinho para a moda de viola.

    O resultado foi Disparada. No documentário Uma Noite em 67, minha participação se resume a frase que revela preocupação em fazer bom programa de televisão. O que era óbvio, mas, seu sentido fica distorcido se suprimido o contexto, não editado, que trazia a pergunta: “Naquele momento você sabia estar fazendo história?” Omissão que transforma e diminui a importância e até a própria razão daqueles eventos.

    O filme mostra o momento e o depois. Falta um antes, cujo teor, embora sido registrado nas quase 12 horas gravadas na minha casa, não foi utilizado na versão final. Falta o relato de meus papos com Caetano Veloso e Guilherme Araújo, então seu empresário, em prolongado jantar no então Deck da Av. 9 de Julho, sobre a necessidade da MPB deixar de lado sua temática campestre/praieira e olhar para as cidades e seus motivos urbanos, de acordo com o que acontecia naqueles tempos de “Lucy in the Sky with Diamonds” aos quais a “Alegria...” do Caetano, contrapôs “...sem lenço e sem documento” que pedia instrumentos elétricos. Das tardes onde Chico de Assis, Rogério Duptrat e eu tentávamos fazer com que os “The Six Sided Rockers”, em seguida Mutantes, tocassem moda de viola em suas guitarras.

    O caminho escolhido por Renato Terra e Ricardo Calil resultou num bom trabalho, mas para quem escreveu aquela história faltam algumas verdades.

    Autor: Solano Ribeiro (foto) é produtor musical. Criou e dirigiu os festivais de MPB da Record, na década de 60.

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    • 3 Comentários recebidos

      • Em 29/08/2010, Wanderley escreveu:

        Ainda não vi o documentário, mas dou razão ao Solano. Acompanhei todo o processo, desde 66, como repórter do Jornal da Tarde. Faltou citar seu companheiro na empreitada, de quem ando numa saudade danada, o Luiz Vergueiro, grande amigo e camarada.

      • Em 29/08/2010, Roberto escreveu:

        Senti falta da restauração das imagens e da remasterização do audio, à exemplo do que tem sido feito com os programas de TV dos EUA, como Ed Sullivan - todos muito bem restaurados. Uma pena não haver o compromisso com a qualidade do material histórico da TV brasileira.

      • Em 30/08/2010, Tito Rosemberg escreveu:

        Cadê o crédito do autor deste texto? Cadê o nome do retratado na foto sem legenda? Olha o bom jornalismo aí pessoal!

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