• Publicado em 26/02/2012

    As liberdades de Cuba

     

    O assunto “Cuba” andou frequentando o DR nas  últimas semanas, não apenas em função da visita da Presidenta Dilma à ilha caribenha – e o tucanato de plantão espichou as orelhas, vendo no fato  uma oportunidade de formulações críticas à postura do Estado Brasileiro -, mas também porque a visita provocou, por parte da grande mídia, muitas reportagens, todas, invariavelmente, contrárias ao regime cubano e todas, invariavelmente, deixando de observar o saudável princípio do contraditório que recomenda, na busca de uma hipotética verdade, a audição das duas partes envolvidas.  Aqui no site, é claro, os artigos que trataram do assunto enfocaram esses distintos pontos de vista.

    Como não me manifestei então, faço-o agora, movido não apenas pelo desejo da não omissão, mas também pelo fascínio do  tema, que integra minha visão  do mundo desde o tempo de jovem, quando os guerrilheiros de Sierra  Maestra derrubaram o  governo de Fulgencio Batista, então amparado pelos Estados Unidos, em uma época em que se fazia de muitos países da América Latina – Cuba, principalmente – um grande quintal  americano,  um quintal sujo pelas atividades mafiosas, pela corrupção generalizada, e pela desavergonhada exploração do povo cubano  por uma elite que fazia o jogo do imperialismo. Esses não  são termos usados ao acaso, não são chavões de que me valho para retratar a situação de então. Qualquer ida aos livros mostra que  a política do “big stick” do Roosevelt do início do século XX veio tendo desdobramentos e materializações em intervenções militares nos países considerados “focos desestabilizadores” ou na sustentação de governos corruptos que representavam seus interesses políticos e/ou econômicos (caso da Cuba de então).

    Maiores justificativas não poderia haver para a Revolução Cubana que então se efetivou, com franco apoio popular. E a animosidade em relação aos americanos, se já tinha esses antecedentes históricos, mais profunda se tornou após a malograda tentativa da invasão por refugiados e mercenários (treinados e contratados pela CIA) na Baía de Porcos.

    De lá para cá, é preciso entender a história da ilha e das opções ideológicas e estratégicas do governo fidelista a partir da correlação de forças que rachava o planeta na chamada guerra fria. Os aliados cubanos não poderiam ser outros senão os que representavam, à época, a negação do capitalismo explorador  que a ilha experimentara de perto e não queria ver revivido.

    Do jovem idealista que via a Revolução cubana como uma marca da liberdade, até o homem maduro de hoje, fui acompanhando a distância o que acontecia na ilha, nem sempre amparado por notícias confiáveis, até que resolvi, em 2004, ir a Cuba. O regime já estava passando por sérios problemas decorrentes do isolamento submetido pelos americanos, o bloqueio, agora sem o contraponto aliado do mundo socialista que havia ruído. Mas eu queria ver de perto o que acontecia e, de alguma forma, resgatar uma história que me tinha sido tão cara nos tempos da juventude.

    Claro que foi uma viagem no tempo, como se costuma dizer ao mencionar os velhos carros americanos deixados na ilha pela elite em fuga e a ausência de aparatos tecnológicos e de conforto que a realidade da ilha não permitia. Encontrei, aqui e ali, alguns sinais de que o sistema socialista não poderia resistir imutável por muito tempo, seja porque os jovens ansiavam por um outro descortino do mundo, seja porque os próprios setores governamentais, principalmente através do turismo, percebiam que a abertura era uma questão de sobrevivência.

    Mas tive oportunidade de ver – sem qualquer dificuldade – que, também como componente daquela “parada no tempo” (se pensarmos nos valores do “progresso tecnológico” de hoje), havia aspectos realmente dignos de destaque positivo: os cubanos não possuíam mendigos nem crianças abandonadas pelas ruas, e disso se orgulhavam: os cubanos não morreriam desassistidos pelas autoridades de saúde, pois tinham um sistema de referência mundial; os cubanos não tinham analfabetos (foi interessante perceber que os jovens adolescentes, em sua maioria, liam muito: quase todos conheciam, por ler, obras clássicas consagradas, como o Dom Quixote); os cubanos tinham uma saudável educação do corpo; a droga e a prostituição, se existiam, eram absolutamente pouco significativas, se comparadas com os “padrões” ocidentais.  

    Voltei com duas convicções. A primeira, de que, seria inevitável a abertura cubana, lenta e gradual, não por causa da perversa pressão norte-americana, que se mostrou inócua durante mais de 50 anos , mesmo diante de uma pequena ilha a uma hora de Miami e com uma base inimiga em seu território, mas porque os tempos imporiam, infelizmente, tais mudanças. Cuidadosas mudanças, para não permitir a volta ao regime de quintal e a presença de espiões, agentes e sabotadores ávidos por um festim desestabilizador...  A segunda convicção é a de que, se, após a distensão, Cuba souber manter as suas grandes conquistas sociais, sem paralelo em qualquer ponto da América Latina – e poderá, dado o grau de politização do seu povo - certamente se transformará, logo nas primeiras décadas deste século, no país mais exitoso de todo o complexo latino-americano.

    As liberdades de ir e vir e de expressar-se são, sim, viscerais e importantes. Mas são relativas e não são as únicas. Um país que mantém mendigos, miseráveis e analfabetos, por exemplo, não lhes permite tais liberdades. Um país que comercializa a saúde e a educação, por exemplo, desconsidera muitas outras liberdades, tão ou mais relevantes para a dignidade humana.

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    • 21 Comentários recebidos

      • Em 26/02/2012, BCManhaes escreveu:

        Alongo dos tempos, tenho procurado saber mais sobre Cuba, hoje tomando conhecimento dos fatos e ao ler este artigo, digo, estamos juntos pois vamos vencer todos os obstaculos na manutenção dos ideais da Revolução. Saudações ao povo Cubano

      • Em 26/02/2012, Renato Villa Verde escreveu:

        Parece me a descrição de um paraíso. Gostaria de ver as fotos.

      • Em 26/02/2012, Alamar Régis Carvalho escreveu:

        Eu também vi o artigo do jeito que o Renato viu: parece a descrição de um paraíso. Conhecemos também essa história mas sabemos que a realidade da qualidade de vida lá não é nada disto, muito pelo contrário, muita miséria, muita carência e ditadura total. Lembro-me da história REAL dos esportistas cubanos que, quando vieram ao Brasil, por ocasião do Panamericano, tiveram que comprar, aqui, até papel higiênico para levar para lá, tendo manifestado até alegria em terem tomado banho com sabonete nos hotéis daqui. E não foi a tal "imprensa golpista" que narrou isto não, foram eles mesmos, filhos da ilha, quem disseram isto. Estamos ai, diante do quadro da blogueira que não pode sair do país. Um regime desse, deve ser copiado por quem?

      • Em 26/02/2012, Ricardo escreveu:

        Podia-se dizer que o Brasil nao teve a sorte que Cuba teve. Politicamente gozar de uma certa independencia do neoliberalismo y criar seu própio destino. Eu me pergunto se o Brasil seria capaz de uma revolucao social? A nossa presidenta é uma testemunha desta tentativa e isso me cheira ironico.

      • Em 26/02/2012, Fernando Bernardo escreveu:

        Quando o comunismo cair,vcs vão ver que só existe é PROPAGANDA pró-Cuba !. Cansei de ver isso naquelas barracas que ficavam na Cinelãndia, qui no Rio, cheias de livros que exaltavsam os ditadores d'antanho. Quando caíram, trocaram por Bob marley, alcorão até que acabaram com as barracas !. Cuba não passa de uma FAVELA com raríssimas construções feitas antes de 1959 que conservam alguma dignidade. Como me explicam que Fulgencio Batista mantinha GP de fórmula 1 ( O Fangio chegou a ser sequestrado ), se isso NÃO era de intreresse dos EUA ?. Basta uma calça jeans dessa de R$ 20, lá de Vilar dos Teles mesmo, para conseguir o que quiseres de muitas moças cubanas, especialmente, das ligadas ao PC local !. Ateísmo é isso ae !.

      • Em 26/02/2012, José Frid escreveu:

        Parece piada falar em paraíso em Cuba. Se é tão bom assim, por que os cubanos são proibidos de sair de Cuba? Quem não gostaria de morar num paraíso? Por que não há uma imigração em massa para o paraíso cubano? Por que quem está fora, no Brasil por exemplo, e pode viajar para lá, adora Cuba? Será que não percebem que os cubanos não podem vir ao Brasil? Na verdade os cubanos são prisioneiros de seu governo! A ideologia cega!

      • Em 27/02/2012, Júlio escreveu:

        Dados Geograficos de Cuba Área: 110.861 km²; População: 11,23 milhões (estimativa 2009), Densidade Demográfica: 102 hab./km2 Composição da População: afro-cubanos 51%, europeus ibéricos 37%, afro-americanos 11%, chineses 1% ECONOMIA: Produtos Agrícolas: cana-de-açúcar (principal), tabaco, arroz e frutas tropicais (banana, laranja, abacaxi). Pecuária: bovinos, eqüinos, aves e suínos. Mineração: níquel, cobre, cromita e cobalto. Dados Geograficos do Estado de São Paulo. População: 41,4 milhões hab. (estimado 2010). Área: 248.209 km². Só o PIB de São Paulo é 10 vezes maior do que a ilha inteira. Qual a qualidade de Cuba alem de seu povo, Ser um pais ilha. Se nao fosse por isso ja teriam a muito tempo acabado com a ditadura. Bebes e politicos devem ser trocados pelo mesmo motivo, se ficam muito tempo sozinhos fazem muita caca...

      • Em 27/02/2012, Fidel Dias escreveu:

        Com excessão de -Os tempos imporiam, "infelizmente", tais mudaças-aí você brincou, foi bom compartilhar esse texto muito bem fundamentado. A falta de liberdade e a opressão em Cuba é uma vergonha a qualquer pessoa de caráter.

      • Em 27/02/2012, Jorge Nunes escreveu:

        Qualquer argumento em defesa ao regime cubano e suas conquistas vai esbarrar sempre na questão do cerceamento das liberdades individuais básicas que há na Ilha, como o direito de ir e vir e de ter uma opinião própria e divergente do status quo. É como se o conceito de "felicidade" tivesse sido criado artificialmente num laboratório e fosse imposto à força, sem alternativa para a sociedade. O regime flutua ainda sobre o carisma de Fidel, e assim vai se manter até o naufrágio final do comandante. E os cubanos de Miami, de volta, vão lotear a Ilha sem dó.

      • Em 28/02/2012, Valmor escreveu:

        Acho emocionante a ginastica retórica pra defender Cuba. Pior que isso só o futuro glorioso para a ilha prevista pelo autor. Não consigo entender no que ele se baseou para emitir essa opinião.

      • Em 28/02/2012, Marcelo Silva escreveu:

        Depois desse texto, acho que finalmente entendi porque há tantos textos no DR acerca dessa ilha que nem de longe possui a relevância que os articulistas (Motta Lima, Mair Neto, Jacobskind e Uraniano) lhe atribuem. Na juventude desses hoje homens maduros, a ilha representava a miragem de um mundo idílico, destinado a abrigar a humanidade em seu mais elevado estágio. Mas não passou disso: uma miragem, uma pintura. O problema é o apego ao sonho juvenil, o inconformismo com a derrocada do socialismo. Essa, para mim, é a única explicação... Senão, como justificar que nenhum deles ousou trocar o nosso desmazelado purgatório tupiniquim pela paradisíaca ilha caribenha? Afinal, Cuba é ótimo... para passar as férias...

      • Em 28/02/2012, José Emilio Gomes escreveu:

        O IDH (indice de desenvolvimento humano) de Cuba em 2011 ficou em 0,78 (51o. lugar no mundo), enquanto o do Brasil ficou em 0,72 (82o. lugar no mundo). O que que os críticos de Cuba teriam a dizer a respeito?

      • Em 28/02/2012, Alamar Régis Carvalho escreveu:

        Eu não consigo entender porque alguns fazem tanta propaganda de Cuba, subestimando a inteligência de pessoas que não são cegas, não são tolas e muito menos acéfalas. Hoje, com a facilidade do tráfego da informação fácil, todo mundo sabe o que acontece lá, como vivem as pessoas de lá, sem direito de ir e vir, sem liberdade nenhuma. Como é que pode um brasileiro, que tem o mínimo de lucidez e inteligência, achar aquilo bom. Um detalhe que eu já percebi, é que alguns conhecidos meus, esquerdistas, que também sofrem desse fanatismo por Cuba e por Fidel, mas são cheios de grana, quando resolvem sair de férias com as suas famílias e filhos, geralmente vão para Miami, Paris, Londres, etc... Uai, por que não vão para Cuba? Será que os seus filhos iriam adorar passar férias lá? E outra pergunta: Por que não vão morar lá, já que todo mundo almeja viver no Paraíso? Ou será que os leitores do DR são trouxas? Acho que o nível aqui é de gente que pensa.

      • Em 28/02/2012, fabio nogueira escreveu:

        Alamar,como voce exergar o direito de ir e vim?Se,o senhor olha pel nosso lado(povo brasileiro),muitas das vezes somos privados desse mesma liberdade.Basta olhar as periférias,onde os moradores tem hora de ir e vim.O trafico e as policias militares fazem o que bem querem com o moradores de comunidades(favelados).O maior exemplo vem acontecendo no complexo do Alemão.Há anos o tráfico mandava e desmadava lá dentro,hoje o exercito faz o mesmo,e reprimindo sem mais nem menos esses moradores.Qual é a diferença até então? Falar mal de Cuba é muito fácil,diga a qualquer cubano qual o seu maior argulho? é cada responderá que é ser um REVOLUCIONÁRIO!!! O que é viver em liberdade? É viver na ignorancia como o nosso povo?Não ter um hospital para ser tratado como gente? É não saber ler ou escrever? Se isso é viver em liberdade no Brasil,prefiro viver em Cuba. !!VIVA A REVOLUÇÃO!!

      • Em 29/02/2012, Valmor escreveu:

        Entendi o argumento do IDH, do orgulho revolucionário. Mas se é tão bom viver lá, porque não se pode sair de Cuba livremente???

      • Em 29/02/2012, fabio nogueira escreveu:

        Aqui tembém pode?

      • Em 02/04/2012, Carlos Maurício Ardissone escreveu:

        Sr. José Emílio Gomes: se IDH for parâmetro, então o "trabalho" de Pinochet foi superior ao de Fidel, porque o IDH do Chile é, disparado, o maior da América Latina, e se tornou o maior com Pinochet, não com Allende. Mas não. São dois ditadores sanguinários que só merecem o meu desprezo. Interessante como a questão dos presos políticos fica totalmente esquecida no texto, obviamente sem nenhuma isenção.

      • Em 03/04/2012, Carlos Maurício Ardissone escreveu:

        Sobre essse trecho do texto: "As liberdades de ir e vir e de expressar-se são, sim, viscerais e importantes. Mas são relativas e não são as únicas. Um país que mantém mendigos, miseráveis e analfabetos, por exemplo, não lhes permite tais liberdades", parece que o autor quer justificar a falta do direito de ir e vir em Cuba em função de uma suposta (e exageradamente bem afamada) universalização de acesso dos serviços sociais básicos à população. Ou seja: é melhor renunciar à liberdade para ter pão e hospital. Ora, porque não podemos lutar pelas duas coisas? Não temos direito à tudo? De que adianta também me alimentarem e cuidarem da minha saúde se, por outro lado, tolem minha liberdade de locomoção e pensamento, se me doutrinam? Não podemos ter ambos? O que não concordo é essa tolerância com um regime de exceção e sanguinário. Falam mal dos militares, mas endeusam "el gran Comandante", de farda.

      • Em 03/04/2012, Carlos Maurício Ardissone escreveu:

        Sr, Fábio, por acaso o Senhor tem alguma restrição para viajar para onde quiser? Os traficantes do Alemão ou de qualquer outro lugar lhe impedem de sair do país? Repare que as analogias que faz são despropositais. Devemos sim nos preocupar com as parcelas de nossa população que vivem sob o domínio do tráfico e de outros grupos criminosos e lutar pela presença do Estado. Mas, ao contrário do que ocorre em Cuba, não é o Estado que me diz ou a qualquer outro cidadão brasileiro: "não pode sair do país" ou "não pode ir para onde bem quiser". Aqui o Estado tole a liberdade do Senhor de se locomover e expressar suas ideias? O Senhor acha que sites como este, que permitem o contraditório e o debate, são permitidos em Cuba? Não são não.

      • Em 08/08/2012, Celio escreveu:

        A burguesia adora este discurso de ir e vir, compreensivel, afinal o Brasil é atualmente um dos países que mais fazem viagens internacionais, enquanto isso o resto da população, a que está abaido da media do IDH, a que é obrigada a conviver com a péssima saúde pública, a péssima educação. Para ela, escrava das desigualdades a liberdade de ir e vir só é permitida até onde os pés alcançamç e por dois motivos, o primeiro o de não terem dinheiro para viajar, e o segundo por terem que trabalhar, vendendo muitas vezes as suas férias (quando teem). Enquando isso ouvimos essa burguesia hipocrita que nao conhece o seu pais falando do direito de ir e vir.

      • Em 21/02/2013, Eduardo Homem escreveu:

        Direito de ir e vir com um bando de viciados me assaltando em qualquer lugar e a qualquer hora.Ruas Comunidades e condomínios dominados por milícias,policial e Juiz ladrão.Otários que pagam impostos para manterem uma Universidade Estatal formar Médicos e ele depois cobrar 300% de salário mais que um professor e por aí vamos.Só não se vai morar em Cuba por que se é Brasileiro e quer que o país seja igual. Eduardo Homem Rio

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