- Publicado em 24/01/2012
Carnavais fora de época
Os “carnavais fora de época” e outras promoções semelhantes estão a perturbar o sossego de milhares ou milhões de pessoas, nas mais diversas cidades brasileiras.
Respeito a opinião daqueles que aprovam essa iniciativa. Compreendo que muitos se divirtam com esse Carnaval fora do calendário tradicional.
Mas não estou sozinho na minha oposição. Os protestos publicados nas colunas de cartas dos leitores dos jornais demonstram que muita gente está sendo incomodada.
No Ceará, manifestando-se sobre os carnavais fora de época, o advogado Paulo Maria de Aragão denuncia, como uma das consequências dessas festas exdrúxulas, o rompimento do pacto de respeito recíproco, que deve caracterizar uma sociedade civilizada.
De qualquer forma, o debate é sempre útil. A divergência ilumina a análise dos fatos.
A meu ver (embora reconhecendo que possa estar enganado), os maiores interessados nessas promoções são os fabricantes de cerveja e outras bebidas, beneficiando-se da situação também os que vivem do comércio de drogas.
No ambiente criado artificialmente pelos “carnavais fora de época”, a juventude é induzida a beber exageradamente, a embriagar-se, a entregar-se ao hedonismo irresponsável.
O saldo desses eventos, nas mais diversas cidades onde se realizam, tem sido sempre de várias mortes e muitos feridos.
Não se trata de condenar a alegria, tão benéfica à vida humana. Não se trata de querer que a juventude envelheça antes do tempo. Trata-se de protestar contra a massificação dos jovens, a transformação dos jovens em objetos de consumo.
Trata-se também de defender a cidadania e a privacidade, a liberdade de ir e vir, a própria inviolabilidade do lar contra as agressões absurdas dos “carnavais fora de época”, realizados não em locais distantes, mas dentro das cidades, às vezes até mesmo em bairros residenciais.
O Carnaval, na época devida, tem toda uma tradição, é festa do povo, deita raízes na cultura brasileira. O Carnaval fora de época é invenção comercial, simples expediente para forçar o consumo, sem qualquer noção de respeito aos direitos da pessoa e da família e às liberdades constitucionais. Em toda parte onde se realiza, esse Carnaval anômalo prima pelo abuso e pelo completo desconhecimento de uma máxima simples e sábia: “meu direito termina onde começa o direito alheio”.
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5 Comentários recebidos
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Sobre o autor deste artigoJoão Batista Herkenhoff
João Baptista Herkenhoff, magistrado aposentado, é professor da Faculdade Estácio de Sá de Vila Velha (ES), palestrante e escritor. Autor do livro: Filosofia do Direito (GZ Editora, Rio de Janeiro). Artigos mais recentes do autorCarnaval e cidadaniaA tarefa de julgarEscola para vestibular?Cidadania: um olhar no futuroFicha suja, vade retroUma luta que não é mais solitáriaA nova face da luta pelos direitos humanosA Comissão da Verdade e a Tortura Silêncio e cidadaniaO que é uma boa ação? Todos os artigos deste autor



Em 25/01/2012, Jose Roberto Jardim escreveu:
Esta invencão brasileira so serve mesmo para estender o que deveria ser limitado a quatro noites. Na esteira destas festas jovens perdem a vida nas estradas .Tradicionalmente ,desde o anos 70,aqui no sul de minas, somente a cidade de Aiuruoca fazia um carnaval uma semana antes. Hoje ja sao 5 cidades.Haja policiamento pra tudo isto. Poucos ganham e muitos perdem. Mas este é um país que vai pra frente Ô Ô Ô Ô !!
Em 26/01/2012, Saint-Clair escreveu:
Ai de quem se manifesta contra essas balbúrdias institucionalizadas. É um criador de caso, um implicante, não gosta de ver a alegria do povo, etc...etc... Quem lucra com esses absurdos são os pseudo artistas de plantão.
Em 27/01/2012, João Carlos escreveu:
É isso aí, o Norte e o Nordeste passam o ano inteiro inventando datas e desculpas para festejar o ano inteiro enquanto o Sul e o Sudeste puxam o trem.
Em 29/01/2012, JORGE escreveu:
Acho que os que promovem estas festas fora de época lucram muito como disse nosso colega João Batista. E sabem que é que promove estas festas a rede Grobo,podem observar que muitas festas só a Grobo tem direito exclusivo de exibir na tela,então não é só as fabricantes de cerveja,será que ela lucra algo com isso? Fica ai minha pergunta .....
Em 29/01/2012, Antonio Henrique Dantas Silva escreveu:
Parabéns pelo artigo, sou um dos que sofrem com esses bacanais organizados pelas prefeituras. Moro em Feira de Santana, uma das cidades mais violentas do país, e ainda temos que penar com essa desgraça de "festa". Aqui, a prefeitura interdita a Rodovia Pres. Dutra por 4 dias, organiza a saturnália entre áreas residenciais e comerciais, o comércio perde e nós moradores da área periferica ao Micareta, perdemos o sono e o sossego. São 5 noites infernais, a violência triplica, mas a secretaria de segurança impôs uma regra que só pode ser computado o homicídio caso tenha ocorrido no circuito da "festa", o que ocorrer por fora não entra nas estatísticas. A droga rola solta, nos camarotes dos poderosos, frequentados pelas "autoridades", é de conhecimento geral um famoso camarote, o "camarote do pó" Nos camarotes os ricos cheiram, em baixo o populacho se mata. Mas o circo não pode parar. E este ano principalmente, Ano Eleitoral, tem que manter a turba alegre, é a política do Panis et circencis.