- Publicado em 19/01/2012
Cartas camponesas
A coluna de hoje poderia ser chamada também de “a humanidade fora do rádio”. Ou de “a inteligência fora das ondas, fora dos sinais de toda e qualquer mídia”. Mas deixo o título acima para ser fiel ao espírito do que vão ler. Antes, um breve esclarecimento.
As cartas a seguir foram dirigidas ao programa “Acorda, camponês”, que a partir de 1987 esteve no ar da Rádio Tamandaré. Nele estivemos ao lado de Ruy Sarinho e Marco Albertim, que produziam, faziam reportagens e editavam tudo. Eu, no papel improvisado de apresentador, com direito a virar repórter, sempre que necessário. O certo é que duramos dois anos, no ar todos os domingos, das 5 às 6 da manhã. Os usineiros e donos de engenho de Pernambuco a princípio não sabiam que o programa era gravado, e ligavam para a emissora, ameaçando invadir o estúdio para acabar à bala a subversão.
O “Acorda, camponês” era patrocinado pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Pernambuco, a Fetape, que a ele dava substância, vida e orientação. Os trabalhadores fizeram do "Acorda" uma coisa muito bonita, até em resultados de audiência. Por muito tempo o programa foi líder, a partir das 5 da manhã, chegando até a “derrubar” o lendário Forró do Lacerdinha, da Rádio Clube, que comandava o Ibope vários anos antes do "Acorda, Camponês". Como era possível um programa de denúncia, de esclarecimento dos direitos do trabalhador do campo, ser tão ouvido e amado? Em outra oportunidade, tentaremos responder.
No fim o “Acorda, Camponês” saiu do ar de forma brusca, sem aviso prévio, como quem despede um moleque, na Rádio Tamandaré, do Sistema Verdes Mares de Comunicação. Notem: era um programa pago à emissora, no preço que ela ditou, com números recordes de audiência, em um horário “morto” da madrugada. E fomos cortados de forma arbitrária, sem explicações. Mas por ora, vamos ao que mais importa. Em um feliz acaso, descoberto pela senhora Francêsca, que suporta a pessoa do colunista no papel de marido, segue a cópia de duas cartas.
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“Engenho Pranalto, 17-5-88
Saudação
Eu estou escrevendo esta minha carta a este brilhante maravilhoso programa acorda camponês, que eu estou toda de manhã com o meu rádio no travesseiro ouvindo acorda, camponês. Eu fico muito feliz de ouvir vocês falar. Vocês falam que está difícil pra essa reforma da terra sair. O que está faltando é se unir todos os trabalhadores, se unir um com outro trabalhador, rurais da cidade e periferia, trabalhadores das indústrias, todos esses trabalhadores se unir. Então assim essa reforma agrária da terra era resolvida.
Esteja sempre ao nosso lado nos ajudando. Vocês sabem, tudo unido vai avante, assim nós seremos nós mais nossa luta. Vocês olhem e pensem e meditem das produções e demais trabalhadores do campo. Nos ajudem para nós alcançar a vitória da reforma agrária da terra.
Lembrança ao radialista que foi ao acorda, camponês. Eu também vai lembrança e um forte abraço pra Sinésio. Não se esqueça de mim. Todo domingo estou ligado ao programa acorda camponês. Aqui eu fico com estas minhas palavras. Desculpe os erros.
Fim
Francisco Gomes Barbosa”
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“Engenho Acaú, 3 de 4 de 88
Prezados companheiros que fazem o programa acorda camponês. É pela terceira vez que escrevo para este maravilhoso programa. Venho por meio desta dizer-lhes que sou um ouvinte autêntico deste programa e do violência zero. Aí vai o nosso sincero abraço para todos que fazem os mesmos... Companheiro, aí vai um apelo para que a Fetape, a Contag e todas as entidades sindicais façam esta pergunta a nossas autoridades, que constituem o nosso país, principalmente o nosso ministro e ao nosso presidente e governo do estado Pernambuco, e todos os trabalhadores de Pernambuco queremos saber desta resposta.
Eis aí:
Como podemos viver neste país? Se roubamos, vamos presos. Se assaltamos, também. E se vamos trabalhar para alimentar os nossos filhos e para a grandeza do nosso país, somos mortos. Só agradecemos todos os trabalhadores de Condado.
Peço que leia, mas não anuncie o meu nome, pra eu não ser ameaçado, que aqui a boca é quente. Nós do município de Condado queremos justiça pelo que aconteceu em nosso município e vem acontecendo em nosso país. Só nosso sincero abraço, assina aqui o trabalhador
(Nome riscado), Acaú de Baixo, Condado – PE”
Ouçam um trecho de um programa de 1987, aqui
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Sobre o autor deste artigoUrariano Mota - Recife
É pernambucano, jornalista e autor de "Soledad no Recife", recriação dos últimos dias de Soledad Barret, mulher do cabo Anselmo, executada pela equipe do Delegado Fleury com o auxílio de Anselmo. Artigos mais recentes do autorA canção do Rei contra a ditaduraUm caso exemplar de cotas para negrosAs cotas para negros nas universidadesComo ensinar literatura na escolaBanqueiros querem mais lucrosA Comissão da Verdade e os escritoresMillôr em preto e brancoMais um Jean Charles de MenezesA ditadura brasileira aparece na ItáliaO Recife falando para o mundo Todos os artigos deste autor


Em 19/01/2012, João Carlos escreveu:
Certamente ninguém jamais foi morto no campo por querer trabalhar e alimentar seus filhos. Com toda certeza ele estava se referindo aos invasores de terras,bandidos,terroristas de esquerda disfarçados de trabalhadores rurais sem terra (isso realmente existe?)e que foram mortos nos confrontos com os proprietários legais do solo. Nas cidades há os trabalhadores urbanos sem farmácia, sem lojas, sem fábricas, sem... Se a moda pega no entrar e tomar conta, salve-se quem puder.
Em 19/01/2012, Joao Florentino DaSilva escreveu:
Urariano, derramei algumas lagrimas lendo a carta singela no inicio da postagem, isso me remete a coisa de 50 anos atras quando meu sonho de menino era, ter um pedaco de terra e produzir alimentos. Nao foi possivel, porque, no meu esforco para conseguir meu sonho, acabei sendo "empurrado" para a cidade grande e, de la para fora do pais, por conta da violencia reinante dos desmandos politicos entre outras coisas. Me fiz um "mau" sonhador que, agora, longe de casa (ja ha 10 anos) dos amigos, da terra e, da luta, me vejo, saudosista em extremo e chorao. Abraco grande.
Em 19/01/2012, D. Alonso escreveu:
Maravilhoso resgate do passado, caro Urariano. Continue a nos brindar com a sua fabulosa memória histórica. Parabéns.
Em 19/01/2012, Xico Júnior escreveu:
Prezado João Carlos! Não vamos, como sempre acontece, transferir a culpa para pseudos SEM TERRA, pois que a matança, os assassinatos por parte dos fazendeiros existem disso não há a menor dúvida. E são feitas não contra os "pseudos Sem Terra", mas aos bem intencionados. Tomemos como exemplo Chico Mendes e a irmãos Dorothy Stang. Ou seriam estes TAMBÉM PSEUDOS SEM TERRA? Não é acobertando os fazendeiros marginais e assassinos, como acontecia com os "coronéis" no RS, que vamos solucionar a questão da distribuição das terras, num País onde poucos tem muitas terras e muitos não tem absolutamente nada. Investigação e "pena de morte" aos fazendeiros assassinos é a melhor e única solução para a questão da divisão de terras.
Em 19/01/2012, Claudio Tassitch escreveu:
Urariano, Eu o felicito pelos artigos sempre muito bons mas, neste em particular, interessou-me bastante o "Forró do Lacerdinha" que deveria estar no auge quando visitei Pernambuco, em 1980. Você poderia falar alguma coisa sobre aquele programa? Com certeza devem existir trechos interessantes do mesmo. Ai meu Deus...! Que saudade dos forrós que vi e ouvi na sua terra! Nunca fui bom dançarino e hoje menos ainda, a hérnia de disco não me deixa muito espaço para nenhum ritmo. Mas, eu quero muito recordar! Felicidades e um grande abraço do amigo. Claudio. PS - Talvez seja possível um áudio como este que você mandou no artigo atual.
Em 20/01/2012, CarlosAC escreveu:
O Senhor João Carlos deve ser de outro planeta ou então um tapado que só lê a revista Veja.
Em 20/01/2012, Jabesmar Aguiar Guimarães escreveu:
Caro Uraniano, normalmente estamos de lado oposto do debate. Para mim e nossas “discórdias” ficam apenas no campo das ideias. Concordo que nos movimentos sociais estão infiltrados aproveitadores. Conheço, aqui na Grande Vitória, pessoas que participaram de invasões com a única intenção de vender o terreno, pois já têm casa. Sei também de “sem terras” no interior do ES que vendem sua terra no assentamento, mas é exceção. Um parente de minha esposa comprou a propriedade de um. Mas dai a fingir que não existiram e existam fazendeiros que exploravam (exploram) os trabalhadores do campo e até mesmo eliminaram (e ainda eliminam) os pequenos proprietários para aumentar suas fazendas, é outra estória. Ainda existe muita injustiça social no Brasil e é preciso melhorar isto. O que não concordo é com a política paternalista através do que o Lula já chamou de bolsa esmola. Tem é que se dar aos cidadãos condições de ganhar a vida de modo digno. Tem que melhorar o ensino público, a saúde etc.
Em 20/01/2012, jose antonio conceição escreveu:
Companheiro Urariano, ouvir esse programa, feito a tanto tempo,me transpotou pra meu tempo de menino que ficava com o ouvido colado no rádio ouvindo Luiz Gonzaga,programas como esse são ainda hoje de grande valia pro trabalhador rural, ainda transportam gente feito gado nos dias de hoje, os uzineiros, ou filhos e netos destes,continuam maltratando trabalhadores e os desrespieitando.
Em 22/01/2012, Paulo Franco escreveu:
Bravo!, Urariano!
Em 24/01/2012, Ruy Sarinho escreveu:
Meu amigo Urariano Mota, Sobre o pedido do seu leitor Claudio Tassitch, de trechos do "Forró do Lacerdinha", nosso Mestre da comunicação popular do rádio pernambucano nesse tipo de programa, tenho, em parte, o que ele pede. Nos anos 90, dirigi Lacerdinha em dois projetos/programas nos Governos Carlos Wilson e Arraes, com o Despertar no Campo e o Viva, Pernambuco! Este último, na Rádio Olinda Am, Emissora na qual ele fazia o Forró do Lacerdinha. Foi um programa, ao vivo, em cadeia com 13 rádios do Interior. Vendíamos o peixe do governo, num horário que nada tinha de chapa branca, com o molho do forró, e que divulgava o mestre e a cultura pernambucana, que era a sua alma. Acabei de achar uma fita cassete de uma edição do Viva, Pernambuco! Caso a gravação esteja em ordem, copiarei, no sábado(28.01) e enviarei, por link, para você encamimhar a Claudio, junto com fotos de Lacerdinha no estúdio. Um abraço, Ruy sarinho/Olinda-PE
Em 07/02/2012, Lúcia Maria de Lira e Silva escreveu:
parabens, o radio e radialistas comprometidos com o conhecimento construtivo tem sido importantissimo na luta caponesa por justiça social e cidadania.Contamos com Urariano e outros... Agradecemos