- Publicado em 03/11/2011
Chama o ladrão!
Depois dizem que não dá para morar no Rio por causa da violência. Porque no Rio não se pode andar nas ruas, porque no Rio os arrastões pegam todo mundo em túneis e avenidas, porque no Rio as balas perdidas atingem inocentes a toda hora. Tudo bem, ninguém discute. Mas não dá para esconder que a violência em São Paulo está igual ou pior que a carioca.
Pelo andar dos acontecimentos a terra da Garoa está fazendo jus ao nome de suas principais vias de acesso à cidade chamadas de Marginais, quando o assunto é criminalidade. A quantidade de ocorrências policiais é tanta que chega a não caber nas primeiras páginas de sites e jornais de papel. São tantos e tão diferentes os tipos de crimes que deixam qualquer um com medo de andar pelas ruas da maior metrópole da América Latina.
Em agosto último, estava eu aguardando a mala na esteira do aeroporto internacional de São Paulo, quando fui abordada por um senhor de cabeça branca que me perguntou qual tipo de relógio eu estava usando e se portava bolsa ou bagagem que chamasse a atenção com laptop dentro. Respondi que não, que não estava usando nada “de marca” como o pessoal costuma dizer no Brasil.
O tal senhor pediu-me desculpas pela abordagem, mas que, ao me reconhecer e sabendo que moro fora do Brasil, sentiu-se na obrigação de me avisar de um novo golpe na praça.
Ele contou-me que andava a pé em uma rua movimentada dos Jardins, quando um homem se aproximou, sorridente, e deu-lhe um abraço como só grandes amigos se dão. Nesse abraço, ele já sentiu o cano de uma arma em suas costas, enquanto o “amigo” sorria e lhe dizia entredentes para sorrir também e fingir que o conhecia. A cena durou menos de um minuto, e o “amigo” saiu levando carteira, relógio e a bolsa com o laptop. E ainda se despediu sorrindo e falando “aparece lá em casa”.
Esse é apenas mais um golpe entre tantos que os paulistanos e inocentes turistas têm que enfrentar no dia a dia violento e perigoso nas ruas da capital paulista. Que o diga o turista francês, agredido sem nenhuma razão na tradicional Rua Augusta.
Por volta das duas da manhã, enquanto atravessava a rua com dois amigos, saindo de um restaurante, o francês sentiu uma pancada tão forte no rosto que pensou ter batido num poste. Mas não foi nada disso. Ele foi agredido por alguém que usava um “soco inglês” que lhe deixou sangrando com uma fratura que mereceu uma cirurgia de emergência Hospital das Clínicas. O agressor desapareceu e o pobre francês acha que, pela gratuidade da agressão, deve ter sido confundido com um homossexual, o que, segundo a polícia, é perfeitamente possível, pois há muitos outros casos de agressão desse tipo, registrados na mesma área, a maioria deles praticados pelos chamados “skinheads”, sempre com motivação homofóbica.
O turista francês comentou que, antes de ir à São Paulo, passou pelo Rio de Janeiro, onde circulou por ruas de grande movimento, passou perto das favelas cariocas e áreas pobres da cidade e não teve nenhum problema. Foi tê-lo numa região paulista considerada de classe alta e com fama de ser bem policiada. Ironia do destino?
Bem, mas pra terminar a coluna, não os casos de violência que são intermináveis, li a história de um outro homem que, ao passar pela portaria do prédio onde mora, no Morumbi, foi rendido por um bando de assaltantes que realizava naquele momento um arrastão nos apartamentos. O porteiro e os moradores que passavam eram levados para um quartinho no andar térreo, como manda o figurino desse tipo de assalto, que virou rotina nas duas principais metróploes brasileiras.
Mas o interessante nessa história, é que o morador resolveu ir à delegacia de polícia dar queixa do roubo, do qual ele e os demais moradores tinham sido vítimas. Em conversa informal com os policiais que estavam de serviço, nosso personagem ouviu deles o conselho mais absurdo e bizarro que poderia imaginar:
“O senhor deveria se mudar do Morumbi, é um bairro muito perigoso e quase todos os dias tem assalto ou nas ruas ou nos prédios”.
Chama o ladrão, chama o ladrão...
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Sobre o autor deste artigoLeila Cordeiro
Começou como repórter na TV Aratu, em Salvador. Trabalhou depois nas TVs Globo, Manchete, SBT e CBS Telenotícias Brasil como repórter e âncora. É também artista plástica e tem dois livros de poesias publicados: "Pedaços de mim" e "De mala e vida na mão", ambos pela Editora Record. É repórter free-lancer e sócia de uma produtora de vídeos institucionais, junto com Eliakim Araujo. Artigos mais recentes do autorFaltou jogo de cinturaManchete 30 anosPela porta dos fundosEntre a vida e a morteMartin, um pequeno mártirJô e a GloboO que o povo gostaNo país tropicalO difícil caminho da féUm carnaval divertido Todos os artigos deste autor




Em 03/11/2011, Elisabeth Bernardo escreveu:
haaaaaaaaaa...que lindinho e atencioso este atendente ... Puxa vida sr. Morador...o senhor esqueceu de dar o nome do camaradinha que o atendeu para que a mídia o chamasse para uma entrevista e que ficasse famoso... Afinal de contas conselhos como este não é todo dia que a gente ouve...
Em 03/11/2011, Eduardo Gomes escreveu:
Muito bom seu comentário Leila. Não moro em SP e muito menos no RJ, mas também já passei maus momentos nas mãos desses bandidos. Sei como é o sufoco de não se poder fazer nada, só esperar se vai levar um tiro no meio das fuças. Parabéns.
Em 03/11/2011, Ana Lúcia Terra escreveu:
Viva Leila! Isso mesmo!!!!!! Chama o ladrão, porque a polícia está dormindo no ponto como sempre. Sou paulistana e sinto na pele todos os dias como é viver na paulicéia desvairada com os marginais no seu encalço.
Em 03/11/2011, Cláudia Ruschel escreveu:
Infelizmente enquanto o povo brasileiro não se UNIR DE VERDADE, para exigir segurança, esse horror vai continuar e para pior! Já estamos nos acostumando a sair de casa quase nús para não chamar atenção. Damos graças a Deus quando nós ou nossos amigos e entes queridos saem ilesos de um assalto, pois por qualquer coisa é chumbo grosso. E isso não é só no Rio ou São Paulo. Aqui em Porto Alegre também. E pasmem! Em cidadezinhas serranas já é um perigo se sair à noite sozinho mesmo que se vá numa farmácia. Então pergunto: o povo se une para pular carnaval, para festejar título de clubes de futebol, até pra brincar no dia do orgulho gay. Mas para cruzar os braços de VERDADE, cobrar nossos direitos de VERDADE, acampar diante dos palácios dos governos, tomar avenidas, estradas, praças e parques, simplesmente fazer uma revolução pacifica mas poderosa para mostrar a força que um povo tem, aí o povo não faz. Mas esse mesmo povo continua se queixando. E pior que tudo... VOTANDO.
Em 04/11/2011, Milton Cardoso escreveu:
A mania que as elites tem de viver no morumbi, na opulencia, longe dos pobres, ja chegou ao fim! Temos que olhar para os mais humildes, e só depois poderemos separar e punir, os criminosos. Muitos dos riquinhos de São Paulo são herdeiros de latifundiarios que cometeram os mais horrendos crimes na grilagem de terras.
Em 06/11/2011, Carlos Gama escreveu:
A desonestidade que grassa pelo país é a mãe de todas essas histórias comuns ao Rio de Janeiro, a São Paulo e até ao Piauí. É tanta a desonestidade e já nos acostumamos tanto com ela, que até se critica de forma veemente um alerta honesto vindo de um policial, que poderia ter apenas contado mais uma mentira para alegrar os alheios ouvintes.
Em 06/11/2011, Luis Hipolito Blogger escreveu:
Como o Brasil só faz piorar em termos de segurança, principalmente nas grandes metrópoles, o que será viver aqui nas próximas décadas? Será que teremos que andar de carros blindados e só frequentar lugares fechados e com seguranças? É muito sombrio o futuro do Brasil no aspecto segurança, principalmente porque as coisas só estão piorando. As estatísticas de violência divulgadas todas as manhãs de segunda-feira nas rádios sobre o final de semana são assustadoras!!!
Em 09/11/2011, Eliene Souza escreveu:
A verdade é: a plícia não quer serviço! mas pensando bem, com a remuneração que o policial brasileiro tem, não dá pra arriscar a vida controlando assaltos de bandidos, que são mais bem armados e dinâmicos que os eles. Infelizmente, o crime está dominando o nosso país, e as autoridades viram as costa pra esse grande problema.
Em 09/11/2011, Bruno Santos escreveu:
Morei em SP de 1976 a 2007, e absolutamente nunca fui assaltado. Fala-se muito, e mal, de SP. Estas falas vêm de quem não conhece a cidade ou não convive com ela. O ladrão é um oportunista à espera de seu momento. Como diz aquela máxima, 'prendam logo a ocasião, antes que ela faça mais um ladrão'. O problema se acentua quando um trombadinha bate uma carteira defronte a um banco e esta notícia se repete substancialmente 20, 30 ou mais vezes na televisão, enquanto as oportunidades de cursos técnicos gratuitos aos jovens não são informados, na televisão, como deveriam. Sem contar que o glamour dado aos bandidos chega a ser revoltante; ninguém sabe o nome do policial que os prende, mas dos bandidos, sabemos nome, sobrenome e até nome fantasia. Existe, sim, interesse das mídias em ampliar a violência, por meio de jornalistas 'de Google', que se repetem na esteira do 'furo' alheio, e não checam se é novidade. A notícia é a mesma de ontem, apenas turbinada. Chama a imprensa de verdade!
Em 15/11/2011, Thérèse Françoise Bouchardet escreveu:
Leila, minh alinda... já escrevi por aqui.... e ainda me pergunto.... como temos turistas nesse país??? Pobre Brasil....