- Publicado em 15/01/2012
Chega de saudade
Vai parecer provocação aos paulistanos, tendo em vista a polêmica que o último texto do Mair provocou. Mas juro que já tinha escrito esta coluna... Além disso, acho estéril e falaciosa a desqualificação das mazelas próprias com a contraposição das alheias...
A cidade do Rio de Janeiro foi e será sempre maravilhosa. Carioca “da gema” ou não, quem quer que tenha absorvido realmente o espírito da cidade, sabe que, entre os “encantos mil” que a notabilizaram, em meio às belezas naturais que lhe deram prestígio planetário e a contagiante alegria que, apesar dos notórios pesares, nunca deixou de constituir-lhe a marca, o Rio sempre impôs sua presença no cenário nacional como centro artístico-cultural de grande efervescência.
Essas palavras vêm a propósito de noticiário envolvendo debates – no âmbito jurídico e fora dele – sobre o destino da casa de shows “Canecão” – fechada em fins de 2010 por decisão judicial que determinou sua retomada pelos verdadeiros donos, no caso a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), depois de muito tempo de pendência legal. Nos últimos anos, ao que consta, o empresário que explorava a casa de espetáculos sequer pagava o seu aluguel.
Não se discute, pois, o legítimo direito de reintegração de posse do proprietário do imóvel, principalmente sendo um ente público voltado para a Educação. O debate está centrado, agora, no que se pretende fazer daquele espaço de tão grande significado no panorama cultural recente da cidade.
Nunca é demais recordar – com assumido tom saudosista – que no Canecão se produziram muitos momentos mágicos na história do cancioneiro popular do país. Inaugurado em 1967, começou a se fazer mais importante no meio artístico a partir de show com a cantora Maysa, em 1969 . E eu ficaria aqui desfilando títulos de canções que, ao lado de “Meu mundo caiu”, “Por causa de você”, “Eu e a brisa”, marcaram aquele espetáculo inesquecível.
Convertido em templo da MPB, no Canecão se apresentaram os grandes intérpretes nacionais. É impossível enumerá-los, pois quase todos os artistas de prestígio ali se exibiram, mas uma certa memória seletiva (cúmplice da predileção) me traz à mente alguns. O show que marcou a volta do Chico em 1971, por exemplo. Ou o espetáculo “Brasileiro Profissão Esperança”, de 1974, em que a inesquecível Clara Nunes e o magistral Paulo Gracindo cantaram e contaram meses a fio as venturas e desventuras de Dolores Duran e Antônio Maria, dois ícones cariocas. Ou, em 1977, o antológico encontro de Antônio Carlos Jobim, Vinícius de Moraes, Toquinho e Miúcha, ao som de “Wave”, “Corcovado”, “Água de beber”, “Tarde em Itapoã”, “Minha namorada”, “Chega de saudades” e tantas outras. Um pouco antes, em 1975, a apresentação memorável de Chico Buarque e Maria Betânia , com "Olê, Olá" , “Sonho impossível”, “Com açúcar e com afeto” , a censurada “Tanto Mar” (estávamos nos anos de chumbo), “Vai levando” e “Noite dos Mascarados”, entre muitas outras. A apresentação da Simone em 1979, resgatando da censura o hino de Vandré “Pra não dizer que não falei de flores”. Ou o emocionante show de 1988 do Cazuza, com “Exagerado”, “O tempo não para”, “Codinome Beijaflor” e muito mais. Gal Costa , em 1981, no show “Fantasia” com “Meu bem, meu mal”, ou Mariza Monte, em 1994, com “A dança da solidão”. E Tim Maia, Caetano, Gil, Lulu Santos, Ana Carolina, quantos...
Mas o fato é que o Canecão está fechado e o Rio lamenta a perda desse espaço musical. (Quanta ironia vermos também fechada a assim chamada “cidade da música” , até agora um elefante branco em que a municipalidade, pelas mãos de César Maia, enterrou algumas centenas de milhões...).
Propostas de solução estão sendo estudadas. Na UFRJ, parece admitir-se a partilha na gestão do espaço, com suas entidades universitárias vinculadas à Música e às Belas Artes ocupando-o no início da semana, reservando-se os fins de semana para espetáculos musicais que configurariam uma continuidade do Canecão, com recursos privados e gestão empresarial específica. Mas o assunto é controverso, pois tal solução redundaria em nova cessão do espaço à iniciativa privada. Uma outra hipótese: o estabelecimento de parceria com a Prefeitura para a gestão dos shows, o que garantiria o controle público, com todas as rendas auferidas voltadas para projetos educacionais da Universidade.
Já existe até a sugestão de um novo nome para o extinto Canecão, pois essa marca pertence ao locatário vencido judicialmente. Pessoalmente, simpatizo com proposta feita no sentido de denominá-lo “Solar das Artes”, em homenagem a um outro espaço perdido pela cidade, esse de forma definitiva, o Solar da Fossa, uma espécie de pensão que existiu ali pertinho, onde hoje é o Shopping Rio Sul, e cuja memória foi reabilitada em recente e interessantíssimo livro de Toninho Vaz. Nesse lugar moraram, antes de se tornarem famosos, entre outros, muitos dos artistas que encantaram as gerações que frequentaram o Canecão, como Caetano, Gal, Tim Maia e Paulinho da Viola. Vincular o futuro “Canecão” ao antigo “Solar da Fossa” seria uma simbólica reverência, a mostrar que a extinção física ou jurídica, motivada ou não, de certos espaços consagrados não é capaz, jamais, de afastá-los de nossas lembranças. Mas, seja qual for o nome escolhido, é hora de nos afastarmos do campo da saudade e nos empenharmos na recuperação, pela cidade maravilhosa, desse histórico espaço cultural.
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Sobre o autor deste artigoRodolpho Motta Lima
Advogado formado pela UFRJ-RJ (antiga Universidade de Brasil)
e professor de Língua Portuguesa do Rio de Janeiro, formado
pela UERJ , com atividade em diversas instituições do Rio de
Janeiro. Com militância política nos anos da ditadura, particularmente no movimento estudantil. Funcionário aposentado do Banco do Brasil.
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Em 15/01/2012, Guto Jimenez escreveu:
Rodolpho, duas coisas. Primeiro, o antigo arrendatário da área pagava um aluguel irrisório (cerca de 5 salários-mínimos por mês) e, mesmo assim, atrasou o pagamento. Com a devolução da casa de espetáculos, também se livrou de uma penca de processos judiciais dos mais variados. Segundo, seja lá qual for a solução pro espaço do Canecão, que não seja administrado pela prefeitura ou qualquer órgão público. Do contrário, poderá tanto ter o destino inglório idêntico aos das "lonas culturais" quanto ser mais um local de shows de música de baixa qualidade. Nada que esse (des)governo de nossa cidade e estado coloquem suas mãos funciona direito, não seria diferente no caso do Canecão.
Em 15/01/2012, Carlos Salles escreveu:
Sr. Rodolpho Motha, parabéns pelo belo artigo. Fui a muitos shows históricos na referida casa, o último deles foi o de Maria Bethânia em 94, dias antes de mudar minha residência para a Flórida. Um show marcante para mim. Gostaria de ter sua autorização para publicar este artigo com seus créditos na TiTiTi News Magazine, revista voltada para a comunidade brasileira do sul da Florida. Mais uma vez parabéns por abordar este tema
Em 15/01/2012, Ronaldo Chagas escreveu:
Rodolpho,parabéns pelo excelente artigo! A saudade do Canecão remete a um tempo em que a MPB era tratada com muito mais carinho, respeito e seriedade,diferente dos dias atuais,quando temos que aturar os Luans Santanas e Michéis Telós da vida...Tenho em casa o DVD da minissérie "Maysa-Quando Fala O Coração" e um de seus melhores momentos é a sequência dedicada ao histórico show da genial intérprete em 1969(aliás,tenho o CD com o registro do mesmo espetáculo). César Maia,se fosse uma pessoa mais séria e inteligente,deveria ter preservado um espaço cultural tão importante e não torrar tanto dinheiro num elefante branco chamado "Cidade Da Música"...coisas do Brasil!ABRAÇOS!
Em 15/01/2012, Rodolpho Motta Lima escreveu:
Carlos, Autorização dada, e com grande prazer. Abraços.
Em 15/01/2012, Fernando Bernardo escreveu:
Assim como o Riocentro "matou" o pavilhão de São Cristóvão, a Cidade da Música pode muito bem SUBSTITUIR o Canecão !. Duvido muito, e faço pouco, se Gabeira tivesse sido o eleito, aquele espaço já não estaria funcionando à pleno vapor !. Não vou comentar a obra em si, que aliás deveria ser comparada com o ESCÂNDALO da reforma do Maracanã e dos demais estádios da copa. Aqui, o mais barato sairá, se não estourar o orçamento, por R$ 400 milhões. A Europa, que paga salários mais condizentes, entregou 2 novinhos por R$ 150 milhões cada. O que quero comentar é seu texto: Uma AULA boa música !. Parabéns !.
Em 16/01/2012, Jose Roberto Jardim escreveu:
Parabens pelo artigo .Nao so o Rio tem historia com o Canecão. O Brasil todo tem.Com qualquer nome que volte sempre sera um templo da cultura.So pra colaborar, foi ali tambem que o Roberto Carlos deu um tchau pra Jovem Guarda e partiu para outros caminhos em sua vida musical.
Em 16/01/2012, Milton Cardoso escreveu:
Esta e outras comparações sobre os custos de reformas de estádios da Alemanha e do Brasil, estão despercebidamente sendo baseadas em dados caluniosos, e tirados da imaginação dos descontentes. Quem critica o Luan, se esqueceu, que todos os músicos são criticados, ate o nobre Roberto Carlos.
Em 18/01/2012, Reginaldo escreveu:
Bom dia, Como o mestre é feliz em suas lembranças. Parabéns. Regianldo, Higienópolis-rj