- Publicado em 08/11/2011
Cinegrafista culpado de sua própria morte
Há uma linha tênue, mas detectável pelas regras da experiência, entre uma zona de coragem e de destemor na realização de um trabalho de risco e uma zona de irresponsabilidade assumida.
Assisti algumas vezes a seqüência de imagens gravada pelo repórter falecido e ela indica, claramente, a causa mortis principal dele: falta de zelo deste cinegrafista pela sua própria vida. Ao analisar as cenas gravadas, me lembrei das orientações que recebi muitos anos atrás, nas instruções de tiro de fuzil, durante o serviço militar. Algo com o qual o calejado cinegrafista deveria estar bem familiarizado. Trata-se de bem administrar uma linha-de-tiro, uma vez que ela se forme e se defina num embate armado.
No caso, esta linha-de-tiro estava bem definida: numa ponta dela estava o policial militar, protegido atrás de uma árvore, e na outra, estava o traficante, cerca de 150m, melhor protegido ainda, atrás de um muro de alvenaria entre dois postes Este traficante estava bem melhor equipado, pois atirava de fuzil, o que já era fato do conhecimento dos policiais, pois é fácil identificar um tiro de fuzil pelo barulho característico e pelo impacto destruidor das balas.
Nos extremos desta linha-de-tiro, os oponentes tentavam manter suas posições, enquanto procuram alvejar-se mutuamente. As imagens mostram isso.
Percebe-se ainda que o policial estavam em desvantagem, pois não sabia onde estava exatamente o traficante atirador, enquanto este sabia onde estava o policial, logo à frente do repórter, ambos semi-protegidos pela árvore.
Dado este cenário de confronto, percebe-se que o cinegrafista da Bandeirantes postou-se na pior e mais arriscada das posições, justamente atrás do policial que atirava e que, por isso, tornou-se alvo preferencial dos traficantes na ponta da linha-de-tiro formada. Aquela posição do repórter era simplesmente a mais perigosa de todas naquela região. Assim, ao contrário de proteger-se, o que se percebe é que o cinegrafista optou por expor-se, priorizando a captura de imagens sensacionais do confronto, deixando de zelar por sua própria integridade. Assumiu um risco alto demais, de forma deliberada.
Não bastasse isso, ele passou a utilizar a câmera para aproximar as imagens e “auxiliar” o policial, dando dicas sobre a localização e identificação do atirador, o qual foi referido na gravação como “vagabundo”. Percebe-se que o policial atira mesmo sabendo que veículos se movimentam numa rua atrás da provável posição do traficante atirador, pouco se importando com o risco de atingir terceiros.
Isto tudo demonstra certo grau de passionalidade e de amadorismo de parte do policial, o que, mesmo assim, não demoveu o cinegrafista do risco assumido. Ao contrário, por auxiliar o policial daquela forma, o repórter deixou de ser um profissional de imprensa, que ali estava para captar as imagens do confronto, tornando-se um membro ativo da equipe policial.
Este foi outro de seus erros, pois o legítimo repórter apenas registra as cenas e não se torna protagonista delas.
Na seqüência da troca de tiros, percebe-se que o cinegrafista manteve a câmera em posição de gravação sobre o ombro, cobrindo toda a linha de tiro até o local onde estava o traficante, mantendo-se assim mesmo quando o próprio policial militar procurou proteger-se dos tiros vindos em direção deles. Sendo tiros de fuzil, sequer o corpo do policial poderia ser proteção suficiente ao cinegrafista.
Nisso, a ânsia em obter imagens do traficante atirador e do confronto balístico, o cinegrafista se expôs de forma demasiada. Tanto assim que o tiro que recebeu atravessou-lhe o peito, o que indica que o repórter estava vulnerável, de corpo inteiro, dentro do campo visual da linha-de-tiro a partir da posição do traficante atirador.
Isto tudo, obviamente, não isenta a parcela de culpa indireta que recai sobre as empresas empregadoras destes profissionais, as quais, pela avidez cada vez maior que nutrem por colocar no ar imagens e matérias exclusivas e sensacionalistas em seus noticiários, na busca de captura de audiência de seus concorrentes, acabam cultuando a formação de um perfil falsamente romântico de repórteres e de jornalistas capazes que arriscar suas próprias vidas em busca da matéria e da notícia.
O repórter cinematográfico Gelson Domingos da Silva (foto) assumiu um risco de vida muito superior ao que assume um repórter numa guerra militar convencional. As imagens que ele capturou não valeram o preço que ele se dispôs a pagar por elas, mesmo se tivesse saído ileso do episódio.
Contribuição do leitor Rogério Guimarães Oliveira, advogado. Email rgo@via-rs.net
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Em 08/11/2011, Maria Cristina Teixeira Pupo escreveu:
Eu estava tão massacrada pelo número de vezes que passou a matéria do Gelson que não consegui ver nada alem de um mártir. Agora, com o seu texto, estou conseguindo concordar em tudo que foi escrito. O mais engraçado, se é que posso dizer isso, não tem nada de engraçado, é que o título me chamou a atenção mais por uma discordancia e indignação. Mas tenho a mente aberta e me sinto até melhor. Parabens pelo belo texto, tão corajoso e se prepare para as pedras que voce vai levar...
Em 08/11/2011, Nelita Soares escreveu:
Que a midia exige cada vez mais sensacionalismo e menos consciencia do que vivemos nao so no Rio de Janeiro, mas ate mundialmente, correto, Mas tambem acho que e uma opção deste profissional, pois pelo que aasisti os outros jornalistas obedeceram as ordens policiais, o que gostaria de saber e quanto ganha um profissional deste ramo para colocar sua vida em risco, porque pelo que ouvi falar sao miseros 1.000,00, o que e isso, donos de rede de TV tambem sao banqueiros? Sr. Rogerio mesmo que ele tenha agido com imprudencia, respeite por favor o ser humano que ele se dedicou ser, denunciando de forma imprudente ou nao, os descalabos deste Estado, e o senhor teria essa coragem, somos feito de emoçoes e ideais e alguns privilegiam isto mais do que qualquer coisa, respeite a maneira de ser deste profissional tambem, pois afinal nunca imaginamos que aqui fica o Cosovo, a Bosnia, o Afeganistão de forma que os governantes nao declaram.
Em 08/11/2011, Ezio Amaral escreveu:
Eu havia comentado justamente isso com meus colegas de trabalho. Mas achei que não haveria alguem com coragem de dizer isso na imprensa.
Em 08/11/2011, Marco Antônio Cortese Barreto escreveu:
Embora não tenha o conhecimento técnico em relação à propalada linha de fogo, concordo integralmente com as detalhadas colocações e observações do leitor Rogério que, de forma brilhante fez uma análise perfeita da exposição desnecessaria e inconsequente do cinegrafista Gelson Domingos que, no afã de produzir imagens sobre a ação policial, acabou precocemente pagando o impagável preço de uma matéria repetitiva e apelativa, com a perda da sua vida e para nada. O único verdadeiro resultado que foi obtido pela BAND com essa desastrada reportagem foi, fazer do seu reporter fotográfico, a notícia do dia em todos os jornais do País. Nada mais que isso.
Em 09/11/2011, WALKER RIBEIRO MACHADO escreveu:
Não tenho como discordar do Sr. Rogério. Também servi ao Exército como aluno e Oficial e posso afirmar que mesmo o policial estava arriscando sua vida se "protegendo" atrás de uma árvore que poderia ser trespassada facilmente pelos projeteis de alguns fuzis. O repórter estava agachado à direita deste e oferecia seu corpo como alvo secundário aos tiros dirigidos ao militar. Se o colete resistisse ao tiro, o mesmo sairia com séria lesão ocasionada pelo impacto da bala!
Em 09/11/2011, Carlos Teixeira escreveu:
Os profissionais, sejam eles novos ou os mais experientes, devem ter em mente que o emprego pode ser trocado. A vida não!!! Expor a própria vida para obter a melhor imagem ou informação é tolice. Muitas vezes, os mais "maduros" se vangloriam de ter feito isso ou aquilo para os mais jovens, como se isso fosse motivo de heroismo. É preciso ser racional e ter inteligência suficiente para saber a diferença entre ousadia, coragem e profissionalismo. O bom profissional é aquele que volta vivo para casa todos os dias, sem deixar de oferecer a sua empresa as imagens e/ou informações de que precisam. Lamento a morte do profissional da Bandeirantes, mas concordo com o texto do leitor advogado Rogério Guimarães Oliveira.
Em 09/11/2011, Roseni Heck escreveu:
Perfeita a exposição!
Em 09/11/2011, alício escreveu:
Falou!! Parabéns!!
Em 09/11/2011, Nathália escreveu:
Rogério, eu não poderia concordar mais com você. Assim que vi essas imagens falei exatamente o que você escreveu (com exceção da parte técnica de armas que não entendo). É realmente um absurdo essa busca por imagens sensacionalistas colocando em risco não só os profissionais da impressa (que não tem absolutamente motivo nenhum de estar lá) como os policiais e a operação que estão realizando.
Em 09/11/2011, MARCUS VINICIUS DE ARAUJO LIMA escreveu:
Como ex militar, concordo plenamente com sua abordagem. O camera alem de estar muito proximo ao alvo (no caso o policial) estava no mínimo com metade do corpo desprotegida. Parabéns pela reportagem
Em 09/11/2011, Vanderson Freizer escreveu:
Engraçado como ninguém critica a segurança pública do Rio de Janeiro. Leiam isso: http://www.grupoun.net/bala-que-matou-cinegrafista-pode-ser-de-fuzil-do-bope/, quem sabe alguém possa passar a pensar diferente.
Em 10/11/2011, Rivaldo escreveu:
O autor demonstra conhecimento adquirido nas forças armadas. O jornalista, entretanto, não deve ter recebido as mesmas instruções. Deveria ser treinado como cinegrafista de campo de batalha. As entidades de classe dos jornalistas deveriam cobrar treinamento e melhores equipamentos de proteção. As perigosas condições de trabalho de jornalistas ocorrem há décadas. Leiam sobre a morte de Tim Lopes: http://www.diretodaredacao.com/noticia/reporter-acusa-a-rede-globo
Em 10/11/2011, Elisabeth Bernardo escreveu:
Acredito que não podemos jogar tanto confete assim no que escreveu o Adv. Rogério Guimarães e nem parabenizar os leitores que aqui deixaram seus comentário, pois estamos apenas seguindo uma linha que uma pessoa expos por ter visto os vídeos que o levou a ter esta idéia de que o cinegrafista é culpado da própria morte. Acredito sim um pouco mais nas palavras de Nelita Soares... Ele estava apenas buscando o melhor ângulo para uma melhor reportagem para que seu empregador ganhasse muito mais... agora vemos que o preço que ele pagou por tentar ser o melhor dos melhores ..jamais seu patrão vai poder pagar uma porcentagem se quer á familia do que ele fez... e tenho certeza que jamais encontrará um valor cabível e sustentável a ser pago... Infelizmente nada poderá ser feito... pior ainda...seu assassino deve estar se rachando de rir de sua proeza e argumentando que a justiça jamais o pegará... apenas podemos lamentar a perda e pedir á Deus que lhe dê o lugar merecido...
Em 11/11/2011, João Carlos escreveu:
Perfeito ! Finalmente encontro alguém com o mesmo pensamento que eu. Logo que vi as imagens achei que o cara era completamente doido ou estava querendo se suicidar. Tentaram de toda maneira responsabilizar a emissora pelo acidente. Se houve um culpado, este foi a própria vítima.
Em 12/11/2011, Glorinha de Nantes escreveu:
Nesta guerra não há culpados, muito menos as vítimas o seriam. A não ser que todas as personagens desta sejam consideradas culpadas. Para o bem e para o mal, há apenas vítimas. É confronto. É guerra. É ataque. O uso de eufemismos desconsidera que figuras de linguagem iludem, romantizam e abrandam o horror da guerra. Afora a hedionda arquetípica "glamourização" das personagens todas.
Em 13/11/2011, ricardo carvalho escreveu:
Todos que culpam a vitima,inclusive o autor, por favor, leiam o artigo do Roberto Porto aqui mesmo no DR.
Em 14/11/2011, Denise escreveu:
O cinegrafista exercia uma profissao de risco, e todos sabemos que em tal atividade, por mais que o profissional se proteja sempre poderá ocorrer uma fatalidade.Fui médica de um Serviço de Emergência por 20 anos, felizmente saí ilesa mas sabia que estava me expondo a cada atendimento de infeccoes graves e muitas vezes contagiosas e letais, por mais que me cuidasse.Ao meu ver, sempre se pode aprender algo em uma tragedia como a ocorrida e que os colegas do cinegrafistas morto possam aprender com este triste fato, o que nao adianta é sempre querer culpar alguem. A análise apresentada é realista, é fato, nao acho que busque culpar ninguem mas sim evitar repetição, nao havendo razão ou necessidade para ninguém se sentir ofendido. Parabéns ao colunista!
Em 14/11/2011, luiz roberto ribeiro porto escreveu:
Para começar, concordo com a leitora Nelita Soares. E para terminar, uma correção: não é 'melhor protegido' nem melhor equipado'. Atenção para o português. Em ambos os casos é 'mais bem'.
Em 16/11/2011, Roberto C. da Costa escreveu:
Infelizmente o próprio profissional da mídia é vítima desta mesma mídia. Existe o desprendimento, a adrenalina, porém existe mais o desrespeito das empresas de comunicação, a tal midia emprearial/corporativa, que é a negação de tudo que é jornalismo ético, decente e respeitoso com o leitor e com seus profissionais. É a exacerbação do lucro, da audiência mesmo que isto custe valores humanos, valores morais. Aliás a mídia(escrita, falada, televisada....)é uma das áreas mais discriminatórias, anacrônicas, ditatoriais e nada democráticas. O Gelson foi vítima de tudo isso e muito mais.
Em 18/11/2011, Nelson Hipolito da Silva escreveu:
Esse e outros jornalistas é que produzem as imagens para os programas carniceiros que se alimentam da tragédia alheia
Em 21/11/2011, Jonas escreveu:
Concordo plenamente, foi exatamente o que pensei.
Em 08/12/2011, milton escreveu:
NAO concordo , pois alguns de voces nao tem ideia de como funciona o trabalho dos cinegrafistas , alguns nao tem oportunidades que muitos de vcs tiveram , e assim amam o que fazem ,porem ninguem arrisca sua propria vida por imagem alguma , a culpa mesmo é da emissora que "se vc nao faz outro faz " quando se nega no momento nem demite ,mas por qlq outro motivo ,"rua"