• Publicado em 19/11/2011

    Comentários patronais

    Rio - Fiquei estupidificado – para não dizer abestalhado – ao ler no Direto da Redação dezenas de comentários culpando o cinegrafista da TV Bandeirantes por sua própria morte em Antares. Com as raras e honrosas exceções de sempre, poucos, pouquíssimos, concordaram comigo, quando afirmei que o profissional estava em busca de um furo de reportagem que o projetasse na emissora. Houve um dos patronais escribas que chegou a sugerir que eu estava em campanha para as eleições sindicais, que sequer sei se existem, existiram ou existirão.

    Os patrões – ou seus prepostos mais bem pagos – para aqueles que nunca frequentaram uma redação, de rádio, jornal ou televisão - querem o furo de reportagem, para garantir o IVC ou Ibope e, com isso, o aumento dos anúncios e, consequentemente, o faturamento de suas empresas. Se o cinegrafista morto com um tiro de fuzil – que varou seu colete – estava em busca de uma tomada melhor, mais audaciosa, pensava exclusivamente no crescimento de seu prestígio profissional e, com isso, quem sabe, um aumento do mísero salário que devia receber mensalmente, com todos os descontos possíveis e imaginários exigidos pelo governo.

    Os jornalistas – pelo menos os mais corajosos – estão sempre em busca de um furo de reportagem que possa lhes render, num futuro próximo, uma promoção ou um salário mais condigno com a profissão. Hoje em dia, dispostos a levar vantagem em tudo, os patrões nem carteira profissional assinam, exigindo que o periodista tenha uma empresa. Com isso, deixam de ter compromisso com férias, 13º salário e, principalmente, indenização na hora de mandar o jornalista para a rua. Há empresas, inclusive, que demitem seus jornalistas quando eles completam 60 anos.

    O cinegrafista da TV Bandeirantes deveria ser considerado um herói, como foi meu amigo Tim Lopes – que eu chamava de Tim Maia e que foi meu continuo em Fatos&Fotos – torturado e morto por bandidos quando fazia uma reportagem numa favela, tentando mostrar, com uma câmara escondida, o tráfico de drogas e a exploração de moças menores de idade. Tim estudou jornalismo, formou-se e foi trabalhar como repórter. E me disse, pouco antes de morrer, que iria ganhar o Prêmio Esso com a matéria que estava fazendo. Eu, portanto, repudio veementemente os comentários reacionários e patronais de todos os que criticaram o cinegrafista da TV Bandeirantes. Sou jornalista, me orgulho de minha profissão e defendo sempre meus colegas, sejam eles de rádio, jornal, televisão ou revistas.

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    • 10 Comentários recebidos

      • Em 20/11/2011, ricardo carvalho escreveu:

        É isso que me assusta Porto. As pessoas não tem noção da realidade de uma redação, as pressões, as dificuldades numa apuração de matéria, as fontes conflitantes, as cobranças lá de cima e no entanto, deitam falação como se soubessem tudo, conhecessem tudo, como se fossem do ramo há mais de quarenta anos. Vão ter certezas assim lá na...

      • Em 20/11/2011, Saint-Clair escreveu:

        Isso já virou regra geral. Em todo acontecimento desse tipo, tem sempre uma legião de ignorantes tentando culpabilizar a vítima. Quem já não ouviu frases do tipo: "Foi estuprada e morta, mas também...com aquela roupinha o que ela queria?

      • Em 20/11/2011, Xico Júnior escreveu:

        Tudo bem que as pessoas, seja em que área profissional for, procuram ser arrojadas com o objetivo de serem reconhecidas e, quiçá, inclusive com aumento de salário. Ma, sem as rotulações de "patronais", o cinegrafista da TV Band foi, no mínimo, imprevidente, pois ele se postaram exatamente como alvo do bandido, tanto que a bala atravessou-lhe o colete "à prova de bala" (???). Ser um profissional corajoso é uma coisa, ser imprudente, ponde a sua vida em risco, é outra totalmente diferente. E o fato de discordar da tua opinião não te dá o direito de ROTULAR quem tem opinião contrária, pois não há ninguém no mundo que seja o dono da verdade. Jornalista que é profissional tem direito a opinião e tem que saber ouvir e admitir a opinião dos outros. LIBERDADE DE EXPRESSÃO E DE ENTENDIMENTO. Use mais a sensatez e o respeito à opinião dos outros sem querer impor e depois rotular. Essa forma desqualifica como jornalista e profissional que, por certo defende a LIBERDADE DE EXPRESSÃO e de OPINIÃO.

      • Em 21/11/2011, luiz roberto ribeiro porto escreveu:

        Você é o Xico Júnior que trabalhou comigo? É? Então, amigo, mudou de time e está jogando no dos patrões. Lamento.

      • Em 22/11/2011, Xico Júnior escreveu:

        Lamento não lembrar onde trabalhamos juntos. Ficaria contente se o amigo ajudasse a refrescar minha memória. De outra, jamais mudei de time, apenas defendo o direito de cada um ter a sua opinião e quando contrária à nossa (seu caso), que não sejamos agressivos e nem rotulemos desairosamente quem não pensa como nós. Acho que o amigo e colega não entendeu a minha posição, pois em momento algum defendi qualquer patrão. Apenas e tão somente disse que o cinegrafista, na ânsia de buscar conceito junto à empresa em que trabalhava, não analisou a situação e foi imprudente pondo a sua vida em risco de forma tão explícita. Ao contrário de Tim Lopes que não se expôs de forma imprevidente. E a bem da verdade, sou radicalmente contra os patrões ou "donos" da rotulada grande mídia, todos, indistintamente, escravagistas. Para comprovar basta ler alguns artigos publicados no blog "ESPAÇO GÓTICO" (acesso via Google). Ser jornalista ou cinegrafista responsável é também saber preservar a sua própria vida.

      • Em 22/11/2011, Xico Júnior escreveu:

        Roberto Porto! Pelo que pude verificar - sim fui invetigar prá não incorrer em erro ou injustiça -, você me parece carioca, enquanto eu sou gaúcho. E você está me confundindo com outro Xico Júnior (a grafia é a mesma), que assinava "O Colunão", sobre futebol numa revista do Rio que não lembro o nome e eu assinava - veja a casualidade ou coincidência - "O Colunão", sobre a alta sociedade de Porto Alegre e Canoas, cidade que moro há 59 anos. Ao tomar conhecimento, logo retirei o nome da minha coluna social e passei a assinar, a partir de então, apenas como meu pseudônimo, sem outro título paralelo. Acho que foi uma confusão involuntária, mas espero confirmação, ok? Abraços.

      • Em 22/11/2011, Rogério Guimarães Oliveira escreveu:

        Caro Roberto Porto, de fato, você distribuiu rotulações em excesso, se me permite dizê-lo. Como autor do artigo que gerou a polêmica, não sou jornalista, nem sou ligado a qualquer órgão de imprensa, mas advogado liberal. Minhas observações sobre a morte do cinegrafista basearam-se nos elementos divulgados, me convencendo de que a vítima foi a maior culpada de sua morte. As empresas de comunicação têm sua parcela de culpa, é claro, não as isentei. Mas o jornalista em questão foi imprevidente, assumindo um risco desnecessário ao postar-se na exata linha-de-tiro. Você confirma isso, ao alegar que ele tentava obter um "furo de reportagem". Só que o que ele ganhou foi um furo no peito. A família dele iria preferi-lo sem furo algum, vivo e presente. Minha abordagem procurou mostrar que certas coisas não justificam o risco de se perder o bem maior que existe, que é a vida. Os que concordaram, ainda que de forma menos "honrosa", conforme você diz, ratificaram exatamente esta conclusão.

      • Em 22/11/2011, Xico Júnior escreveu:

        Caro, Roberto Porto! Estive visitando o seu blog sobre o Botafogo (há 2 anos sem artigos, certo?). E lá deixei um comentário. E assim pude comprovar, realmente, que foi confusão que fizeste, involuntariamente, do Xico Júnior, gaúcho (eu) com o Xico Júnior carioca, que abordava no seu "O Colunão", sobre futebol. Este é um fato que, dada a sua dupla coincidência, sempre me deixou muito intrigado: mesmo pseudônimo e mesmo título da coluna, e apenas os temas diferentes. E sem jamais termo-nos conhecido. Esse fato cito num dos meus 6 livros já publicados. Diante disso, se lhe for possível, e mais por curiosidade, gostaria que me conseguisse uma foto do Xico Júnior, carioca e teu ex-colega. Fico na expecativa do retorno (e-mail: la-stampa@ig.com.br). A mesma coincidência do nome e trabalho se deu com outro gaúcho Xico Júnior (mesma grafia), que trabalhava em rádio no mesmo tempo em que eu também fazia rádio. A diferença é que sou caucasiano e ele afro-descendente (prá não sofrer processo).

      • Em 22/11/2011, Elisabeth Bernardo escreveu:

        Eu como uma simples leitora do DR, também deixei meu comentário indignada com o fato de culparem o repórter pela sua morte. Como leiga pergunto..."Como ele teria certeza que de onde estava seria linha de tiro?" Agora eu pergunto... Os policias não tinham por obrigação proibirem a presença dele ali, já que são os profissionais no assunto? Achei tremenda ignorancia por parte de pessoas escreverem que "ele foi culpado" Então maior culpado nesta perda é da própria empresa onde ele trabalhava, não seria deles a obrigação de manter e fornecer equipamento de segurança para seus funcionários? Mas agora não adianta chorar o fato ocorrido e apenas lamentar junto á familia a grande perda , eles sim ganharam o grande furo de reportagem. Os patrões? bem para mim eles receberam a fatia maior do premio pois rendeu por demais noticias sobre este fato.

      • Em 23/11/2011, Luiz Roberto Ribeiro Porto escreveu:

        O Xico Junior a que me referi, com dúvidas pela possibilidade de nomes iguais, trabalhou comigo no JB, vivendo na Europa e cobrindo Fórmula-1.

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