- Publicado em 13/11/2011
Cumprindo ordens
Rio - O cinegrafista Gélson Domingos, da TV Bandeirantes, foi morto semana passada, com um tiro no peito – apesar do colete à prova de balas – durante uma operação policial na Favela de Antares, na Zona Norte do Rio. Gélson já havia participado de várias reportagens perigosas em lugares dominados pelo tráfico de drogas, cumprindo ordens da chefia de reportagem da emissora. É possível que Gélson, confiando no seu colete, tenha se exposto em demasia, lado a lado com os policiais. Mas estou certo de que ele estava atrás de imagens inéditas para ‘mostrar serviço’ na Band.
Essa suposta ‘coragem’, por sinal, não é uma exclusividade da TV Bandeirantes. Todas as emissoras – com as raras exceções de sempre – expõem seus profissionais atrás de um furo de reportagem, de uma imagem inédita ou da dureza do conflito armado. Como jornalista fiquei revoltado. Como é que se envia um repórter – mesmo calejado – para um confronto com a morte? Foi o que aconteceu há anos com Tim Lopes. Tim Lopes, a quem eu chamava de Tim Maia – por causa da cabeleira meio afro – me disse pouco antes de morrer torturado que iria ganhar o Prêmio Esso.
Mas não foram (ou não serão?) apenas Gélson ou Tim as desavisadas vítima dessa guerra brutal nas favelas do Rio. Os repórteres, sempre de colete, me parecem mais prevenidos e não se expõem tanto. Mas quem pode garantir a vida deles, enviados para o front de batalha? Atrás do furo de reportagem, ninguém pensa no risco que repórteres, cinegrafistas e fotógrafos estão correndo. E por que estão correndo? Estão correndo para conquistar fama e, quem sabe, um aumento do salário pouco mais que miserável que recebem.
Veio me à lembrança a façanha de Kaoru Higuchi, um fotógrafo do Jornal do Brasil, há décadas, que se embrenhou no mato, na Serra dos Órgãos, para documentar a queda de um avião de passageiros. Kaoru trouxe as fotos, feitas à noite, mas sua roupa ficou em frangalhos – usava terno – e até hoje não sei se o JB pagou-lhe o prejuízo. Ser jornalista é uma coisa, arriscar a vida é outra. Kaoru escapou das cobras e lagartos da selva, mas Gélson e Tim Lopes se foram.
Injustiça para aqueles que querem ganhar a vida e recebem ordens de se tornarem heróis. A II Guerra Mundial acabou faz tempo.
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6 Comentários recebidos
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Sobre o autor deste artigoRoberto Porto - Rio
Jornalista há 47 anos (atualmente na ESPN Brasil), com passagens pelo Jornal do Brasil, O Globo, Correio da Manhã, O Dia, Bloch Editores e rádios Nacional, Tupi e Globo. Publicou "História Ilustrada do Futebol Brasileiro", com João Máximo, "Botafogo-101 anos de histórias, mitos e superstições" e "Gírias do futebol", com Carlos Leonam. Artigos mais recentes do autorUma Páscoa pra lá de diferenteO motorista bêbadoUm encontro mais do que suspeitoO pombo decapitadoO estagiário fantasiadoSérgio Cabral me barrouUma matéria infinitaO rádio esportivo mudou minha vidaCemitério assusta argentinoMuitas vezes em Paris Todos os artigos deste autor


Em 14/11/2011, Borba escreveu:
De novo esta estoria de pobres reporteres... Quem estuda e exerce a profissão aceita os riscos inerentes a ela. Achar que um reporter nao é um profissinal consciente de seus atos e riscos é a mesma coisa que chama-los de idiotas. Por favor, o grande culpado que é o trafico, que foi o moleque que deu o tiro ainda nao foi preso e talvez nem seja. E até o momento, o DR fica somente falando dos pobres jornalistas e nada sobre o descaso das autoridades em punir quem deu os tiros... É mais facil ficar com esse papo de sindicalista em campanha de eleição do que apontar a verdadeira trama por tras desta noticia, a complacencia do estado com o crime, a corrupção da policia civil e militar no estado do Rio, O Governo e a Prefeitura apoiados pelo governo federal que nada fazem para acabar com isso. Quem sabe agora com mais uma favela sendo pacificada...
Em 14/11/2011, João Carlos escreveu:
Outra vez aparece alguém metendo a lenha nos patrões e idolatrando os "coitados dos herois que morrem no desempenho do trabalho". Infelizmente não foi o caso do pobre Gelson Domingos. Ele morreu vítima de sua incompetência, burrice piramidal porque se colocou na linha de tiro entre a polícia e o bandido. O erro foi tão grosseiro que não se precisa ser nenhum especialista para verificar a sua bobagem. O militar atrás da árvore, o marginal atrás do muro e ele de peito aberto, ao lado do policial passando informações sobre a localização do traficante, fazendo uso do zoom de sua câmera. Pagou o preço. Pediu, levou.
Em 14/11/2011, Rosi Souza escreveu:
Concordo com os comentários aqui tecidos pelos dois leitores que me antecedem. Na verdade, o que se está percebendo é a ação de entidades querendo atirar sobre as empresas de comunicação uma responsabilidade maior do que detêm. Fora de qualquer dúvida que o Sr. Gerson Domingos foi negligente com a sua segurança. É verdade que o risco é implícito à ativ. que exercia, assim como o é em tantas outras prof., como a dos médicos e demais profissionais de saúde, atuantes em determ. campos da medicina, onde os acidentes perfucortantes acontecem, apesar das cautelas adotadas, contaminando-os; dos eng. e trabalhadores em obras, sujeitos a acidentes diariamente, só para exemplificar. Imagine se, em face do risco a que estão expostos, tais profissionais limitassem seu campo de ação, atuando com excesso de cautelas ou furtando-se a executar determ. procedim/ arriscados? Ora, o prof. morto era experiente e tinha o dever de adotar as cautelas mín. necess. à sua segurança, mas não fez lamentavelmente.
Em 14/11/2011, luiz roberto ribeiro porto escreveu:
Sr.Borba: não faço parte de campanha sindicalista.
Em 14/11/2011, ricardo carvalho escreveu:
João Carlos, voce é um ser humano, se é que posso chama-lo assim, nojento.
Em 15/11/2011, Borba escreveu:
Sr. Luiz Roberto, o papo de sindicalista em campanha é aquele em que se acusa o patrão de ser culpado de todas as mazelas, responsabilizando-o por ser Patrão. (Como se pudesse viver sem o capital). Seu texto é parcial ao colocar o "imperialismo patronal" como responsável pela morte do reporter. Quem deu o tiro é um complemento, o importante é usar o fato como motivador daquilo que se quer provar. Ai da Globo se o reporter fosse funcionário dela...