- Publicado em 11/09/2011
Declínio da democracia americana
(Fim da detenção indefinida: acusem ou libertem)
Não adianta Obama dizer que “dez anos depois os EUA estão muito mais seguros” porque verdadeiramente não estão. Os fatos estão aí para comprovar que a declaração do presidente não passa de uma frase de ocasião. Afinal, o que mais poderia dizer o inquilino da Casa Branca em um momento como este, em que a emoção toma conta do país de costa a costa, e a televisão não se cansa de rememorar passo a passo, sinistramente, os acontecimentos daquele Onze de Setembro, há dez anos?
É preciso dar uma injeção de ânimo numa sociedade que enfrenta hoje as maiores dificuldades econômicas desde a Grande Depressão dos anos trinta. Só assim se justifica a frase de Obama que está nas manchetes dos jornais deste domingo nos EUA.
O que aconteceu de imediato depois dos atentados de 2001 foi a entrada do país em duas guerras absolutamente desnecessárias e, sobejamente provado, declaradas com base em mentiras.
Guerras que, enquanto servem para enriquecer o complexo industrial-militar e as corporações ligadas à reconstrução dos países destruídos, levaram os EUA à (quase) bancarrota, como no recente episódio do aumento do teto do dívida, impagável, de, pasmem, mais de 14 trilhões de dólares, quando o governo declarou, para o mundo inteiro ouvir, que não teria dinheiro para pagar seus compromissos sociais e os juros da dívida.
Guerras que, além de perdas humanas (6.236 até este domingo, no Iraque e no Afeganistão), consomem recursos incalculáveis, que poderiam estar sendo empregados em setores deficientes como educação, pesquisa de energia limpa, combate ao desemprego e à pobreza, que atinge quase um sexto da população.
Mas, talvez, pior do que o colapso econômico, a queda das torres em NY há dez anos mostrou a vulnerabilidade da outrora maior potência do planeta, num item em que se auto-proclamavam campeões, o da democracia. Os acontecimentos posteriores aos atentados jogaram o país no fundo do poço nas questões dos direitos individuais e constitucionais.
A tão decantada democracia e o respeito aos direitos humanos foram substituídos pelas prisões ilegais, por tempo indeterminado, sem uma acusação formal contra suspeitos, cujos direitos constitucionais de ver um advogado ou parentes e amigos foram solenemente ignorados.
Na semana que passou, o site da CNN divulgou o artigo “Como o 11 de setembro deu início ao declínio de nossa democracia”, de Warren Vincent, diretor executivo do Centro de Direitos Constitucionais. Dele, transcrevo alguns trechos para a reflexão do leitor:
O 11 de setembro foi trágico de muitas maneiras, e marcou o início do declínio da democracia em nosso país...
Foi o dia em que começamos a deixar que o medo corroesse a nossa crença em nosso próprio sistema de governo, com todas as suas leis e tratados. Apostando no medo, nosso governo começou a operar fora da lei e, nesse processo, destruiu muito mais vidas do que aquelas perdidas nos ataques.
Nosso governo envolveu-se na vigilância e espionagem dos cidadãos, sem a aprovação judicial exigida por lei. A administração Bush fez mais do que isso, porém. Pouco depois de 11/09, autorizou a Agência de Segurança Nacional para escutar, sem um mandado, as chamadas telefônicas e outras comunicações eletrônicas de milhões de americanos, a maioria dos quais não eram suspeitos de praticar algum crime.
Depois de 11/09, o presidente Bush jogou pela janela os procedimentos legais, mantendo prisioneiros em Guantánamo sem acusação formal e sujeitando alguns deles a injustos tribunais militares. O presidente Obama alargou esse esses aspectos ilegais e injustos em Guantánamo. No início deste ano, ele assinou uma ordem executiva criando um sistema formal de detenção indefinida em Guantánamo e autorizou a formação de novos tribunais militares para os que lá estão detidos.
Nosso governo subcontratou corporações privadas, com pouca responsabilidade por suas ações, para conduzir interrogatórios e outros deveres exclusivos dos militares.
Escondeu os detidos em Abu Ghraib, em violação ao direito internacional e doméstico e os manteve afastados da Cruz Vermelha. E criou, na Baía de Guantánamo, um buraco negro legal que se tornou um símbolo mundial da maneira como o nosso país virou as costas aos direitos humanos e à lei.
No Centro de Direitos Constitucionais, vemos os rostos destas novas vítimas a cada dia. Nossos clientes são homens e mulheres apanhados em varreduras ilegais, de perfil racial definido, negociados por recompensas em aldeias distantes. Eles foram detidos indefinidamente, torturados e sofreram abusos. Suas vidas foram destruídas porque eles eram "os outros" e não merecem o nosso respeito, ou mesmo de nossas proteções.
Mas a democracia é a presunção de inocência. O direito ao devido processo legal e ao corpo de leis e acordos internacionais que foram cuidadosamente construídos ao longo dos séculos para proteger todas as pessoas da perseguição de autoridades arbitrárias.
E Warren Vincent assim conclui o artigo:
Talvez seja a hora de admitir que perdemos o nosso caminho e começar um novo.
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9 Comentários recebidos
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Sobre o autor deste artigoEliakim Araujo
Ancorou o primeiro canal de notícias em língua portuguesa, a CBS Brasil. Foi âncora dos jornais da Globo, Manchete e do SBT e na Rádio JB foi Coordenador e titular de "O Jornal do Brasil Informa" Em parceria com Leila Cordeiro, possui uma produtora de vídeos jornalísticos e institucionais. Artigos mais recentes do autorHerói ou Traidor?A morte de Veja e das outras semanaisNão foi culpa da GloboI am gayO Estado de Direito em riscoÉ dando que se recebeGlobo cala jornalistaTudo se resume ao futebolO homem por trás dos 47%Enterrando fantasmas Todos os artigos deste autor




Em 11/09/2011, ricardo carvalho escreveu:
George Bush e Dick Chaney foram as figuras mais nefastas da historia recente americana. No caso do Bush é questão de DNA, seu avô Prescott Bush teve seus bens confiscados porque em plena segunda guerra mundial, negociava com o inimigo. O homem negociava com Hitler. Uma arvore dessas não pode gerar bons frutos. Chaney e sua Holliburton se apoderaram da maquina de guerra americana, manipularam relatórios, mentiram de forma deslavada para o povo americano e o mundo e foram atras do petróleo barato do Iraque. Destruíram em uma década duzentos anos de historia. O Tea Party é apenas mais um fruto podre desta arvore distorcida.
Em 12/09/2011, mariazinha escreveu:
Só agora a índole maldosa dos ianques/sionistas/maçons é exposta. Se olharmos para a história com visão imparcial poderemos observar que são diabólicos desde muito tempo atrás. Nunca primaram por serem os mais limpos e os mais justos e sempre usaram mentiras e embustes para conseguirem abusar, depredar e roubar os mais fracos e indefesos.
Em 12/09/2011, alexandre leal escreveu:
o fundamentalismo liberal derrubou as torres e acelerou processo de declinio da democracia norte americana. obama atado ao "toma la da ca" para poder governar e dar alguma sustentabilidade a sua administração....ou estou sendo ing~enuo?
Em 12/09/2011, Valmor escreveu:
Acho as colocações do Eliakim bastante pertinentes. A derrubada das torres acelerou o processo de substituição de "graus" de democracia por "graus" de segurança, e ainda assim questiono os reais ganhos em termos de segurança. Acho que o maior dano do 9/11 a sociedade americana não foram as mais de 3.000 vidas perdidas mas sim ter escancarado a sua vulnerabilidade. E ai sim, finalmente, concordo em parte com o Ricardo quando ele fala da dupla Bush/Chaney. Eles se aproveitaram do medo generalizado para suprimir liberdades cívis no atacado.
Em 12/09/2011, Milton Cardoso escreveu:
A mariazinha fala em Justos porem não esta preocupada que misturar todo mundo assim e ser tambem injusta, é dar uma forcinha ao principe das trevas, pois voce citou os maçons que fez a Independencia de quase todos os paises das Americas inclusive o Brasil, os discursos em defesa a abolição dos escravos estao trancrito nos livros de ata de lojas maçonicas,e os que apredejam as mariazinhas por dar palpite nos Blogs não tem e jamais tera o apoio dos que voce tanto despresa.
Em 13/09/2011, marcelo silva escreveu:
Talvez este seja o melhor texto que já li no DR. Parabéns, Eliakim. Só fico triste porque textos como o seu atraem comentários de tipos como a Mariazinha, cuja análise histórica ?imparcial? só é menos deprimente do que todo o sofrimento causado nos últimos 10 anos pelas guerras inúteis que acompanhamos.
Em 13/09/2011, Luis Hipolito Blogger escreveu:
Apesar de tudo o que aconteceu após o 11 de setembro, os Estados Unidos da América continuarão sendo o centro do mundo. Não existe outro país com tamanha presença e influência globais como eles. Os que eles fazem na cultura, na economia e na política influenciam o mundo inteiro. Todos aqueles que veneram a liberdade e a democracia precisamos ter esperança que os Estados Unidos da América sejam melhores no futuro e que essa melhoria possa se espalhar pelo mundo!!!
Em 13/09/2011, Fernando Bernardo escreveu:
Pois é !. Watergate em 2011 seria perfeitamente..."legal" !. Apenas depois do "acidente" de 2008, os Democratas recuperaram o poder, e os anteriores espiões se tornaram...Os espionados !. Ae eles não querem brincar !. Os Republicanos farão DE TUDO para voltarem a serem...os espiões !. Não preciso nem mencionar o MERCADO NEGRO de informações que essa coisa poderá proporcionar !. Algo como " Saiba tudo o que a sua concorrência anda fazendo ", ou " Saiba tudo MESMO sobre o que acontece na sua vizinhança ". Esse será o FUTURO dos EUA junto com as FAVELAS que já pipocam por ae !. Quem diria que as FAVELAS do Brasil ainda seriam o modelo da habitação popular do futuro próximo dos EUA e da UE !.
Em 14/09/2011, Milton Cardoso escreveu:
Uma casa a 10 minutos da praia na Florida é mais barato que uma no interior do estado de São Paulo onde as terras são tomadas pelo latifundio e as cidades não tem para onde crecer.