• Publicado em 07/02/2012

    Escola para vestibular?

     

    O projeto de escolas destinadas a formar jovens para exames vestibulares revela e denuncia um projeto de sociedade do qual se extirpou uma visão universal da vida.

    As escolas para vestibular são sintoma de uma organização social que perdeu os referenciais justificadores de nossa passagem por este mundo.

    Aboliu-se a educação humanística, que era a inspiração dos antigos ginásios. A formação escolar não é mais lastreada pelo objetivo de abrir horizontes, desenvolver o espírito crítico, favorecer a criatividade, apostar na dúvida, pois que a dúvida é o grande caminho do pensamento. Não se lêem mais, com o devido realce e interesse, as grandes obras da Literatura Brasileira e Universal, mas resumos dessas obras, porque em exames vestibulares o que conta é saber marcar “x” na opção apontada como correta. Os resumos dão conta desse recado. É possível o candidato alcançar nota máxima numa prova de Literatura, sem jamais ter lido uma obra literária integralmente.

    Não se formam mais jovens que encontrem seu papel no mundo, independente de eventual aprovação em exames vestibulares.

    Mesmo quando se estuda Filosofia, em tais escolas, não se pretende com esse ensino preparar a mente do jovem para o questionamento porque o questionamento não cabe em exames vestibulares. O ensino da Filosofia é dirigido para o enquadramento.

    Jamais saberão pensar com independência, grandeza e senso ético jovens egressos de escolas para vestibular, a menos que esses jovens encontrem em outros espaços sociais a oportunidade que tais escolas lhes negaram.

    A fixação em exames vestibulares é tão grande que escolas circunscritas a esse papel chegam a disputar a concorrência com suas congêneres apresentando cifras de aprovação. Quando conquistam para suas clientelas colocações em “primeiro lugar” nas provas, toda uma massa publicitária exalta o feito.

    Jovens aprovados em primeiro lugar serão, necessariamente, os melhores profissionais no futuro?

    Ou ampliando a indagação: jovens campeões serão os mais felizes, os mais integrados, ou se despedaçarão em conflitos e frustrações porque aprenderam a supor que nossa existência é uma corrida de Fórmula Um?

    Não se trata apenas de questionar as “escolas para vestibular”. Atrás dessa questão visível há um debate muito mais importante e profundo.

    A que se destina a educação? Quais são as finalidades de uma escola? Que diretrizes deveremos propor aos jovens para que lhes sirvam como itinerário da existência? O grande valor que deve alimentar nossas vidas particulares e a vida das sociedades é a competição ou a cooperação?

    Trata-se de matéria para longas discussões. Este texto apenas propõe quesitos elementares que suponho sejam úteis à reflexão.

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    • 5 Comentários recebidos

      • Em 07/02/2012, Caroline S. escreveu:

        Ótimo texto! Por trás desse modelo de escola está a razão instrumental, altamente criticada pela Escola de Frankfurt. É preciso reformar o modo com que os estudantes entram em uma universidade (ao invés de provas, que tal a soma de notas ao longo da vida acadêmica + apresentação de um projeto?). De qualquer modo, acho um tanto perigoso esse tipo de pensamento também se infiltrar em uma universidade: eu mesma possuo dificuldade em elaborar uma "justificativa" em artigos e monografias. Que retomemos o pensamento kantiano, que propôs o conhecimento como fim em si mesmo e a importância da reflexão para a formação do mesmo. Partindo desses princípios, não há espaço para vestibular, decorebas e razão instrumental.

      • Em 07/02/2012, Kterezinha escreveu:

        Que o seu excelente artigo sobre a educação chegue ao conhecimento da Presidente da Republica e do novo Ministro da Educação para que se adotem novos rumos par

      • Em 07/02/2012, fabio nogueira escreveu:

        As escolas brasileira e mesmas as universidades,estão preocupadas de formarem doutores e não cidadãos em prol de uma sociedade mais solidária. Os curso de humanas e o exemplo claro dessa situação vergonhosa.Temos de fazr uma reflexo sobre de que maneira queremos forma os nossos futuros formadores de opinião.

      • Em 08/02/2012, Guto Jimenez escreveu:

        Essa situação vem de longa data: eu mesmo fui aluno do Colégio Impacto no final dos anos 70. A instituição era notoriamente conhecida pelos seus resultados, que realmente eram expressivos, mas sem a menor preocupação com a formação do aluno no que quer que fosse. Para esse tipo de escolas, a formação só ocorre quando o aluno já passou para a faculdade - 3e aí, já é tarde demais. Como confiar numa mudança, se temos no congresso vários donos dessas redes de escolas e de centros universitários? A "educação fast food" é empurrada goela abaixo dos alunos, pois o que vale é o resultado e não desenvolver o discernimento dos estudantes.

      • Em 10/02/2012, José Eduardo M. Arantes escreveu:

        Como vestibulando eu pude perceber que o sistema de exames de vestibular é de fato injusto e não traz necessariamente jovens de caráter. O vestibular acaba por não dar suporte à educação como parte de desenvolvimento de um ser humano, com sorte essa tarefa fica para o ensino fundamental, pois, uma vez no ensino médio, só se pensa em carreira e vestibular; esquece se todo o resto. Porém devo discordar do ilustre autor desse artigo no sentido de que pode se passar só com resumos e decoreba. É verdade que não é preciso ler todos os livros, mas não ler nenhum por completo com certeza diminui as chances de passar significativamente; pois o vestibular é em última análise uma ferramenta para separar os mais capazes, e varia de acordo com qualidade da faculdade com concorrência do curso. Por um lado são dezenas de pessoas disputando por uma vaga, acaba por trazer uma competitividade exagerada, mas por outro, considerando a situação política e econômica do país, devemos valorizar o ensino superior público. Boa parte do problema se encontra na desigualdade do ensino básico, enquanto que os jovens de escola particular (e falo sem hipocrisia, pois sou um deles) vão conseguir lotar as USPs da vida o jovem pobre, infelizmente, se vê obrigado a recorrer ora a PROUNI, FECAP ou então virar

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