• Publicado em 24/11/2011

    Fora Chevron!

    O governo deveria punir exemplarmente a Chevron pelo vazamento de óleo na Bacia de Campos, com a proibição de que a empresa explore petróleo em águas profundas no Brasil. A medida está sendo cogitada, e seria a mais apropriada diante do comportamento da empresa norte-americana ao longo do episódio que já despejou em águas brasileiras o equivalente a três mil barris de petróleo em oito dias.

    Por enquanto, a Chevron foi condenada a pagar R$ 50 milhões e poderá ter que desembolsar mais R$ 100 milhões para a Agência Nacional do Petróleo (ANP). Para a Chevron, como dizem os americanos, isso é "peanuts". Até porque as multas seriam pagas com a venda do próprio petróleo extraído no Brasil, que só no primeiro semestre desse ano rendeu US$ 802 milhões á empresa norte-americana.

    A punição teria que ser mais dura e não apenas pecuniária para mostrar ao mercado que isso aqui não é casa da mãe Joana, onde uma concessionária age da maneira que quer, omite informações, tenta enganar as autoridades do país e sai ilesa. O que aconteceu na Bacia de Campos foi muito mais do que um acidente. Foi uma tentativa de fraudar a dimensão do vazamento, com os recursos mais sórdidos e desonestos.

    A Chevron editou imagens de vídeo do vazamento enviadas à ANP para fazer parecer que o acidente não era tão grave e que estava sob controle. Como observou a diretora da agência reguladora, Madga Chambriard, a empresa atuou em completa violação ao contrato de concessão e à própria legislação brasileira. Disse ainda a diretora da ANP que o tratamento que a empresa deu à agência reguladora e ao governo brasileiro foi "inaceitável". "Nós tivemos que ir a bordo da plataforma para procurar as imagens originais", contou.

    Ora, a tentativa de ludibriar as autoridades brasileiras já seria mais do que suficiente para uma punição exemplar. Não bastasse isso, o acidente se revela a cada dia um ato de desleixo e ganância da Chevron. Os geólogos da empresa queriam perfurar mais poços para entender melhor a dinâmica do campo e dos reservatórios, mas o presidente da empresa para América Latina e África, Ali Moshiri, foi contrário à operação mais lenta e custosa, ordenando uma exploração mais rápida e econômica. Deu no que deu.

    O mercado é pródigo em perdoar as faltas de seus próprios agentes, mas um governo soberano não pode agir da mesma maneira. Mesmo no capitalismo mais selvagem, as regras do jogo têm limites. Quando o norte-americano Bernard Madoff deu o cano em Wall Street, foi a julgamento e condenado a 150 anos de prisão por um tribunal de Nova York. A Chevron também tentou um trambique e foi flagrada a tempo. Depois que a Polícia Federal entrou na história, a empresa reconheceu que a culpa do vazamento era inteiramente sua, por ter "subestimado" a pressão do reservatório.

    Não foi só a questão técnica que a Chevron subestimou. Sua atitude em relação às autoridades brasileiras foi típica de quem se considera acima do bem e do mal e despreza a capacidade dos países de regularem sua atuação. O Brasil tem razões suficientes para botá-la para fora, mostrando que aqui existem as tais regras que o mercado sempre diz defender.

     

    Nota do editor. O artigo acima foi escrito antes da decisão da diretoria da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) de suspender as atividades da Chevron na perfuração no Campo de Frade, na Bacia de Campos.

    Compartilhe | |  Envie a um amigo |   Mais... |
    • 11 Comentários recebidos

      • Em 24/11/2011, Joao Florentinon DaSilva escreveu:

        Charles DeGaulle ja' dizia que "o Brasil nao era um pais serio", em um tempo que eramos considerados "quintal" de qualquer um. Pelo visto e pelas atitudes das autoridades brasileiras, alem de continuar-mos a demonstrar ao mundo que ainda nao nos tornamos "um pais serio", continuamos a ser o quintal dessa gente. E' lamentavel!

      • Em 24/11/2011, GETULIO SOARES PEREIRA escreveu:

        TRANSCREVO: " É, O PRÉ-SAL, UMA FRAUDE? Senhor Senador! / Senhora Senadora! Senhor Deputado! / Senhora Deputada! Todos os Senhores e Senhoras, os de boa fé, estão sendo enganados pela PETROBRAS e pelos seus geólogos com “A FARSA DO PRÉ-SAL BRASILEIRO”, e afirmo isso enquanto ex-geólogo de petróleo, que por cerca de 20 anos, trabalhou na Empresa na Bacia Sedimentar de Sergipe e de Alagoas, a mais completa das bacias brasileiras em termos de registros sedimentares, uma verdadeira bacia escola. Em 1989, através de um relatório técnico afirmei que na parte terrestre da Bacia de Sergipe, de Alagoas, de Pernambuco e da Paraíba (Exploração Petrolífera SEAL e PEPB) não havia mais petróleo novo por descobrir e isso me custou a primeira demissão da Petrobras. Infelizmente eu estava certo. Nenhuma descoberta ocorreu mais na Bacia de Sergipe e de Alagoas, na parte terrestre, em que pese todo o aparato tecnológico empregado na sua exploração, desde então. Denunciei em 2005 ao MPF/SE e pedi prov

      • Em 24/11/2011, Julio escreveu:

        A Chevron deve ser punida por esta barbaridade. Mas o agente governamental responsável pela fiscalização da empresa, que não tinha sequer equipamentos para emergências como a ocorrida, deve ser demitido e punido.

      • Em 24/11/2011, paulo vianna escreveu:

        Caro Mair È cada vez mais insuportável viver nesse país. È própria “casa da mãe Joana”, o que na verdade é um insulto à cafetina. Isso aqui e um valhacouto sombrio, fedorento, cínico, criminoso. É inacreditável ceder a essa tal de Chevron, com péssima folha corrida, a área de exploração, quando a própria Petrobrás poderia fazê-lo. Entretanto, depois daquela megapoluição da baía da Guanabara, tenho minhas dúvidas. Vide o relato do Getúlio acima. O resultado é que estamos entregando nosso ouro aos bandidos e passamos a ser canditatos ao câncer de cada dia. Todo o pescado consumido no Rio de Janeiro está lotado de metal pesado. Até aqui, na Praia de Itaipu, Niterói, os peixes não prestam pra consumo. Como somos o maior consumidor de agrotóxicos do mundo não sobra nada de saudável pra comer, toda a cadeia alimentar já está contaminada. Não acredito que as “elites” desse valhacouto comam só alimentos “orgânicos”, vaca orgânica, galinha orgânica, porco orgânico, etc. Aguardem o câncer que ele vai chegar. Como já li na porta de um cemitério: “Nós que aqui estamos por vós esperamos”.

      • Em 25/11/2011, Carlos escreveu:

        Não ao servilismo. E também não aos servilistas-mor (os vendilhões da Pátria, o PIG e seus protegidos).

      • Em 26/11/2011, Augusto G. Sperandio escreveu:

        O governo nessa não vacilou. Acionou a PF desde o primeiro momento, e a empresa está sendo investigada por CRIMES. Irresponsável tem sido nossa midia, primeiro omitindo, agora desinformando aos que ainda dependem dela. As investigações em curso deverão provar que o fato NÃO FOI ACIDENTE, mas algo previsível por ação irresponsável da Chevron e de seus técnicos responsáveis. E nada tem a ver com o necessário plano de combate a acidentes. Por melhor que fosse nosso plano de emergência, ainda estariamos sujeitos a operações de alto risco como a que foi praticada. Não existe fiscalização nesse nível. Imagine se, descumprindo um projeto, um engenheiro de campo decide reduzir o aço numa obra civil, ou o cimento, ou areia imprópria (caso Sergio Naya). Quem vai saber? HÁ RESPONSABILIDADE TÉCNICA. E lá foram quebradas regras básicas de engenharia. Quanto à cessão da área à Chevron, essa é a atual lei de concessões VIGENTE HERDADA DA QUEBRA DO MONOPÓLIO. Vejam desde o início www.tijolaço.com.br

      • Em 26/11/2011, Sebastião Braga escreveu:

        Mas senhor Carlos o contrato com a Chevron foi assinado pelo pig, ou pelo governo do PT? Não entendi. Os tucanos retomaram o poder? A imprensa governa? Ou o senhor fala por falar qualquer coisa que lhe vem à cabeça?

      • Em 26/11/2011, AFRANIO MARTINS escreveu:

        O PROBLEMA NAO E DA CHEVRON, ELES SOMENTE ESTAO COLOCANDO NO MONTE A SUA PARCELA. E O DINHEIRO E MUITO PRA CALAR QUEM QUER QUE SEJA.

      • Em 27/11/2011, ricardo carvalho escreveu:

        Pelo raciocínio da turma, pelo jeito da coisa a BP considera os EUA quintal dela, porque lá eles foram bem mais irresponsáveis que a Chevron por aqui. A questão é: Essa turma petroleira corre todos os riscos pelo lucro fácil e só se controlam quando bate pesado no bolso dos acionistas. Em tempo, a forma de controle de danos está toda errada. Jateamento de areia no óleo só vai afunda-lo e destruir o meio ambiente sem que ninguém veja, lá no fundo do mar, sem as famosas fotos de aves cheias de óleo na costa se debatendo. O que os olhos não veem...

      • Em 27/11/2011, ricardo carvalho escreveu:

        ERRATA. Essa turma petroleira corre todos os riscos pelo lucro fácil e eles só se controlam quando bate pesado no bolso dos acionistas.

      • Em 12/12/2011, Ronaldo Chagas escreveu:

        Mair, parabéns!!! Seu artigo é uma resposta aos que adoram bajular as grandes empresas multinacionais que ainda fazem o Brasil de quintal deles... Imagine se fosse a Petrobrás... a grande(?) imprensa estaria fazendo um barulhaço; mas como foi a Chevron... CHEGA DE BAJULAR AS EMPRESAS MULTINACIONAIS!!! RESPEITO É BOM E TODOS GOSTAM!!!

    • Deixe seu comentário

      Digite seu nome

      E-mail para contato

      Escreva seu comentário  Máx. 1000 caracteres

      Enviar agora

      Comente com responsabilidade

      Respeitamos sua opinião e teremos o maior prazer em publicá-la neste espaço.

      Lembre-se:

      Mensagens de cunho ofensivo ou politicamente incorretas não serão publicadas.