• Publicado em 10/02/2012

    Greve da PM se alastra

     

    Lendo as notícias acerca da greve, à beira do Carnaval, na Bahia e, agora, no Rio de Janeiro, certamente há algo a ponderar.

    Em primeiro lugar a inércia, vagabundagem mesmo, dos políticos, inclusive do governo, em não solucionar a questão do estatuto da greve. A falta de uma legislação específica, sempre empurrada com a barriga, dá margem a esse tipo de evento que permite a paralisação de serviços essenciais, cuja falta atinge diretamente a população, que é sempre punida nesses casos.

    Por outro lado, em um país em que não se privilegia o trabalho e o cumprimento das obrigações, em que há nítidas castas entre a população, sendo a mais privilegiada exatamente a dos políticos, onde cargos públicos são distribuídos aleatoriamente de acordo com os interesses da classe política, onde até os ministérios são meramente loteados, entregues a pessoas sem nenhum preparo ou conhecimento, apenas para servir a objetivos políticos, onde a população assiste, lê e toma conhecimento de desvios de toda a natureza, com milhões e bilhões de reais sendo simplesmente repassados aos amigos do poder sem que haja qualquer punição ou obrigação de devolução aos cofres públicos do que foi suprimido, onde qualquer, todas mesmo, licitações são viciadas e contam com sob repreços para alimentar os que as autorizam, onde a classe política aumenta seus próprios salários indevidamente, onde os escândalos não mais surpreendem a ninguém, ao passo que o cidadão trabalhador é obrigado a se servir de transportes deficientes e viver perigosamente em cidades sem segurança, não é de estranhar que haja dúvidas, até certezas, de que dinheiro existe para o pagamento de salários condizentes, especialmente para aqueles cuja profissão envolve risco de vida.

    O que dizer de um país no qual se exibem como heróis os idiotas anônimos de programas de televisão como o Big Brother, que expõem mulheres ditas ricas em uma demonstração cabal de que o estudo e o trabalho honesto não tem qualquer sentido ou interesse, ou aqueles nos quais são atirados aviõezinhos feitos com dinheiro para saciar pobres desempregadas?

    E o que pensar disso tudo quando essas “informações” são entremeadas de reportagens constantes acerca do não atendimento nos postos de saúde e hospitais ao alcance da população, da cada vez maior liberdade dos criminosos pela absoluta ausência de segurança, da luta das famílias em busca de matricular seus filhos nas escolas, dos absurdos todos, enfim, a que já nos acostumamos?

    Tudo sempre chega a um ponto de ruptura, como o que acontece agora.

    E o pior é que esses eventos sempre se repetirão, como parte da história do Brasil, história que começou com a descoberta e com o Brasil colônia, quando o governo de então, diferentemente dos governos ditos democráticos, não tinha que obedecer o princípio antes mencionado claramente em nossa constituição, de que “todo o poder emana do povo e em seu nome será exercido”, porque naquela época serviam à coroa portuguesa e em seu nome e interesse governavam.

    Posteriormente, com a república e a instituição da democracia, a que foi aqui instituída mudou as pessoas, que passaram a ser brasileiras, vigorando desde então, como no Brasil colônia, o entendimento no sentido do qual o poder, de fato, não emana do povo, e nem deverá ser em seu nome exercido, criando uma classe política que constitui uma verdadeira casta, que governa o país em nome de seus interesses próprios, sem até a mínima necessidade de representação do povo que os elege nos simulacros de eleições às quais o povo é obrigado a participar, como meio de “legalização” desse tipo de governo.

    Tinha que acontecer. Mais dia, menos dia, tinha que acontecer, que é o que se está assistindo, de parte de pessoas que integram forças bem maiores do que às do combalido e sucateado exército nacional.

    A partir daí, seja ou não feito acordo entre governo e essas forças, fica a lição de que, em um país como o Brasil, no qual as “moscas” são sempre as mesmas, assim como o bolo que não muda, nada de novo acontecerá que sirva, de fato, para responder aos anseios legítimos e expectativas do povo brasileiro. A não ser à força, a não ser com mudanças verdadeiras que preparem a população do país, não apenas para lotar aeroportos em busca da realização do sonho da primeira viagem de avião, ou o do carro próprio, financiado em quase uma década, cujos custos não podem sustentar, mas com educação de nível, salários condizentes, assistência médica compatível e segurança, essas pequenas coisas que, apesar de estarem inseridas na Constituição, jamais existiram de fato.

    Contribuição do leitor Wilson Silveira. Email: wilson.silveira@newmarc.com.br

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