• Publicado em 27/11/2011

    Malfeitos do capitalismo

     

    O vazamento de óleo na plataforma fluminense permite algumas observações que merecem atenção. A Chevron é, na sua especialidade, no mundo do petróleo, uma empresa grande, segundo dizem maior que a nossa grande Petrobras. Mas essa gigante petrolífera americana (será ela um dos orgulhos da iniciativa particular?), deu um show de incompetência no episódio do vazamento. Mobilizando-se apenas depois de ter sido alertada pela Petrobras, mostrou-se incapaz de identificar com precisão o local do desastre, por falta de equipamento adequado. E foi a nossa estatal que emprestou à empresa americana equipamentos mais modernos, capazes de possibilitar essa identificação e de ensejar um atrasado plano de contenção. Retardando procedimentos, a Chevron revelou-se pouco ágil diante do acidente e, com informações incorretas e desencontradas, permitiu que se pusesse em dúvida outros aspectos de sua gestão no campo administrativo e mesmo ético.

    O artigo do Mair Pena Neto aqui no DR (“Fora Chevron!”) é, a esse respeito, bem esclarecedor. E aqui vou além. Que me desculpe o pessoal do neoliberalismo, mas o desastre  põe a nu, uma vez mais, a realidade que um pensamento falacioso teima em escamotear: não é verdadeira a afirmação de que o empreendimento particular é, por definição, mais eficiente que o estatal.

    E é bom, mais uma vez, tomarmos cuidado para não engolirmos gato por lebre. Ouvi na CBN uma incensada comentarista política declarar que “salta aos olhos”, na ocorrência, a incompetência dos órgãos reguladores (ou seja, vinculados ao Estado), aos quais faltaria uma ação fiscalizadora  mais eficaz. Claro que ela não deixou de criticar a petrolífera americana, mas imediatamente me lembrei do caso da TAM, em que certa mídia fez o possível para transferir para o âmbito do Estado brasileiro a responsabilidade pela tragédia de então. Se você prestar atenção, verá que todas as vezes que o empreendimento particular dá com os burros n’água, surge uma acusação ao poder público. Cômodo, não?  Os desavisados que ouvem esses acusadores podem  imaginar que eles defendem uma forte ação  controladora do Estado, mas as pessoas atentas percebem que esse controle só é lembrado nas catástrofes... 

    Para o neoliberalismo – uma das piores versões assumidas pelo capitalismo -, parece que o bom é a existência de um Estado fraco (chamado Estado mínimo), subserviente, que lhe facilite a vida; um Estado que abdique da instauração do bem-estar social; que privatize, que subsidie, que financie, que privilegie, sem levar em conta os interesses do povo; um Estado, enfim, que dê facilidades, sejam elas morais ou imorais.  Um exemplo? O poder público vai gastar quase 1 bilhão de reais para a “reconstrução” do Maracanã nos moldes FIFA, um crime contra um dos ícones da minha cidade. Afirma-se, porém, com a maior tranquilidade, que, depois da Copa, o estádio será entregue à administração particular. Coitado do povão! Já dá para pressentir o “legado” que lhe será reservado: um Maracanã elitizado, construído com dinheiro do povo para o lucro de poucos.  Essa é a lógica neoliberal. É para isso que o Estado serve...

    Não estou aqui defendendo a excelência do Estado e seus prepostos, que também cometem, e muitas vezes, sérios deslizes. Questiono, sim, essa visão maniqueísta e comprometida que confere um ar vestal ao particular e transforma em pérfido vilão  o serviço público. Seja ente público ou privado, ninguém desfruta dos privilégios da excelência. Exemplifico com a recente onda de denúncias de corrupção. É óbvio que devem ser fortemente coibidas e punidas as ações de quem usa o dinheiro do povo em proveito de seus interesses escusos. Mas é bom não esquecer – e esse “esquecimento” é nítido na mídia -  que, em inúmeros episódios de corrupção, os corruptores, sedentos de lucro fácil, vêm da iniciativa particular que é, no caso, cúmplice na fraude ao interesse público. Penso que todas as empreiteiras ou congêneres que oferecem propina a funcionários públicos para ganhar concorrências deveriam também submeter-se às penas da lei e, no mínimo, ser definitivamente impedidas de transacionar com o Estado. Uma “ficha-limpa” empresarial... O problema é saber se sobraria alguma...

    Como os indignados que vão tomando conta das ruas do mundo, julgo que os atos e fatos aqui expostos se interligam, direta ou indiretamente, em maior ou menor intensidade. Eles deixam à mostra algumas das incontáveis feridas de um perverso sistema econômico fundado no lucro a qualquer título, a qualquer preço, que beneficia uns poucos, penaliza as grandes massas e abomina políticas públicas de um Estado forte que lhe ameace o poder.  Também penso que esse sistema – na atual versão -  tenderá à agonia, se insistir nas reverências cegas a um deus Mercado com seus apóstolos tecnocratas e suas palavras de ordem contrárias às históricas conquistas sociais dos trabalhadores.

    Em recente editorial, o jornal “O Globo” deitou falação sobre o pessoal do “Ocupe Wall Street”, culminando com a apoteótica afirmação de que tentar apressar a “crise final do capitalismo” seria “algo tão ilusório quanto apostar no fim da história”. Sem ousar definir prazos ou mesmo apontar o que virá depois, acho que o bom senso torna possível imaginarmos que o fim do capitalismo, quando vier, estará na essência da dinâmica da própria história...    

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    • 18 Comentários recebidos

      • Em 27/11/2011, Xico Júnior escreveu:

        Assino embaixo do que contém o seu artigo. E acrescento: as políticas ditas públicas - em favor dos cidadãos - são apenas fachadas que encobrem o que impõe o neoliberalismo, através de mascaradas, porém maquiavélicas e bárbaras ações, como as fabricadas crises econômicas-financeiras, quando são injetados bilhões e bilhões de dólares nos pseudos quebrados bancos. Essa é uma estratégia dos EE.UU e países ricos da Europa, todos conluiados no mesmo vetor. Toda ação exacerbada, tipo WTC (11/09/2001), - basta lembrar o caso da Bomba Rio Centro no período da "Ditadura Fardada" - são fatos e atos que revelam o que de fato é arquitetado "por debaixo dos panos", ou dos tapetes, dos luxuosos gabinetes dos governantes e grandes conglomerados que comandam as comunicações - daí a manipulação da informação - e o capital no mundo todo. O Estado é servil em todas as latitudes. Enquanto não se acabar com esse estratagema não há saída aos cidadãos do mundo todo.

      • Em 27/11/2011, jaime escreveu:

        Perfeito o artigo. Não há reparo nenhum a fazer. Se posso acrescentar alguma coisa é dizer que quando a iniciativa privada fizer concursos tão difíceis quanto os do Estado, aí sim terá uma mão de obra parecida. Se o Estado não vai bem, é sempre bom lembrar uma frase comum: a direita vive dizendo que o Estado é incompetente e quando eles assumem o poder, provam cabalmente que isso é verdade.

      • Em 27/11/2011, BCManhaes escreveu:

        Prabenizo seu artigo!!! Saudações Socialistas

      • Em 27/11/2011, Dirval Cruz escreveu:

        Excelente artigo. Simples e correto. Parabéns.

      • Em 27/11/2011, Fernando Bernardo escreveu:

        Faltou dizer que é a NeoLiberal Dilma Rousseff a principal CULPADA nessa Maracutaia da reforma do Maraca, QUE JÁ HAVIA SIDO REFORMADO EM 2008 !. Ao Jaacokskind afirmo que promessas para enganar otários(as), vulgo eleitores como "Auditoria independente da dívida externa", "Estatização do sistema financeiro", "Auditoria das Privatizações", "Reversão das privatizações da Vale e das Telefônicas". Tudo promessa do Neo Liberal Dom Lullinha em 2002. No poder ? Nem um pio !. Falsas promessas para papar eleições também deveriam ser consideradas CRIMES imprescritíveis !. Crimes hediondos contra os eleitores desavisados !.

      • Em 28/11/2011, Davi Damião escreveu:

        Ao contrário do que muitos poderão pensar ao ler meu comentário, já vou dizendo: sou favorável sim à um Estado eficiente e forte, que imponha regras democráticas, porém fortes e iguais para todos. Mas ao ler vários comentários ultimamente, vejo que, na maioria, foram escritas por pessoas que nunca devem ter pisado em uma fábrica, seja no mar ou na terra, pública ou privada: vamos então dismistificar isso. Vazaram 3.000 barris de petróleo. Parece muito, mas não é nada. São apenas 477 mil litros, ou 408 toneladas, aproximadamente. Ou seja, umas 11 carretas daquelas duplas, chamadas de bi-trens rodoviários. Petróleo é basicamente Carbono e Hidrogênio, e também ao contrário do que muita gente imagina, é degradável na natureza, se estiver muito espalhado, como é o caso. 11 carretas de petróleo nos mais de 82 trilhões de metros quadrados do Atlântico, não é nada, se espalham rápido e se degradam muito rapidamente, sem prejuízo pra ninguém, já que não chegou à praia.

      • Em 28/11/2011, Davi Damião escreveu:

        (continuação) Portanto, não é um DESASTRE. É justamente por isso que as multas aplicadas nunca serão pagas, porque são absolutamente incompatíveis com a “quase zero” estrago causado. Outro ponto: fábricas: as coisas que os senhores tem em casa não vem das fábricas num passe de mágica. Fábricas não são coisas do tipo em que se liga um equipamento moderno, e do outro lado saem os produtos, não é assim que as coisas funcionam. Qualquer fábrica pára, dá defeito, equipamento enguiça, a qualidade disso e daquilo muda, para-se tudo, perde-se um lote, é uma briga diária contra a natureza das coisas, para se ter os produtos nas gôndolas ou bombas dos postos. E acidentes e problemas ocorrem, nem sempre fruto de negligência, mas apenas consequências do processo, nem sempre tão controlável quanto as pessoas pensam. A maioria das pessoas, viventes em escritórios e apartamentos, imaginam fábricas como coisas estáticas e perfeitas: nada mais longe disso.

      • Em 28/11/2011, Davi Damião escreveu:

        Fábricas são dinâmicas, o erro e o probl ema ocorrem o tempo todo, e os técnicos passam a vida toda lutando nisso, para que a maioria das pessoas dos apartamentos e escritórios possam ir ao supermercado. Não estou defendendo a Chevron, mas a saraivada de críticas e comentários negativos talvez não se justifique. As coisas não são assim do jeito que a massa dos escritórios e do povo em geral pensam. Mas quanto à defesa de um Estado forte, com um sistema jurídico forte (coisa que não temos infelizmente) nisso eu concordo. Mas acidentes, ou incidentes, como os da Chevron, sempre acontecerão, com ou sem Estado forte. É como a coisa é. Davi Damiao

      • Em 28/11/2011, Haroldo Frugoni Martins de Castro escreveu:

        Davi Damião. Achei correta a sua matéria. Parabens! Haroldo Frugoni

      • Em 28/11/2011, valmor escreveu:

        O Motta Lima adora distorcer os fatos para justificar seus argumentos. 1) Pra começar faz tempo que a Petrobras deixou de ser uma estatal, hoje ele é uma sociedade anonima de capital aberto, cujo principal acionista é o governo. 2) Dentro os malfeitos do capitalismo podemos citar: quase triplicou a expectativa de vida da população mundial, passando de pouco mais de 30 anos em 1700 para 82 anos em 2010, multiplicou muitas vezes a renda da população mundial. Não é um sistema perfeito, possui sim muitas falhas porém ainda não existem alternativas melhores. Caso o autor se considere apto, desenvolva a sua teoria, publique num livro e submeta a análise da ciência. Somente retórica não resolve absolutamente nada.

      • Em 29/11/2011, Natalina escreveu:

        Caro Valmor ,voce mencicionou que o capitalismo aumentou muitas vezes a renda da população mundial. a que população se refere caríssimo? tendo em vista a situação economica mundial que a maioria da população do mundo é submetida, devido ao modelo Neoliberal, confesso não compreender a que população se refere.

      • Em 29/11/2011, Saint-Clair escreveu:

        Muito lúcido o comentário do Davi Damião. Para quem está do lado de fora, pode até parecer que tudo deveria ser perfeito. Mas, infelizmente, não é assim. Pessoas falham, máquinas falham, processos falham. Normas de segurança que pareciam perfeitas, revelam-se ineficientes frente à circunstâncias inéditas. Não estou aqui defendendo a irresponsabilidade ou a falta de penalização, mas é como disse o Davi. Sempre acontecerão.

      • Em 30/11/2011, Valmor escreveu:

        @Natalina A que população mundial eu me refiro? Eu me refiro a população munidal que mora no planeta terra. Deu pra perceber que a Sra. não tem a minima perspectiva histórica para fazer um comentário desses. E tem mais, se a Sra esta setanda na sua confortável poltrona desfrutando do seu gelado ar condicionado e teclando no seu moderno computador, levante as mão a agradeça ao capitalismo.

      • Em 30/11/2011, marc612 escreveu:

        pode ate ocorrer acidentes mas ser negligente, omitir informacoes? perai neh vc quer é defender a empresa , me desculpe seja honesto Clair e damiao!! este foi o caso! , lembrem-se quem emprestou os equipamentos foi a petrobas, problemas acontecem mas ser omisso, falso, sem fidelidade no que diz e desprejar , sao consequencias desse capitalismo irracional e ganancioso que produz cada vez mais este tipo de pessoa e desinformado como vcs

      • Em 30/11/2011, Fernando Soares escreveu:

        Lúcido comentário do Davi Damião, concordo em tudo que escreveu, só tem um detalhe que ele não comentou, exatamente por existirem erros humanos e problemas nas máquinas é que empresas do porte da Chevron e que operam em situações extremas precisam ter processos e equipamentos de contingência para combater situações que ficam fora de controle e nos parece que a empresa não tinha a menor preparação para isso, tanto que necessitou da nossa velha estatal Petrobrás para lhe socorrer, é sobre esse ponto que se concentraram as críticas à empresa.

      • Em 07/12/2011, Euber Fernando escreveu:

        Valmor, você esqueceu de citar entre os malfeitos do capitalismo o um bilhão de famintos no mundo, o desemprego que não existia antes do capitalismo. Esqueceu de dizer também que graças ao capitalismo mais de um terço da população mundial é favelada. Quanto ao aumento da expectativa de vida, isso se deve às descobertas da humanidade(em 1700 higiene pessoal era passar algum tipo de loção no corpo para reduzir o mau cheiro...) que já aconteciam muito antes do capitalismo. Convém estudar um pouco de antropologia antes de dizer asneiras... Euber Fernando - Graduando em Ciências Sociais

      • Em 10/01/2012, Valmor escreveu:

        Prezado Euber! Popr favor nos ilumine com sua infinita sapiência e nos esclareça quando iniciou o capitalismo. Na minha ignorância e falta de conhecimentos atropológicos eu ousaria apontar que o inicio do capitalismo se da juntamente com os primórdios da revolução industrial, quando acontece a separação do trabalho e dos meios de produção. E esse vento pode ser situado em meados do sécuo XVIII ou seja por volta de 1750 que por mera coincidência é o mesmo período em que se verifica o início do crescimento consistente da expectativa de vida da população mundial. Então fazemos assim, eu estudo mais antropologia e tu estuda mais história. Combinado?

      • Em 14/05/2012, Luday escreveu:

        Para sabermos como nasceu o capitalismo e para que propósitos ele existe urge ler um artigo de Nehemias Gueiros Jr, intitulado "A maior fraude da história". É de bom alvitre também assistir ao documentário "Inside Job" (Trabalho Interno). A partir dessa leitura, começa-se a deslindar todo o processo em que vivemos.

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