- Publicado em 26/01/2012
Na era cibernética
Passei boa parte de minha vida de pediatra estudando a fome e suas consequências. Passei também boa parte da minha vida como professor de Pediatria, ensinando aos meus alunos aspectos da miséria e de suas consequências, que denomino psicossomáticas, como se fosse possivel separar a alma do corpo.
Acreditava que jamais um homem com fome poderia ser considerado livre. Ensinava a meus alunos que uma criança que consiga viver até os sete ou oito anos de idade dificilmente morrerá de fome, pois aprende a roubar ou a pedir.
Pertencente a geração forjada pelo cinema, assistindo Tempos Modernos, de Charles Chaplin, e tantos outros filmes, era assim que eu pensava - e me revoltava. E quando comparava, nas minhas andanças pelo mundo estudando a fome, não via muita relação entre a falta de comida e a Geografia. A fome era semelhante, em todos os lugares.
Lembrava-me, das minhas leituras de adolescente, de Jean Valjean, personagem principal do livro Os Miseráveis de Victor Hugo.
Orfão, ainda criança, foi criado pela irmã que enviuvou com sete filhos para criar e ele começou a ajudá-la. Desempregado, rouba um pão. Condenado a 5 anos de trabalhos forçados, termina preso por 19 anos — devido a várias tentativas de fugas. Libertado, nao é aceito em nenhum lugar. Don Bienvenu, bispo de Digne, oferece-lhe guarida. Jean Valjean rouba os talhares de prata da casa do seu protetor. Pego pelos policiais é levado à casa do bispo que, ao contrário do esperado, diz aos policiais que lhe presenteara os talheres, e lhe pergunta:
— Por que nao levou os castiçais?
A bondade do bispo fez Jean Valjean repensar sua posição com relação aos homens e à sociedade. Leitura adolescente. Deixou-me revoltado com a usura da sociedade. Mas isso são coisas passadas. Apesar de tudo, continuo com a capacidade de me indignar.Aprendi, ao longo da vida, ser a visão do preterito diversa da de agora. Duas gerações sucessivas não possuem a mesma visão, quanto mais a de um livro escrito em 1862...
Vi, assisti, na internet neste ano, há alguns meses, as ruas de Londres incendiadas. Lá, os roubos, saques e depredações praticados pelos jovens eram não por pão, alimentos ou agasalhos, mas sim por bugigangas eletrônicas e roupas de grife.
Pela TV testemunhei em São Paulo, meninas ainda pré-púberes roubando produtos para alisar os cabelos e outros artigos de embelezamento: perfumes, maquiagem, calças jeans de moda e outros produtos.
Será que tais produtos passaram a ser assim como o pão roubado pelo personagem de Vitor Hugo, essencial à vida, como o oxigênio e a água. Ou será que neste momento as futilidades tornaram-se tão essenciais quanto o oxigênio do ar? Para se ter o que o outro tem secundarizou-se até a comida?
E voltando aos motins de Londres, parece-me que os salteadores roubaram para ter as mesmas coisas que os ricos. Por que eles têm e eu não? Desejo possuir tênis de ultima geração, celulares e computadores hi-tech.
Os saqueadores de hoje, seja em Londres ou de uma rua do Recife, vão à busca das mesmas coisas.Mata-se por um par de tênis, um celular, um computador, um GPS ou qualquer outra geringonça eletrônica...
Ou será que o crime por roubar um pão merece a mesma condenação de quem roubou um CD? Ou de um ladrão que, aproveitando a confusão, abafou uma televisão de tela plana de não sei quantas polegadas?
Será que a Justiça também progrediu? A penalidade de roubar um CD será menor do que a imposta a quem rouba um produto da Apple, aquele da marca de uma maçã mordida. Ou todo crime é igual perante a Lei?
Espero que não apareça um enredo de novela com um pobre adolescente que ficou confinado na FEBEM por causa do furto de um CD. Dizem que o CD está caindo de moda, perdendo para os MP3 e 4? E agora, qual vai ser a pena para quem roubar um velho e ultrapassado computador?
Será que nada mudou, em plena era cibernética?
Contribuição do leitor Meraldo Zisman, médico no Recife. Email: meraldozisman@uol.com.br
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Em 27/01/2012, Jose Carlos Valle escreveu:
Gostei muito o comparativo de várias gerações. Agora pergunto: O Ex Governador Marin, bem na frente das câmeras roubou uma medaldla de um jogador de futebol. E foi abafado, não foi preso, indiciado, esquisito, se tudo mundo viu. Qual foi a resposta dele, dos amigos do seu lado.. QUE VERGONHA. SE ROUBAM NA NOSSA FRENTE, IMAGINEM NA CALADA DA NOITE......Estou com nojo do Brasil.