- Publicado em 05/02/2012
O povo sabe o que quer ou ...
No filme “A música segundo Tom Jobim”, de Nelson Pereira dos Santos, o universo criativo do compositor é apresentado sem discursos. A mensagem é encadeada pela sequência de músicas e imagens que constituem inesquecível registro de um tempo, não tão distante assim, em que a sensibilidade dos artistas de então – Tom, para muitos, o mais expressivo – pôde gerar obras de perenidade indiscutível. É um documento de uma época de efervescência criativa que devemos estar sempre trazendo de volta, quem sabe para que se possa estimular a nova geração, que anda por aí perdida na tentativa de fugir à mesmice de composições repetitivas, vulgares, insípidas, bem ao gosto dos tempos que correm, de valorização do descartável e de consumo de algo que já vem estragado pelos interesses “de mercado” da indústria musical brasileira e de seus cúmplices midiáticos.
O filme dá bem a dimensão planetária do compositor, que teve sua música levada a todos os rincões do mundo, com versões em inglês, francês, alemão, japonês... (Re)ouvir as músicas do Tom na voz de Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald, Frank Sinatra, já pagaria o ingresso, mas o encanto é saber que foi aqui, no Brasil, que elas surgiram para o mundo, em vozes como as de Maysa, Dolores Duran, Silvinha Telles, Nara Leão, Ellis Regina e tantos outros. Isso tudo prova, para usar as palavras do próprio Tom, que, em muitos casos, "a linguagem musical basta". Essa frase, aliás, aparece ao final do documentário, quase que como a justificar a sua concepção exclusivamente musical (que, para ser honesto, tem merecido algumas críticas, por fornecer poucas informações, principalmente para o público mais jovem).
Difícil escolher os melhores momentos do filme, mas entre eles estarão, seguramente, os duetos com Frank Sinatra (“Garota de Ipanema”) e Ellis Regina (“Águas de Março”) e as deliciosas interpretações de Silvinha Telles para “Samba de uma nota só” ou de Ella Fitsgerald para “Desafinado”.
Mas não quero esgotar esse espaço apenas com elogios ao filme do Tom. Afinal, não sou um crítico de cinema nem de música, mas alguém, que, saudoso talvez de épocas outras em que, a cada momento, tínhamos a sensibilidade provocada pela deliciosa criatividade dos nossos artistas da música, hoje vê com desalento os caminhos do nosso cancioneiro, dominado por composições (?) que vão do superficial ao besteirol e ao escatológico. E o grande apelo à sensibilidade do público reside num convite a que tire o pé do chão...
Neste mundo que, paradoxalmente, vai construindo sua realidade com tecnologias do mais alto nível a serviço de superficialidades , este mundo em que tudo é “fast-food”, é descartável, e em que a aparência dá de mil a zero na essência, não é apenas na música que percebemos esse abastardamento cultural. Mas isso é assunto para outro texto.
A argumentação dos detentores do poder midiático – que, diga-se, sabem bem que é pela educação e pela informação que se dá o verdadeiro crescimento de um povo, mas também o seu controle - já é conhecida: os índices de audiência revelam que “é isso que o povo quer”. Eu, porém, prefiro ficar com Gilberto Gil , autor de frase que é um convite à reflexão: “O povo sabe o que quer, mas também quer o que não sabe”.
Claro que sempre houve, entre nós, esse tipo de música de baixa categoria. Manifestações culturais de mau gosto existiam, inclusive, nos tempos do Tom, em que duelavam com a bossa nova e o tropicalismo. Mas nunca chegaram ao patamar de hoje, em que predominam quase absolutas, como uma receita para atender àquilo “que o povo quer”.
Apesar dos avanços do país no campo econômico, com conquistas sociais reconhecidas no mundo todo, é preciso que nos preocupemos com o processo cultural . O povo “quer o que não sabe”, vale dizer, só tem a ganhar com a aproximação de valores estéticos que despertem o seu sentimento , mas também o façam pensar. A nossa música popular sempre fez isso, de Noel a Cazuza. Um grande amigo, antropólogo, cujas palavras respeito, me disse que atribui o aparente enfraquecimento de hoje à ausência de um movimento com visibilidade para fazer aflorar o espírito criativo que certamente não perdemos, em termos musicais, e que anda por aí meio escondido, mas pronto a revelar-se. Pode ser. Então, talvez seja a hora de a internet fazer valer sua voz, literalmente, cumprindo essa missão gregária de colocar em destaque aquilo que o povo quer , mas não sabe que existe...
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Sobre o autor deste artigoRodolpho Motta Lima
Advogado formado pela UFRJ-RJ (antiga Universidade de Brasil)
e professor de Língua Portuguesa do Rio de Janeiro, formado
pela UERJ , com atividade em diversas instituições do Rio de
Janeiro. Com militância política nos anos da ditadura, particularmente no movimento estudantil. Funcionário aposentado do Banco do Brasil.
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Em 05/02/2012, Guto Jimenez escreveu:
Rodolpho, pelo bem de nosso país, torço pra que os seus anseios sejam realizados. Nem tanto pelo lado musical, pois é algo muito pessoal, mas principalmente no que diz respeito à atitude. Nosso povo parece se comportar como gado, engolindo e aceitando todo lixo cultural que é empurrado goela abaixo. Quando penso sobre isso, observo o quão eficiente foi a lavagem cerebral perpetuada não só por músicas ruins, mas também por novelas, programas de auditório, reality shows e outros subprodutos da mediocridade.
Em 09/02/2012, ricardo carvalho escreveu:
Estamos atingindo o ideal de "mercado". Cada vez mais parecidos com o estadunidense médio que gosta de programas de televisão com claque, que transforma uma coisa ridícula como Two and a Half Men em líder de audiência. Estamos chegando ao primeiro mundo, pelo menos no que diz respeito ao gosto duvidoso dos "poetas", e as letras pornográficas dos funks de periferia. Na estética feminina, estamos importando até os peitões das americanas. No nosso caso, só com muito silicone, porque a genética brasileira privilegia outras partes de nossas mulheres. De degrau em degrau, descendo passo a passo, estamos chegando lá, no que eles tem de pior.
Em 12/02/2012, dfalcao escreveu:
Caro Ricardo...com ou sem claque "Two and a Half Men" é ótimo e sucesso mundialmente, mesmo em terras com muito mais educação e cultura que a nossa.