• Publicado em 11/12/2011

    O que você está fazendo agora?

    Em um recente artigo, ao falar sobre o ENEM 2011, que propunha como tema de sua redação as redes sociais disseminadas pela internet, comentei a óbvia influência da mídia eletrônica nos tempos que correm e, sem deixar de reconhecer os inegáveis ganhos para a nossa civilização introduzidos pelas novas formas de comunicação, fiz algumas breves observações restritivas a respeito de sua utilização pelos jovens, de uma forma geral.  Hoje, discute-se muito,  nas escolas,   sobre se , efetivamente, o público jovem está ganhando mais conteúdo pelo acesso à internet, se está realmente aproveitando os excepcionais recursos que ela propicia no sentido de aprimorar seu universo cultural ou se está apenas “navegando” ao sabor das ondas cibernéticas, jogando “games” e  conversa fora, perdendo tempo...

    Como exemplo ilustrativo dos problemas nessa área, notícias dão conta  de que, na Coreia do Sul, está sendo implementada lei que proibe aos menores de 16 anos o acesso aos “games” da Internet em horários da madrugada, pois isso é visto como prejudicial ao seu rendimento escolar.  É óbvio que a lei , já apelidada de “Lei de Cinderela”, um autêntico toque de recolher cibernético, está merecendo vigorosas críticas, mas é sintomático que se tenha pensado nela.

    Nada contra jogar conversa fora ou divertir-se com jogos eletrônicos.  Afinal, vivemos todos sufocados pelos problemas do cotidiano  e há momentos em que precisamos mesmo espairecer, esquecer – ainda que momentaneamente – os infortúnios pessoais ou sociais, trocando a testa enrugada e as palavras duras por “abobrinhas” ou atividades lúdicas que não fazem mal a ninguém. E isso é  verdade para todos, mais velhos ou mais jovens.

    Além disso, é forçoso reconhecer que os jogos e bate-papos propiciados pela web  podem servir a muitos – moços ou não - como escape a uma existência de solidão, uma das marcas mais visíveis da sociedade contemporânea. As amizades virtuais, se não suprem totalmente o contato direto entre as pessoas, ajudam a construir  universos de relacionamento em que a interação se faz – copiando Gilberto Gil ao definir a saudade – como uma “presença na ausência”.

    E as novas “tribos” da juventude surgem no Orkut, no MSN,  no Facebook, no Twitter, e mesmo nos variados blogs que permitem a desejada visibilidade, hoje parente íntima da afirmação do indivíduo, dado o tipo de sociedade em que vivemos.

    Mas não só de egocentrismo vivem os internautas mais novos.  Apesar de um certo ceticismo que deixei revelado no texto sobre o ENEM , acho justo reconhecer que, nesse tópico “individualismo”, já se observa, aqui e ali, uma ligeira alteração nos rumos desse escancaramento pessoal. Parece que , lenta mas gradativamente, sem abandonar o culto ao próprio eu – uma característica, aliás,  dos moços de todas as épocas, talvez exacerbada nos tempos presentes -, a turma jovem começa a se dar conta da importância de sua participação, do seu engajamento enquanto ser gregário, ente social. Mais que isso, creio que começa a perceber as consequências para a sua vida – boas ou ruins - do que acontece no seu entorno.  Não deixa de ser sugestiva a percepção de que o Facebook e o Twitter estão incorporando, cada vez mais, o espírito de fóruns de discussão, de debates sobre assuntos da atualidade planetária. Não se trata mais, apenas, para o usuário dessas mídias, de exposição de seus próprios passos (“O que você está fazendo agora?”), mas de uma preocupação com o que está ocorrendo no seu ambiente social, desde o bairro em que mora ao planeta que habita.

    Com alguma frequência, menor do que a desejada mas ainda assim promissora,  tenho sido  surpreendido por  alunos que estruturam blogs de discussão e propõem oportunos debates,  produzindo  textos de invulgar correção, seja no plano do questionamento, seja na estética da argumentação. Há um crescimento dos ambientes de debate, aqui e no mundo. Muitos fatos históricos que ora vivenciamos  são consequências de movimentos sociais cujo pontapé inicial se deu na internet.  Nesse particular, o Twitter e o Facebook  parecem estar ganhando terreno.

    Evidentemente, seria bem melhor, em termos ideais, que os comentários e observações superassem os 140 caracteres institucionais do Twitter, por exemplo, e que, em muitos casos,  a exposição de ideias fosse menos superficial.  Também seria desejável que os jovens não se deixassem levar – como penso que se deixam – pelo imediatismo vicioso do “tempo real”, que os torna rapidamente desinteressados por algo que, há poucas horas, era o móvel de todo o seu interesse.  De qualquer forma, é salutar essa participação crescente , e  digna de nota a importância das ferramentas digitais nesse processo. São componentes de um presente que, em meio a seus inúmeros problemas, permite  vislumbrar positivos movimentos das gerações mais novas , que, esporádicos que sejam ainda, apontam para uma sociedade melhor.         

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