- Publicado em 22/08/2010
O voto é secreto mesmo?
De quando em vez surpreendo-me com coisas que já sei. Desta vez foi com a pesquisa de julho de 2010 do Tribunal Eleitoral sobre o nível da escolaridade do eleitor brasileiro. Se não vejamos: de um total de 135,8 milhões de votantes, 5,9% são analfabetos, 35% informaram saber ler e escrever, mas a maioria não concluiu o primeiro grau escolar, o que significa que não freqüentaram escola e provavelmente não sabem interpretar textos.
Apesar de concordar com a ideia de que o processo democrático é algo dinâmico e em constante aperfeiçoamento, enquanto os regimes ditatoriais são estáticos e donos de uma verdade que é a do ditador, acredito no que ensina o sociólogo alemão Max Weber (1864-1920): "A Democracia é a melhor forma de governo, porém possui o seu calcanhar de Aquiles. É o seu colégio eleitoral". Continuo.
O voto de curral era a expressão empregada para designar o sistema eleitoral onde a eleição era manipulada pelos ?coronéis, figuras que detinham o poder social e político em diversas regiões do País. Não importando a forma de governo central, Brasil Colonial, Império ou República, quem mandava e desmandava eram esses pequenos caudilhos. O seu poder assemelhava-se ao feudo medieval, mas em lugar de fossos e muralhas havia cercas de arame farpado para guardar seus eleitores de cabresto...
Com o advento da TV e da eletrônica pensei que muita coisa iria mudar. Mudou sim, mais muito pouco. Nas grandes cidades - ou na maioria delas - quem manda são os donos da Mídia, principalmente os donos das cadeias de TV. De um povo cuja cultura vem das novelas, dos programas de baixo nível, desestruturado, analfabeto, o que se poderá esperar como resultado eleitoral ?
Olhando de determinado ângulo este tal progresso tecnológico, tenho cá minhas duvidas. Quem sabe com esses esclarecimentos, venhamos a fazer escolhas piores do que as que fazíamos antes. Não há mais barreira física contra a informação: onda de radio, sinal de televisão ou onde despontam os sinais da Internet, aos quais, lamentavelmente, apenas uma pequena minoria tem acesso. . .
A informação penetra em todos os lugares e lares. Esboroaram-se os castelos dos nossos antigos coronéis. E tem mais, pelo andar da carruagem, a cerca do curral e os poderes dos coronéis estão ultrapassados, mas não deixam de existir - subliminarmente. Agora o céu é o limite. Ou dizendo de outra maneira: continuamos cercados pelos arames farpados do analfabetismo, agora intoxicados pelos marqueteiros eleitoreiros.
Sem Educação e Ensino não haverá tecnologia que seja capaz de fazer avançar a Democracia Brasileira. Ficamos no mesmo coronelismo, agora apenas camuflado. Que importa se a urna é eletrônica, quando a massa eleitoral não tem escola para aprender ou se esclarecer? Se a cabeça do votante continua desinformada e agora mais confusa.
Para concluir, vou confessar uma coisa (sem saudosismo piegas). No tempo dos coronéis era tudo mais simples e havia um folclore mais engraçado. Costumo dizer: sem humor, do que vale viver? Havia todo um folclore envolvido, cujo centro era, na maioria das vezes, o chefe político ou o dito coronel. O voto era passado das mãos do coronel para o eleitor em cédula dobrada e quando o pobre do eleitor queria ver o nome em que ia votar, o chefe, o capataz ou o cabo eleitoral ou qualquer coisa que o valha gritava: "Pra que olhar primeiro se você nem sabe ler e depois o voto é secreto. Você não sabe disso? Seu idiota! Quer ir pro xilindró? Olha o meganha ai para te prender..."
Artigo enviado pelo leitor Meraldo Zisman, médico psicoterapeuta. Email meraldozisman@uol.com.br
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Em 23/08/2010, Carlos escreveu:
Muito bem escrito! Ainda acho que o voto não deveria ser obrigatório.Deveria ter uma espécie de Colégio Eleitoral como nos EU. Acabar com esta "multidão" de partidos como uma "Sopa de Letrinhas" e somente deixar 2-3 e assim o povo votante poderia discernir melhor nas escolhas dos candidatos. Este partido é liberal-progressista, aquele é conservador etc.
Em 23/08/2010, ricardo carvalho escreveu:
Caro Meraldo, Acho que manter um "estoque" de analfabetos totais e analfabetos funcionais, é quase uma estratégia de Estado.Um povo ignorante é facilmente manipulável. Essa é nossa grande tragédia e também uma ameaça ao nosso futuro como nação.
Em 23/08/2010, Carlos Eduardo dos Santos Araujo escreveu:
Parabéns pelo texto. Deve-se acabar com os vícios na nossa política. Uma empresa doa alguns milhares e até milhões de reais em campanhas de políticos a troco de quê? Por pura generosidade? Ou de olho nas licitações (ou dispensa destas) durante o mandato? Política de troca de favores só gera compromissos com grupos isolados, jamais com a sociedade. Até quando...? Abraços!
Em 23/08/2010, Anips Spina escreveu:
Excelente artigo. Muito Lúcido.Vide as pesquisas que de acordocom a metodologia, e universo pesquisado, indicam uma direção, para uma maioria, silenciosa e as vezes alienada, apenas para não perder o voto, segue-se a tendencia sem avaliar o conteúdo. Agora é chique, "curral midiático".
Em 23/08/2010, Alex Agrico escreveu:
Otimo artigo! Fico aqui a considerar o quao bem um regime onde o povo eh obrigado a votar e, por ignorancia ou outra obrigacao, acaba votando naqueles que tem dinheiro pode se enquadrar no conceito de "democracia".