• Publicado em 19/02/2012

    Os neoentreguistas e o carnaval

     

    Com a chegada do carnaval, a direita alvoroçada já pôs o bloco na rua para cantar em prosa e verso um suposto estelionato eleitoral que teria sido praticado pelo Governo Dilma ao promover o processo de concessão da administração de aeroportos à iniciativa privada. Assim, a quase divina Colombina que atende pelo nome de Privatização estaria, agora sim, sendo igualmente cortejada pelo Pierrô petista e pelo Arlequim tucano (ou seria o contrário?). E o deus Mercado (ou seria o rei Momo?) estaria, portanto, imperando no pedaço novamente, impondo sua religião do lucro predatório e, por que não?, vendo revigorados  carnavais passados da Privataria tão bem documentada pelo escritor Amauri Ribeiro Jr...

    Penso aqui em um tempo de que tenho saudade, um tempo em que,  ao contrário do que se supõe, as pessoas buscavam muito mais do que hoje inteirar-se do que acontecia na sociedade em que viviam – no campo político, inclusive -  e lutavam por seus interesses. Nesse tempo, aqueles que viam o enfraquecimento do estado nacional com mórbida satisfação e, mais do que isso, tentavam agir para debilitá-lo e, mais ainda  do que isso, apenas pensavam nas vantagens pessoais que teriam com esse processo destrutivo,  esses eram chamados entreguistas, ou seja, aqueles que queriam entregar a riqueza do país ( quer dizer, de todos) nas mãos de interesses estrangeiros ou falsamente nacionais, mas sempre de poucos.  Eram pessoas que, entre outras máximas, seguiam a frase de Juracy Magalhães, coronel do udenismo, que dizia: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. Não por acaso, essas pessoas tinham tudo a ver com a tentativa de repressão aos movimentos populares , que, no lado oposto,  defendiam ardorosamente o patrimônio nacional usando outras frases como, por exemplo, “O petróleo é nosso”.

    Esse é um paralelo que quero traçar, entre os entreguistas de então e os atuais “privativistas”. No fundo, no fundo, uns são diletos descendentes ideológicos dos outros, porque o que os fundamenta é o total descaso com o social e a concepção de que este mundo é feito para que uns poucos metam a mão no que deveria ser de todos.

    Diante do processo que envolve os aeroportos brasileiros, tenho dois caminhos a considerar.

    Um deles seria admitir a derrota e cantar a música “Metamorfose ambulante” do Raul Seixas, deixando de lado a minha “opinião formada” sobre as privatizações e sua perversidade e admitindo que, mudados os tempos, também eu devo mudar. Seria algo como assumir as cínicas palavras de Stanislaw Ponte Preta e reconhecer que, já que não dá para restaurar a moralidade, vamos também nos locupletar.... Mas nesse caminho não sigo. Penso que, assim como a nossa constituição tem as suas cláusulas pétreas, inamovíveis, em defesa da cidadania e dos direitos fundamentais do homem, também eu trago na consciência valores que considero imutáveis e um deles é não compactuar com aquilo de que discordo, em termos ideológicos. Nessas horas, é bom reafirmar minha posição de absoluta independência em relação ao Governo ou a qualquer partido político e é bem confortável, por isso, a perspectiva em que me situo.

    Chego então ao segundo caminho , que é o da reflexão, aquele que me permita entender, neste “emboglio” todo,  o que realmente está ocorrendo, sem pré-conceitos e, principalmente, em face do carnaval, sem me embebedar com a euforia dos que puseram outra letra na música. E então, sem entrar no bloco de aplausos à iniciativa do Governo, porque a tanto não chego, posso, calmamente, perceber e admitir que há consideráveis diferenças entre o desfile de ontem e o de hoje. Primeiro: não se “vendeu”, mas se concedeu o direito de explorar por tempo determinado. Segundo: preservou-se a presença do Estado com 49 % dos direitos, o que permite a fiscalização e a defesa dos interesses públicos. Terceiro: até que me provem o contrário,  fez-se  um negócio que carreou para os cofres públicos   recursos bem maiores do que os conseguidos naquele carnaval antigo em que muita gente se fantasiou de “pirata”.  Quarto: tais recursos não servirão para pagar dívidas contraídas por irresponsabilidades anteriores, mas para alavancar os projetos sociais que hoje existem. Quinto: até que me provem o contrário, não haverá ganhos particulares marginais e imorais decorrentes de propinas bilionárias mantidas em paraísos fiscais. Sexto: não acho possível comparar, em termos de grandeza e importância, a concessão de serviços de aeroporto e, por exemplo,  a venda de uma das maiores empresas do mundo, a Vale.    

    Acho que essa turma da euforia, que vive de olho na Petrobras e que vê no episódio uma abertura para o velho entreguismo de antigamente, pode tirar o cavalinho da chuva. Isso, se chover no carnaval...

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    • 8 Comentários recebidos

      • Em 19/02/2012, Guto Jimenez escreveu:

        A tucanalhada deve estar espumando de raiva: "como pudemos deixar isso pros petralhas?!", perguntam aos seus botões. Mais uma vez, a comparação privilegia o atual sistema de governo, voltado ao povo e não às "exigências do mercado" como na era tecnocrata anterior. A era da privataria acabou e eles perderam o bonde - quer dizer, o avião - da história. A reação da oposição nada mais é do que birra de quem teve a faca e o queijo nas mãos, mas dependia dos pires estrangeiros pra se saciarem. Tomara que seus pesadelos tenham a pavorosa trilha sonora do "ai, se eu te pego"...

      • Em 20/02/2012, edelberto escreveu:

        O governo não vendeu, apenas concedeu o direito de exploração a prazo fixo. As prostitutas também não vendem seus corpos, deixam que o explorem por um tempo determinado. Portanto, está criado o Estado Proxeneta. Mais uma novidade no bestialógico petista!

      • Em 20/02/2012, Fernando Bernardo escreveu:

        Nos anos 80, um tal de Anésio Lara, parente do petista Eduardo Supliçy, Integralista, como também foi o João Cândido ( Esse, era de carteirinha informação já devidamente OMITIDA nos nossos livros escolares )já falava em privatização geral... A única crítica HONESTA que reconheço que se fazem aos Integralistas, era o FATO de que lá dentro, realmente era todo mundo católico !. Nunca vi unzinho só que fosse de outra religião !. Vi isso de perto !. Hoje ? Me considero NIILISTA em política !. ( Eclesiastes 8:9 ).

      • Em 22/02/2012, Ronaldo Chagas escreveu:

        Rodolpho,excelente artigo!O Carnaval,apesar de todos esses fatores, ainda resiste;vide o desfile do Bloco Cordão Da Bola Preta,realizado no sábado.É a prova de que a maior festa popular do planeta é exatamente o que disse o genial compositor Nélson Sargento:AGONIZA,MAS NÃO MORRE!!!ABRAÇOS!!!

      • Em 23/02/2012, Gustavo Horta escreveu:

        Caro colunista, você acredita mesmo que há alguma diferença? Há alguma diferença entre a iniciativa privada e o Estado entre nós? Há alguma diferença entre os três poderes em nossa federação? Ou estão todos arrolados na mesma e única promiscuidade?

      • Em 24/02/2012, NELSON NISENBAUM escreveu:

        Muito bem colocado pelo autor. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. É tudo diferente, da forma ao conteúdo. O estado não sofre qualquer prejuízo ou diminuição nesta operação. Não perde patrimônio e preserva considerável fatia de poder, inclusive de veto.

      • Em 24/02/2012, Mauro escreveu:

        É óbvio que todo funcionário público, da ativa ou aposentado, irá defender a não privatização de empresas estatais. Se assim o fizesse, acabaria com suas mamatas e, óbvio, estaria atirando contra seus próprios pés. A função do estado é cuidar da saúde, da segurança, da educação e não tentar gerir empresas. O estado é incompetente e corrupto. Sempre foi, é e será. Portanto. Racionalidade acima do besteirol esquerdista.

      • Em 28/02/2012, Valmor escreveu:

        Hoje temos cerca de 22mil cargos de livre nomeação em nível federal. Isso mais que o dobro do observado nos EUA, cujo PIB é cerca 7 vezes maior. No Reino Unido eles são cerca de 300 e na Alemanha, pasme, não passam de 500. Agora pergunto, essa não é uma forma de privatizar os recursos públicos???

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