• Publicado em 24/04/2005

    OS SESSENTA ANOS DE HEBE

    Não foi só Glória Perez que descobriu a América. Hebe Camargo também. Conhecida por sempre passar as férias na Europa, mais precisamente em Paris, Hebe acabou por se render à descontração latina de Miami e capitulou. Aceitou o convite para ser homenageada por seus sessenta anos de vida artística pela comunidade brasileira do Sul da Flórida.

    A festa não podia ter sido em lugar melhor: uma mansão num dos bairros de gente muita rica em Miami, com uma piscina quase olímpica e um enorme pátio decorado com plantas tropicais. Hebe chegou como se estivesse em seu programa no SBT. Absolutamente à vontade, sorridente, num vestido de grife bordado com fios dourados e coberta de jóias de fazer inveja a Elizabeth Taylor, Hebe brilhou como a grande estrela que é.

    Sem dúvida, ela é a primeira dama da TV brasileira. Não só porque está acima de logos e marcas, mas também pela sua personalidade forte e carismática que sempre rouba a cena, esteja onde estiver. E foi o que aconteceu. A homenagem previa uma apresentação produzida sobre a vida profissional de Hebe. Mas não teve jeito. Ela acabou tomando conta da cena, apossou-se do microfone e resolveu contar, ela mesma, a sua própria história.

    E aproveitou para esclarecer um momento histórico de nossa televisão. Ela não participou da primeira transmissão da TV brasileira, em 1950, como quase todos os sites que falam sobre a vida dela informam. Hebe confirmou que foi realmente convidada por Assis Chateaubriand para cantar o "hino da televisão", segundo ela "uma coisa horrorosa". Hebe conta que chegou a ensaiar, mas na última hora o coração falou mais alto : cedeu o lugar para Lolita Rodrigues e foi encontrar-se com um jornalista da Folha, por quem estava apaixonada.

    Hebe deu um show, e com a autoridade de quem sabe fazer programas ao vivo, acabou transformando a homenagem num programa exclusivo para um seleto grupo de cem brasileiros, convidados especialmente para o evento, deixando todos maravilhados com o seu carisma e seu poder de comunicação. Discorreu sobre a própria vida com uma naturalidade de fazer inveja a qualquer politico, que normalmente sua a camisa para aprender como conquistar um eleitor. Hebe faz isso brincando, sem sofrimento ou ensaio.

    Seu mérito como entrevistadora é indiscutível. São muitos anos de experiência em programas ao vivo e nisso ela é melhor que a grande maioria dos jornalistas brasileiros, que foram acostumados a gravar suas entrevistas e se perdem quando têm que trabalhar "ao vivo". Comparada com outros entrevistadores da TV brasileira, Hebe sai na frente também. Simplesmente porque ela sabe ouvir e não interrompe o entrevistado para fazer comentários desnecessários ou demonstrar conhecimentos pessoais. São entrevistadores que querem brilhar mais que os convidados, no fim das contas o entrevistado sai frustrado porque não conseguiu dizer o que queria, o entrevistador não deixou. Hebe não sofre desse mal e seus entrevistados saem felizes de seu programa, sentindo-se prestigiados e importantes.

    Hebe tem uma energia invejável. Depois de todas as homenagens, discursos, entrega de troféu, fotos e o assédio inevitável dos fãs que não a viam há muitos anos já que o SBT ainda não entra nos EUA,a primeira dama televisiva ainda encontrou energia para convidar a todos os amigos para dançar num restaurante brasileiro em Miami.

    Na pista Hebe brilhou mais uma vez. Aos 76 anos, com uma resistência de fazer inveja a muitos jovens, ela ensinou às pessoas como viver com alegria e disposição. Afinal, Hebe é uma mulher realizada e faz o que gosta na TV: um programa de auditório onde pode ser ela mesma protestando, elogiando, vibrando ou até contestando seus entrevistados com uma segurança de quem sabe o que representa no cenário artístico brasileiro.

    Opiniões políticas à parte, e as dela nem sempre agradam aos chamados formadores de opinião, temos que reconhecer que Hebe é talvez a única sobrevivente de uma televisão mais sincera e verdadeira. Ela não precisa apelar para ter audiência, consegue ser popular sem baixar o nível.

    Hebe é Hebe…e não se fala mais nisso!

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