• Publicado em 05/01/2012

    Planos de saúde X Anestesistas

     

    Recife (PE) - Atenção, mortais do Brasil, atenção, cuidado: não sofram acidente, não adoeçam, não padeçam de qualquer mal que passe por uma sala de cirurgia. Além do azar da queda, maior azar  vai ser a escolha entre a dor pura do corte em órgãos vitais e a dor da anestesia, no preço. Escolham, digamos, escolham: o corte a cru ou o corte na sobrevivência, caso consigam se levantar do leito. E não pensem por favor que falamos de uma desgraça aonde não chega a classe média. Não. Estamos falando de você, bem posto aí, a julgar que os pobres são os outros. Acorde, porque o seu plano de saúde cobra, mas não cobre anestesia, em mais de um caso, disfarce ou maneira.

    À primeira vista, a culpa é da sua “cobertura” de saúde, se o leitor dispensa a ironia. É comum nos planos de saúde Bradescos, Unimeds da vida (nada contra a vida), prometerem uma coisa e realizarem outra. Você entra com os fundos e os planos com os cálculos do atuário. Entenda, atuário não é bem sinônimo de otário, ainda que com ele guarde semelhança e rima. Os cálculos do atuário medem a probabilidade de você morrer ou se fender com base nas estatísticas de mortos e fendidos em geral. Por isso à primeira vista a culpa é dos planos de saúde. Mas quando se pesquisa, aparece um comportamento pouco hipocrático, ou muito hipócrita dos senhores anestesistas. Ou anestesiologistas, como mais dignos preferem ser chamados.  

    Entendam. Em quase todo o Brasil os especialistas no combate à dor  estão organizados em cooperativas. Ótimo, nada contra. Eles, os anestesiologistas, aprovam tabelas pelo custo do serviço. Ótimo, ainda concordamos, meio engasgados. Os planos de saúde, por sua vez, negociam um preço justo pela injeção do anestésico. É natural. Os anestesiologistas não o aceitam, rompem-no, o acordo ou o paciente, sem aviso para você. Explico. Não é bem que antes da cirurgia, se houver tempo, o cirurgião não o informe de que os anestesistas estão fora da cobertura, total ou parcial do seu plano. O cirurgião fala, informa, mas com uma informação cortada pelo meio. Dizem-lhe, por exemplo: “você paga com um cheque para 30 dias, e o seu plano faz o ressarcimento”. Quem assim informa, insinua que o preço cobrado é igual ao preço devolvido. Ah, hora da dor, como não acreditar?       

    Olhe que você se encontra com a mãe, filho ou esposa já na maca, no momento em que tudo gira em torno de você. Quero dizer, antes que você desmaie, você assina o cheque, paga urgente o cobrado, porque deseja só a saúde do seu afeto. Pois é nesse exato instante que paciente, atuário e otário se confundem em uma só pessoa. Contam-se casos escabrosos, que não atingem o conhecimento do grande público, porque as histórias lembram os papa-defuntos, que todo o mundo sofre, mas sempre como um segredo particular. Por exemplo, uma pessoa, um otário?, que paga dois mil e seiscentos reais com um cheque para 30 dias, e sofre o saque no dia seguinte, com o ressarcimento de mil reais, um mês depois. Fala-se em cobranças abusivas de 4 mil reais por uma anestesia pagos – e quem há de não pagar? -, em total desacordo com qualquer tabela. Ao ser questionada, a direção da cooperativa dos anestesiologistas responde: “O profissional é autônomo, ele não é obrigado a seguir uma tabela”...             

    O que isso significa? - A entrega do mercado da dor a uma categoria profissional. Pois a vida e a sua fragilidade ficam à mercê da “tutti buona gente” de jaleco. O Ministério Público, em algumas cidades, já questionou as práticas abusivas que desobedecem até a lei da oferta e da procura, ao ser cartelizada a doença. E aqui, as regras da sobrevivência médica jogam em um só camburão os bons e maus anestesiologistas, que acabam por seguir a regra da manada. Entendam, é compreensível, todos precisam viver, se possível sem dor.  

    Em Pernambuco, estão sem cobertura para a anestesia os pacientes vinculados à Cassi, Caixa Econômica Federal, Golden Cross, entre outros. Até há pouco, faziam parte da lista os trabalhadores ligados à Petrobras, Unibanco e Infraero. Nos estados do Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul a situação se repete, com uma ou outra adaptação de contrato, deixando à margem de cobertura as vítimas. E mais: quem hoje está a salvo, não pense que subiu ao céu e voltou com vida. A qualquer circunstância, os convênios podem ser de modo unilateral rompidos.

    Em resumo: os planos de saúde alegam que não podem pagar os preços arbitrados pelos anestesistas. Estes, por sua vez, não levantam a voz, atacam de surpresa os responsáveis pelos pacientes na hora da cirurgia. Nesse cabo de guerra, o grande público é a corda. Ou melhor, os seus órgãos vivos é que são a corda. Puxados pelos anestesiologistas, que têm o domínio do sofrimento. Este é o livre mercado, amigos. O ilustre leitor que escolha: deseja ser operado com ou sem dor?

    Compartilhe | |  Envie a um amigo |   Mais... |
    • 21 Comentários recebidos

      • Em 05/01/2012, Henrique Lyra escreveu:

        Sou anestesista, votei em Lula e Dilma e já havia lido e gostado de outros artigos do Uraniano, mas desta vez não. Talvez fosse bom ouvir antes o lado do anestesista em vez de escrever algo cheio de desconhecimento. Os anestesistas são praticamente a única classe médica a não se curvar (se conveniar) aos planos de saúde, cobramos diretamente do paciente (reembolso) ou através de cooperativas (negociam e recebem diretamente do plano). Planos de saúde reajustam seus planos anualmente e não repassam nem dez por cento aos médicos (alegam que saúde está cada vez mais cara - exames mais modernos- e o médico acaba sendo a parte mais barata nisso tudo). Os anestesistas têm todo direito de lutar por melhor pagamento de seus serviços, correndo o risco de sofrerem represálias dos planos de saúde, que nos pintam como vilões da história para pacientes ingênuos e mal informados. Procure conversar com outros anestesistas, e direcione sua revolta a quem enriquece com saúde no país: empresas de saúde.

      • Em 06/01/2012, Luiz Antonio escreveu:

        Uma pergunta boba: se o "paciente"não puder pagar, eh operado com dor?

      • Em 08/01/2012, Carlos Gama escreveu:

        Leio há anos o que escreve o jornalista Urariano Mota (aqui ou em seus livros publicados) e, quando possível comento o conteúdo. Nem sempre concordo com ele; o que é muito natural entre cabeças pensantes. Desta vez, como na maioria delas, ele está com toda a razão, porque se a classe dos médicos anestesistas não se curva à cupidez dos planos de saúde, que declare isso abertamente, num movimento de âmbito nacional, para que as reais vítimas desse sistema não sejam pegas de calças nas mãos, em momento sem volta.

      • Em 08/01/2012, Eduardo campos escreveu:

        Adorei o artigo e também os comentários. Sr Uraniano: a julgar pelos seus artigos de um modo geral, o Sr e o ex-presidente Lula concordam que o SUS é excelente, então quem precisa dos Bradescos, Unimeds e Golden Cross da vida? Quanto aos comentários, o Sr Henrique Lyra, dá mostras de em mãos de quem estamos.... Ele deve ser bem pago pelo SUS, pois só não se curvou aos planos de saúde. Nessa selva, estamos nós, todos os brasileiros, a navegar um mar revolto, num barco sem controle, esperando que faça bom tempo.

      • Em 08/01/2012, Marita de Lourdes escreveu:

        A Cassi não ressarce tudo, como diz o Ucraniano porque os anestesistas daqui tem uma tabela que cobra quase o dobro doque é ressarcido. Coitados de quem precisa dos médicos em geral. Nunca estão contentes com o que ganham.

      • Em 08/01/2012, Edemar Motta escreveu:

        O querido e glorioso "O Pasquim", lá pelos anos 70, se não me falha, encetou uma camapnha contra o que ele chamava de "a máfia de branco". Perdeu. Acredito que ela exista e, acossada por hospitais e planos de saúde, volta-se para os usuários, que sempre estão fragilizados ao contatar com ela. Minha última cirurgia, anos atrás, me custou 3 mil reais, meu plano, Cassi, reembolsou-me 900, menos de 30%.

      • Em 08/01/2012, Guto Jimenez escreveu:

        Passei por uma situação parecida na época do nascimento de minha filha, em 1996. O plano que tínhamos era o Golden Cross, que estava meio falido, e o médico que nos acompanhou alertou-nos quando ela ainda estava com 3 meses de gravidez: o anestesista cobra por fora e depois o plano fará o reembolso. No nosso caso, ficou mais caro porque ela nasceu na época do Natal. Se isso não é coisa de "máfia de branco", então nem sei mais o que seria...

      • Em 08/01/2012, Maria de Fátima Amorim escreveu:

        Urariano, procure realmente se informar. Você está certo pois está defendendo o paciente, mas está desinformado quando diz "Os planos de saúde, por sua vez, negociam um preço justo...". Os planos reajustam anualmente as mensalidades mas às vezes passam de 5 a 7 anos pra reajustar honorários médicos. Imaginas que teu médico recebe menos por uma consulta de plano que teu encanador pra trocar tua torneira? Sem demérito pra este último, consegues comparar o investimento em saber das duas ações? Compartilho muitas das suas idéias e sou leitora assídua, por isto creio que foi a desinformação que o fez julgar mal. Leia pelo menos sobre as razões da paralização nacional dos médicos em 7/4/11. Assim, vc mostrará à população o alvo real a ser combatido. E os anestesistas são a única especialidade que está se levantando contra o avilte dos honorários médicos.

      • Em 08/01/2012, Maria de Fátima Amorim escreveu:

        Só pra começar a se introduzir nas questões da saúde no país, suggiro a leitura de "O público e o privado na saúde brasileira" , de Gastão Wagner de Sousa Campos, no link http://diplomatique.uol.com.br/artigo.php?id=174 E há muito, muito mais a ler antes de escrever um artigo sobre este tema.

      • Em 08/01/2012, Fernando Soares escreveu:

        Segundo o Sr. Henrique e a Sra. Maria de Fátima os anestesiologistas são a única especialidade que se levanta contra o abuso dos planos. Graças a Deus, imagine se todas as especialidades se levantassem contra o tal abuso (que de fato existe), teríamos que ganhar na megasena para realizarmos qualquer intervenção cirúrgica.

      • Em 08/01/2012, Ary Sergio Braga Olinisky escreveu:

        Eu sou de um tempo em que se recebia pelo que se assinava o contrato de trabalho. Bem se acho pouco, nada me obriga a ficar e pego o meu boné. Prejudicar terceiros não é nada profissional e sim criminoso!!!! Alem do mais parece que o SUS atende com mais competência que as organizações privadas.

      • Em 09/01/2012, Julio escreveu:

        Sou cliente da Unimed, já me submeti a quatro cirurgias pequenas e sempre fui atendido bem pelos médicos, incluindo-se aí anestesistas. O Brasil optou por um sistema público de saúde que não funciona, e o governo esfola os planos particulares o quanto pode. Então, quem não tem dinheiro para um Sírio-Libanês ou Albert Einstein, que se segure como pode.

      • Em 09/01/2012, Luiz Antonio escreveu:

        Faltou o link "respnder". Fiz o comentário que era para 05/01/2012, Henrique Lyra: Em 06/01/2012, Luiz Antonio escreveu: Uma pergunta boba: se o "paciente"não puder pagar, eh operado com dor?

      • Em 11/01/2012, ricardo carvalho escreveu:

        Já vinha com problemas de visão há algum tempo.Fui ao oculista,perdão,ao oftalmologista. Examina daqui,olha dali,pinga uma coisa esquisita nos meus olhos que me deixa cego, vem o diagnostico. Tem de operar,trocar o cristalino,mas hoje em dia,isso é coisa simples,tão simples que é feita com anestesia local,fique tranquilo. Deitado na mesa de operações,olhos esbugalhados por força dos equipamentos e com anestesia local,ou seja, ouvindo e participando de tudo, ouço o diagnostico: nunca vi isso,temos que retirar,vai demorar e a local vai acabar, temos que dar uma geral, liga para o fulano. O fulano chegou,olhou para mim como se olha para uma planta exótica e sentou em um canto da sala, soube depois que ficou sentado ali durante trinta minutos. Foi o tempo que minha mulher levou para ir em casa para pegar o talão de cheques e pagar para o tal fulano os seus serviços. Me deixou lá,na maca, de olhos bem abertos para enxergar o quanto um ser humano pode ser vil.

      • Em 11/01/2012, Marcelo Soares escreveu:

        Gostaria que algum anestesista me explicasse porque cobrar 500 reais por uma anestesia para realiação de uma ressonância magnética numa crinça de 8 anos? ou seja 1/3 do meu meu salário por um acompanhamento de 30 minutos. Isso pra mim é no mínimo imoral, pra não dizer coisa pior.

      • Em 12/01/2012, Lita Simões escreveu:

        Engraçado como os comentários aqui postados por pessoas que se dizem médicos, são apenas a confirmação dos reais motivos da monopolização de seus serviços. Um diz que "Nós pacientes" não imaginamos que ele médico, recebe por uma consulta menos que nossos encanadores, eletricistas ou qualquer outro profissional supostamente "menos qualificados" cobram por seus préstimos. Diante dessa reflexão, eu penso: Como deveria se sentir um bombeiro na hora de salvar a vida de um "médico anestesista"? Ele deveria ponderar se seu salário está a altura do tamanho risco e esforço? Afinal, ele arrisca sua vida(o que acredito custar muito mais que caros livros de medicina) para salvar outras vidas...Ou isso não é o bastante para usarmos como parâmetros?? Talvez não, pois as "Vossas Majestades os Anestesistas" estão acima de tudo e de todos!

      • Em 16/01/2012, Marcelo escreveu:

        Algumas respostas: Ao senhor Luiz Antonio, que postou em 06/01/2012: se não puder pagar e não for emergência, não é operado. Se não puder pagar e for emergência, é operado e acionado na justiça para pagar como puder. Se não puder pagar se dirigir a hospital público, será atendido, e a sacanagem fica por conta do governo que avilta o profissional médico. O paciente sai do hospital tratado. Ao senhor Carlos Gama, que postou em 08/01/2012: o senhor se preocupa com as reivindicações de classes que não a sua? Porque os anestesistas alardeiam, há anos, que não aceitam a política remuneratória dos planos de saúde. Os debates de tempos em tempos vão para a mídia, e inclusive são noticiados na hora do Brasil. O senhor anda mal informado porque não quer saber ou anda fingindo de bobo para sobreviver. À senhora Marita de Lourdes, que postou em 08/01/2012: os médicos estão descontentes porque ganham mal. A senhora alguma vez deixou de ser atendida por algum quando realmente precisou? Se foi, denuncie-o ao Conselho Regional de Medicina e ao Ministério Público, porque isso é crime e acarreta perda da habilitação profissional e cadeia. Aos senhores Edemar Motta e Guto Jimenez, que postaram em 08/01/2012: a CASSI é dos funcionários do Banco do Brasil, q

      • Em 10/03/2012, Curitibano escreveu:

        Senhores, interessante a discussão apresentada.Na área medica os anestesistas tem um custo altíssimo, vejam: gastos com seguros contra processos, plantões noturnos e fins de semana , jornadas de 80-100 h/semanais, então nada mais justo que sejam remunerados.Na medicina nao existem concursos públicos bons, aposentadorias boas como existem nas outras áreas.Quantos planos de saúde quebraram nos últimos anos??Poucos.Quantos médicos fecharam seus consultórios e vivem de outras coisas atualmente???? Muitos, serio, isso nao e muito falado mas eh assombroso .Motivo??Remuneracao ridícula dos planos de saúde .O filmadores de partos ganha muito mais que o medico que esta fazendo a cirurgia de cesárea .Para fazer uma retirada de vesícula o plano paga 200 reais para o cirurgião .E correndo risco de tomar processo.Vcs querem que o anestesista cuide de 4 salas de cirurgia ao mesmo tempo para compensar a merreca que os planos pagam??eita povinho mesquinho esses brasileiros ein????

      • Em 16/03/2012, Edson David de Souza Ximenes escreveu:

        Senhores anestesistas,sou consumidor e não questiono o seu valor.As nossas reclamações são voltadas aos planos de saude que não pagam os seus serviços ou reembolsam valores muito abaixo dos valores cobrados ao paciente.Quando se contrata um plano de saude pagamos caro para nao ter despesas inesperadas quando preciso e que as vezes são impossiveis de se honrar.Voces em suas respostas sempre querem valorizar o seu serviço e esta não é a questão aqui. Nós queremos que os legisladores ou a justiça interfiram nesta questão e definam uma regra definitiva para este impasse que está prejudicando o usuário e se depois disto houver algum tipo de resistencia que se puna por exemplo o profissional cassando-lhe o direito de clinicar ou retirando o direito de trabalhar no INSS pois, lá eles aceitam trabalhar ganhando menos.E usuarios, por favor, não aceitem isto como normal,vamos nos unir.A questao é, os Planos de Saude tem de pagar o total da operaçao cirurgica sem custos adicionais ao cliente.

      • Em 16/03/2012, Edson David de Souza Ximenes escreveu:

        Gostaria de saber se poderiam incluir o email nesta coluna para que formemos um grupo suficientemente grande de usuarios dos Planos de Saude para cobrar providencias definitivas dos legisladores, OAB, agencias reguladoras, defesas do consumidor etc, quanto a fixação de um valor justo a ser pago entre anestesistas e planos de saude.

      • Em 21/04/2012, Sandro escreveu:

        Concordo plenamente com o texto. Minha esposa passou por um procedimento cirúrgico de calculo renal que durou 20 minutos, como é gestante só foi sedada (punciona-se um acesso venoso periférico faz-se uma medicação para dormir e depois outra para acordar) o anestesiologista me cobrou R$ 1560,oo (mil quinhentos e sessenta reais) por 20 minutos de uma sedação. Isso é no minimo um valor absurdo

    • Deixe seu comentário

      Digite seu nome

      E-mail para contato

      Escreva seu comentário  Máx. 1000 caracteres

      Enviar agora

      Comente com responsabilidade

      Respeitamos sua opinião e teremos o maior prazer em publicá-la neste espaço.

      Lembre-se:

      Mensagens de cunho ofensivo ou politicamente incorretas não serão publicadas.