- Publicado em 24/08/2011
Pobre gosta de luxo
Essa onda de reality shows de tudo que é lixo parece não ter fim. E, lamentavelmente, deve ter público, tal a avidez com que as emissoras procuram esse tipo de show. O negócio é mostrar o ser humano do jeito que ele é, embora se saiba que quase tudo nesses programas é editado e alguns deles têm até script.
Os competidores sabem que estão sendo filmados e estão ali apenas em busca de uma oportunidade no mundo das celebridades. E para conseguir tal feito, fazem o que a produção pedir, sem vergonha ou pudor. Câmeras instaladas em cantinhos estratégicos estão lá para registrar festinhas , brigas e até transas dos competidores. Tudo como manda o figurino do sensacionalismo barato.
Quem é do ramo logo percebe que de “realidade” esses shows não têm nada. Para o povão, entretanto, quanto mais escracho, quanto mais tolerância, quanto mais besteirol é o que importa, caso contrário esses bbbs da vida não teriam a audiência que têm e os patrocinadores que disputam uma quota publicitária.
Como disse antes, essa onda de mesmices parece não ter fim. Leio nos jornais de hoje que até a Band, que vive pendurada em promessas de estréias que nunca acontecem, resolveu aderir a esse tipo de programa. E anuncia a “criativa” idéia de imitar o reality americano “Real Housewives”, com o acintoso nome de “Mulheres Ricas”.
Ora, faça-me o favor. Num país onde a maioria das pessoas não tem acesso a bens de consumo modernos e mais da metade da população não tem nem computador, a emissora vai exibir na telinha uma cambada de mulheres fúteis e alienadas que só tem um objetivo na vida: consumir!
Nas notas publicadas nas colunas “especializadas em celebridades”, li que as mulheres seriam escolhidas “a dedo” – não sei o que quiseram dizer com isso - e que a maioria seria de São Paulo, a meca das consumidoras desvairadas, onde o que vale é carregar no peito, como se fosse uma condecoração, o nome de uma marca famosa. Elas nem se tocam que, na verdade, estão fazendo propaganda gratuita para as griffes e enchendo de dinheiro o cofre dos empresários..
O tal programa já escalou duas socialites para o programa de estréia, Val Marchiori e Narciza Tamborindeguy, a fina flor do que há de mais fútil na “alta sociedade” brasileira. Elas terão a incumbência de viajar a Paris, às custas de uma companhia aérea, para gravar um festival de compras na cidade Luz, que será depois mostrado no programa.
Ao contrário da maioria da população do planeta, dinheiro não é problema para essas duas deslumbradas senhoras, que moram em apartamentos que valem milhões e andam nas ruas em carros blindados cercadas de seguranças. E não se envergonham em gastar fortunas num fim de semana em Ibiza ou numa tarde de compras na Daslu e outras lojas do ramo.
Agora, a pergunta que não quer calar. A troco de que a Band vai colocar no ar um reality show com personagens desse tipo? Em que essas pessoas se identificam com o dia a dia sofrido da maior parte da população brasileira?
A única resposta que encontro para essas perguntas está numa célebre frase do filósofo popular, Joãozinho Trinta, quando sentenciou certa feita: “quem gosta de miséria é intelectual, pobre gosta mesmo é de luxo”.
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Sobre o autor deste artigoLeila Cordeiro
Começou como repórter na TV Aratu, em Salvador. Trabalhou depois nas TVs Globo, Manchete, SBT e CBS Telenotícias Brasil como repórter e âncora. É também artista plástica e tem dois livros de poesias publicados: "Pedaços de mim" e "De mala e vida na mão", ambos pela Editora Record. É repórter free-lancer e sócia de uma produtora de vídeos institucionais, junto com Eliakim Araujo. Artigos mais recentes do autorFaltou jogo de cinturaManchete 30 anosPela porta dos fundosEntre a vida e a morteMartin, um pequeno mártirJô e a GloboO que o povo gostaNo país tropicalO difícil caminho da féUm carnaval divertido Todos os artigos deste autor




Em 24/08/2011, Telmo escreveu:
As pessoas sensatas que gostam de ler sua coluna devem estar radiantes e pensando: a Leila aborda ssuntos que estão na nossa mente, substituindo-nos com brilho. Essa da Band aderir à vulgaridade,é uma lástima. Na verdade o povo gosta de luxo e, também, de tragédias, fatos policiais, desavenças conjugais e coisas do gênero.
Em 24/08/2011, wilson slveira escreveu:
Prezada Leila Muito bom o seu artigo. O que mais espanta é que tudo isso, essa baixaria sem limites, é feito por meio de concessões do governo, que deveria ficalizar e limitar esses absurdos. No link abaixo, um artigo acerca das obrigações que as televisões deveria cumprir, já que não deveriam servir apnas para enriquecer seus proprietários http://jus.uol.com.br/revista/texto/7654/a-televisao-e-o-instituto-da-concessao-publica/print
Em 24/08/2011, Vera de Castro escreveu:
Querida jornalista. Como você consegue pensar em assuntos tão diversos e abordá-los com clareza? Gostaria também de ser assim. Teria tanto a dizer. Como não consigo o jeito é jogar a TV no lixo e nunca mais querer ter outra. Não preciso dizer mais nada. Parabéns. A propósito. Porque você não volta para a tela da TV para acabar com a festa de tanta gente incompetente? Já está mais que na hora. Assim até eu compro outra.
Em 24/08/2011, Xico Júnior escreveu:
Leila! Sempre disse que sou admirador, no bom sentido, do "Casal 20" da TV Brasileira, e que hoje faz falta. É sabido que as TVs também mudaram muito nas suas grades de programação e prá pior. Não há mais jornalistas, apenas "profissionais da comunicação", com bem classificou Mino Carta. Lamentavelmente. Esse "reality" MULHERES RICAS, na verdade terá no elenco não mulheres ricas, mas "cortesãs" desse Século 21. Pois somente mulheres dessa classe social se disporão a participar de tal baixaria, como tem sido "A Fazenda", os "BBBs", etc. Além disso, a TVs (Band, Recorda e Globo) faturam milhões e milhões com os engodos dos votos (pagos) dos telespectadores, além dos altos patrocínios. As TVs estão produzindo (???) e apresentando "TUDO POR DINHEIRO". Sílvio Santos deveria exigir indenização pela "imitation" ou plágio, apesar de que ele também copia programas dos "States". "Mulheres Ricas" vai se tornar como se dizia: mais um "rendez-vous" televisivo. CENSURA À IMORALIDADE JÁ!!!
Em 24/08/2011, Annalúcia Barros escreveu:
Olá Leila. Tem tempo que não comento aqui, mas hoje não resisti. Realmente uma violência esse programa com as ricaças peruas. O que tem essas mulheres fúteis a ver com o nosso dia a dia de mulheres que batalham para sobreviver num mercado de trabalho agressivo e competitivo? Aposto que elas nem sabem o que é isso. Devem pensar que é alguma marca de roupa nova. Que vexame Brasil! Ter mulheres desse tipo no video de uma TV brasileira só alimenta a mentalidade dos estrangeiros que pensam que por aqui só tem esse tipo de mulher...superficial, banal, vulgar, alienada, desfrutável! Que ridículo!
Em 24/08/2011, João Baptista Herkenhoff escreveu:
Parabéns a Leila Cordeiro pelo seu magnífico texto "Pobre gosta de luxo". Lamentável que a Bandeirantes rebaixe tanto sua programação. De minha parte supunha que a BAND estivesse num nível de ética e bom gosto superior ao nível inqualificável da emissora que é líder de audiência. Mas desse jeito vão empatar em baixaria. Nem se trata de moralidade e imoralidade. Trata-se de respeitar a inteligência do telespectador. Trata-se de compreender que, apesar de tudo, o Brasil não é um país de imbecis. Que tal boicotar produtos veiculados nos intervalos desse programa? Não é necessário que o boicote tenha pleno êxito. Basta que alcance cinco por cento dos telespectadores para valer a pena boicotar. Vitória, agosto de 2011. João Baptista Herkenhoff, magistrado aposentado, professor universitário em atividade, escritor.
Em 24/08/2011, Roberto Dimazzio escreveu:
Boa Leila. É isso mesmo. Aguentar mulher burra e fútil num programa era o que faltava para deixar a TV brasileira cada vez mais baixa e alienante. Desse jeito a Band que vive na lanterninha da audiência não vai conseguir se levantar no Ibope. E depois dizem que o Brasil está na moda. Como? Com uma mentalidade dessa qualidade na Tv do país é impossível.
Em 24/08/2011, Antonio Henrique Dantas Silva escreveu:
Isso corrobora a minha tese, que o país não evolue devido a esse populacho que sente prazer com a afetação das "celbridades" em detrimento da sua própria miséria. Esquecem de viverem suas próprias vidas, são fracos para buscarem soluções para seus problemas, porém são o máximo em comentar os prazeres e desventuras vividos pelos seus ídolos.
Em 24/08/2011, fabio nogueira escreveu:
Leila,esses programas somente terão um fim quando toda a população desligarem sua tvs,ter acesso a uma boa educação e comerarem a pensar por si só. Chega dá nojo ver as pessoas ficarem comentando sobre esse reality da vida.Não ganham nada com isso,etc... Não vou perder o meu tempo assistindo essa "MESBLA"!