• Publicado em 16/10/2011

    Presidente dos EUA precisa ser cristão?

    Miami (EUA) - No momento em que começa a esquentar a corrida eleitoral pela indicação do candidato do Partido Republicano, que enfrentará Barack Obama no pleito do próximo ano, aumentam os questionamentos sobre as qualificações do futuro ungido.

    Sem entrar no mérito de quem vai vencer ou de quem deveria vencer, uma questão que me parece totalmente fora do contexto vem ganhando proporções alarmantes: o provável presidente dos Estados Unidos da América precisa ser cristão devoto?

    Ora, se está na Constituição que o país é um Estado laico por que há este tipo de cobrança? De certa maneira, é algo tão criticável como as sociedades teocráticas do Oriente nas quais o poder do Estado emana de fundamentalistas religiosos muçulmanos que aplicam leis da sharia e outras mais tornando as vidas dos cidadãos um verdadeiro inferno, para ficarmos em analogias espirituais.

    Isto posto, Mitt Romney vem sendo vítima do preconceito da ala mais radical do Partido Republicano, apesar de estar liderando as pesquisas de intenção de voto. Por seguir a religião mormon, o ex-governador de Massachusetts não está sendo bem aceito por cristãos de outras denominações, que não consideram os mormons como religiosos cristãos. Na verdade, eles nem mesmo consideram a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, como é chamada a igreja dos mormons, uma religião. Para muitos cristãos evangélicos, ela não passa de uma seita travestida de cristianismo.

    Esta semana, a rede de TV CNN fez uma enquete com seus telespectadores para responder a esta pergunta: o presidente dos EUA precisa ser cristão? Como era de se esperar, as opiniões se dividiram: alguns acham que isto é um requisito fundamental, enquanto outros nem consideram a religiosidade do candidato como um fator a ser analisado para o pleiteante do cargo.

    Romney, por sua vez, tenta passar a imagem do cristão religioso tradicional americano, e diz não se coadunar com a facção dos mormons que prega a poligamia e as relações incestuosas, como ocorreu recentemente com a prisão de um líder “ religioso” no Texas, que transava com todas as mulheres do clã e dizia seguir os preceitos cristãos.

    Na Flórida, também há os fanáticos. Depois daquele desastrado episódio do pastor que prometeu fazer uma fogueira com os exemplares do Alcorão, surgiu outro propondo a elaboração de um banco de dados, no qual seriam colocados os nomes de cidadãos ateus e agnósticos. Ou seja, eles ficariam marcados como são os criminosos e as pessoas procuradas pela polícia. Dá para acreditar em tamanha insanidade?

    E infelizmente isto não se resume aos EUA. No Brasil, Fernando Henrique Cardoso, que não se enquadra no figurino do religioso cristão, perdeu a eleição para prefeito de São Paulo ao não responder a uma pergunta do jornalista Boris Casoy sobre se ele acreditava em Deus.

    Lula também somente conseguiu eleger-se depois de ter amarrado acordos com os evangélicos neopentecostais – Edir Macedo à frente. Algo que claramente incomodou a ala mais progressista da Igreja Católica, que comunga os pensamentos da Teologia da Libertação. No entanto, como o que Lula queria mesmo era se eleger, ele acendeu uma vela para cada fé pouco se importando se feriu suscetibilidades de quem quer que seja.

    Aqui cabe uma indagação: você, leitor(a), considera muito importante um chefe de Estado ter convicções religiosas ou isto nada te a ver com a maneira de se governar uma nação? Os religiosos argumentam que as pessoas mais religiosas tendem a ser mais justas, compreensivas e sábias. Realmente, é algo a se pensar.

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    • 10 Comentários recebidos

      • Em 16/10/2011, Ed Torres escreveu:

        O presidente dos Estados Unidos não precisa ser cristão para ser eleito, mas uma grande porção dos que suportam o Partido Democrata são cristão conservadores e uma outra são cristãos fundamentalista. Eles tem um peso importantíssimo dentro do partido e dificilmente aceitariam um Mormon ou ateu como presidente. A única chance que vejo para o Romney (se for aceito pelas primárias) é o voto útil ou anti-Obama. Este é talvez o único fato que motivaria os cristãos fundamentalistas a votarem nele. Já que o voto não é obrigatório nos Estados Unidos, há também a possibilidade dos fundamentalistas não votarem, caso Romney for escolhido.

      • Em 16/10/2011, Ed Torres escreveu:

        Correção do meu comentário: ...mas uma grande porção dos que suportam o Partido Republicano (não o Democrata)....

      • Em 16/10/2011, milton cardoso escreveu:

        ?Um metafísico é um cego num quarto escuro à procura de um gato que não está lá, e um teólogo é o tipo que encontra o gato, e cobra o dizimo para que vejam o milagre.?

      • Em 17/10/2011, jose carlos valle escreveu:

        Como é difícil discutir religião. E como. deixo em branco.. não quero causar polemica.

      • Em 17/10/2011, Valmor escreveu:

        Acho que o autor esta fazendo confusão. Uma coisa é perguntar ao eleitor se na sua opinião o candidato precisa ser cristão. Outra, é a constituição do país(ou seu conjunto de leis) permitir que um não-cristão chegue ao poder. Esse último, na minha opinião, é o ponto principal a ser observado.

      • Em 17/10/2011, Antonio Tozzi escreveu:

        Caro Valmor, é óbvio que a Constitução dos EUA, assim como a do Brasil, não faz este tipo de exig+ncia, por isto que suscitei a questão. A meu ver, isto nem deveria ser levado a sério, mas alguns grupos fundamentalistas valorizam este aspecto.

      • Em 17/10/2011, Andreozzi escreveu:

        Cristão ou não, nos EUA, para chegar à presidência, o candidato deve obter o "nihil obstat" da AIPAC.

      • Em 18/10/2011, Valmor escreveu:

        Prezado Antonio, eu ja nem me surprendo com esse fato. O fundamentalismo seja religioso ou mesmo POLÍTICO esta presente em nosso cotidiano. Basta ler alguns comentários que são feitos nos artigos dos teus colegas de DR...

      • Em 18/10/2011, João Barcellos escreveu:

        A questão é de vital importância, pois revela o preconceito, tanto lá como aqui... É um absurdo saber que uma pessoa tenha de mentir se quiser ser eleito! Ou alguém imagina um candidato à presidente se declarar ateu e obter exito nos EUA ou no Brasil?

      • Em 19/10/2011, regina m de m cardoso escreveu:

        Eu sou agnóstica e conheço pouquíssimas pessoas verdadeiramente cristãs. A maioria nem sabe direito o que é ser cristão, ou seja, ser testemunho vivo do que viveu Jesus Cristo. Mesmo sendo agnóstica, não suporto mentiras, injustiças, falsos testemunhos, traições, falta de solidariedade, falta de respeito às diferenças, à natureza e aos animais. Infelizmente, nos EUA, no Brasil e, creio eu, em outros países onde há fundamentalismo religioso ou político, aceita-se tudo o que eu e outros agnósticos ou ateus, não aceitamos e dão preferência a um mentiroso, corrupto, sem qualquer resquício de nobreza de caráter ou generosidade. Cada qual que creia ou não no que lhe convier e que seja respeitado. Esse é e será sempre o meu lema. Lamentavelmente o mundo não é assim. As pessoas gostam de ser enganadas e talvez seja por essa razão que guerras se sucedem, assim como crises politicas e econômico-financeiras. Sobre esse tema, há muito o que se falar ou discutir. Por hoje é só... Abços...

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