- Publicado em 16/12/2011
Privataria e regulamentação da mídia
Não se fala noutra coisa desde o lançamento do livro "A Privataria Tucana", de Amauri Ribeiro Jr: o silêncio e o desprezo de grande parte da mídia em relação ao conteúdo da explosiva obra. Existem comentários dos mais diversos tipos em redes sociais, de considerações ponderadas a manifestações exaltadas, porém quase todos chegam à mesma conclusão, de que essa parcela da mídia está adotando a antiga "tática do avestruz" - enfiando a cabeça num buraco para fingir que não vê o perigo se aproximar. Fazem isso sem o menor pudor, como se ainda tivessem o poder de disseminação da informação de outros tempos, como se ainda estivéssemos no século 20 e como se não houvesse mais inúmeras outras mídias capazes de disseminar inf ormação e opinião em tempo real.
Será que a motivação para esse “silêncio eloquente” é originada apenas em interesses econômicos? É muito pouco provável que assim o seja, uma vez que o governo federal é um dos maiores anunciantes nos mais expressivos veículos de mídia nesse país. Não que isso seja qualquer tipo de impedimento para se divulgar toda e qualquer denúncia contra integrantes do atual governo, mesmo vinda de fontes nada confiáveis como as mais recentes que provocaram até a queda de ministros de estado. Essa parcela da grande mídia não tem o menor pudor em tratar a verdade como algo relativo, desde que esse tratamento seja de acordo com seus interesses.
Também não é somente por razões ideológicas que a já citada “tática do avestruz” está sendo adotada. Fosse assim, esses veículos já teriam feito o possível e o impossível para desacreditar a obra e o seu autor, como fez o principal acusado pelas denúncias contidas no livro. Quando José Serra se pronunciou a respeito, fez questão de desqualificar o autor (“não é à toa que responde a inquérito na Polícia Federal”, disse ele) e qualificou as mais de trezentas páginas como “lixo”.
Não vou entrar no mérito do esquecimento conveniente de Serra do fato que sua filha Verônica também ser alvo de inquérito da PF, por ter quebrado o sigilo bancário de cerca de 60 milhões de brasileiros na época de seu site “decidir.com” nos anos 90. É público e notório que políticos costumam ter uma memória seletiva muito apurada, que tanto é capaz de recordar dos mínimos detalhes abonadores da própria pessoa – e desabonadores dos adversários, na mesma medida – quanto é possível de provocar uma intensa amnésia instantânea quando assim os convém. Se pensarmos bem, isso nào é nenhuma novidade.
Também não irei aprofundar-me sobre essa mesma tática que foi adotada pelos poucos veículos que noticiaram a respeito do livro, de tentarem ridicularizar o autor e a primeira emissora que divulgou as denúncias em rede nacional. Dizer que “a Record tinha mesmo que divulgar essas denúncias, já que o autor do livro trabalha para eles” é ofender a inteligência dos leitores e internautas, assim como também é uma ofensa a tentativa de se inocentar alguns dos acusados. No entanto, mais uma vez, isso seria chover no molhado já que também não é nenhuma novidade.
A aparente novidade é o motivo pelo qual essa parcela da grande mídia se cala: eles simplesmente não podem admitir que enganaram a população durante tanto tempo. Não há justificativa plausível para anos de distorções promovidas nos noticiários, sempre no intuito de defender seus próprios interesses a qualquer custo. Eles foram pegos mentindo, simples assim, e jamais podem assumir isso de maneira direta e transparente. Não adianta mais promoverem “passeatas contra a corrupção” que atraem meia-dúzia de membros da classe média alta, nem colocarem nas manchetes mais denúncias referendadas por fontes da pior espécie, sem a menor credibilidade. O povo já percebeu que foi enganado – e não está gostando nem um pouco disso.
Essa parcela da grande mídia está confiando que seu silêncio e suas reportagens tendenciosas sejam suficientes para abafar o caso. Pode até ser que funcione, pois a velocidade com que denúncias são feitas não está permitindo que uma análise mais profunda e isenta seja realizada. Isso seria muito conveniente para todos os envolvidos, desde os acusados pelo livro até os próprios veículos de mídia que distorceram e enganaram durante tantos anos.
Só que está parecendo que esses veículos foram acometidos de uma incrível cegueira ao concentrarem-se somente no silêncio e nas reportagens tendenciosas. A falta de visão não os permite enxergar além da esquina e os faz ignorar uma questão relevante que estará nas pautas das redações muito em breve: o projeto que prevê a regulamentação da imprensa. É de se duvidar que a mesma população, que agora descobre-se enganada, irá apoiar o clamor por “liberdade de imprensa” como bandeira única dessa parte da grande mídia, convenientemente hasteada sempre que se toca no assunto. As perguntas que se farão são: “por que vocês não querem uma regulamentação? É para poderem mentir e enganar sem serem incomodados?” A pergunta que eu fa ço é: como vocês esperam ter credibilidade para responderem a essas questões?
Em sua ânsia de esconder o óbvio, a grande mídia erra na forma e no conteúdo mas isso nem é o mais grave de tudo. Ruim mesmo é saber que se esqueceram de um dos mais antigos axiomas da imprensa, formulado nos tempos do Império Romano: “a verdade sempre aparece, e sempre prevalece”. Está mais do que na hora da verdade dos fatos os fazerem repetir essa máxima como um mantra, mesmo que seja inútil diante da inesgotável desfaçatez desses veículos de imprensa.
Mais do que nunca, é hora de uma regulamentação da imprensa em nosso país.
Colaboração do leitor Guto Jimenez, pai, skatista, jornalista, locutor e militante de modo geral. Mora no Rio. Email gutojimenez@gmail.com
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Em 16/12/2011, ricardo carvalho escreveu:
A regulamentação já está sendo feita Guto, e de baixo para cima como sempre deveria ser, com exceção é claro, dos bueiros da Light. Senão vejamos: a audiência das TVs abertas cai de forma continua e acentuada, claro que quem mais perde é a líder de audiência. A ANJ proclama que nunca se vendeu tanto jornal. Todos sabemos que não é verdade. Veja, Isto é Época, só para ficar nas mais votadas fazem das tripas coração para aumentar a circulação. O que é tudo isso? A tão sonhada regulamentação, sem leis, sem portarias, só o povo dizendo basta.
Em 16/12/2011, Fernando Soares escreveu:
Parabéns ao Sr. Guto Jimenez, falou bem e falou bonito, disse todas as verdades que estão atravessadas em milhões de cidadãos brasileiros envergonhados com a imprensa venal que tem a sua disposição. Lei da mídia nesses canalhas.
Em 16/12/2011, Luiz Alberto escreveu:
Já não sofremos com o "silêncio da mordaça", nestes tempos de internet, a informação não se configura propriedade exclusiva deste ou daquele grupo. Pena que alguns ainda pensem que o seu silêncio parcimonioso alcance ares de credibilidade... As organizações do PIG irão descobrir que o povo brasileiro amadurece a despeito da sua indiferença.
Em 18/12/2011, Tito Vieira escreveu:
Como já diria Gil Scott-Heron, "a revolução não será televisionada" já que ela já está passando online em telas de todo o mundo. Realmente podemos esperar os veículos de mídia se fazerem de vítimas, mas é quase certo de que isso não irá colar mais. Grande texto, parabéns!
Em 18/12/2011, Vila Vudu escreveu:
O mais provável é que o Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão) simplesmente não saiba o q fazer. Afinal, são 60 anos de reinado sem contraditório, os jornalões falando sozinhos, calando completamente a discussão social. O Brasil foi emburrecido pelo Grupo GAFE -- o que explica que petistas e tucanos sejam, todos, ainda, moralistas udenistas. A ombudsman da FSP argumentou hoje que a FSP publicou denúncia. Publicou algumas, mas correspondentemente NADA investigou. O Grupo GAFE está só começando a pagar pelos erros de mais de 50 anos, em que o jornalismo partidarizou-se, acompanhando o papo de uma elite MUITO atrasada que sobrevive em SP.
Em 18/12/2011, Oscar Marcos Tibúrcio escreveu:
Parabéns pelo excelente artigo, Sr. Guto Jiménez!
Em 18/12/2011, Edson escreveu:
Muitos dos colunistas desse blog são jornalistas. Se a grande imprensa é omissa, na verdade, a omissão parte de seus jornalistas...Vocês(jornalistas) deveriam fazer um exame de consciência e pensarem muito antes de escreverem... Outrossim fico imaginando a seguinte situação: Se toda a grande imprensa não fosse crítica em relação ao Governo, ela seria melhor? Ou a solução seria como fez Hugo Chaves? Cassar a concessão resolveria? Alguns colunistas transparecem a idéia de que defendem uma ditadura de esquerda, na qual os meios de comunicação seriam controlados...Se elogia o Governo é "boa imprensa"...Se não elogia é imprensa PIG...
Em 19/12/2011, Guto Jimenez escreveu:
Edson, quase todo jornalista é pautado ou então responde a um editor, editor-assistente ou um cargo assim. Por conta disso, além da chamada "linha editorial", há de se aceitar e respeitar a hierarquia numa redação como em qualquer outro lugar onde haja uma relação profissional entre superiores e subordinados. A imprensa é poderosa sim, desde que consiga manter a isenção e o distanciamento necessários para exercer a profissão de maneira ética e correta. A ética do jornalista é o compromisso com a verdade, porém não é a mesma regra que rege os veículos de mídia. O grande problema é quando os interesses dos grupos de mídia se sobrepõem à verdade, e quando há uma tendência em se distorcer os fatos para se adequar a esses interesses. Ultimamente, parece que o PIG (ou o "Grupo GAFE", como colocado de forma brilhante por Vila) adotaram aquela máxima que dizia que "uma mentira pode-se transformar em verdade, se for repetida à exaustão". Só lembrando que o autor dessa máxima foi Goebbels...
Em 19/12/2011, Paulo escreveu:
Não aguento mais esse tal de EDSON, o cara está em todos os comentários, defendendo a tucanalhada. Vá morar no Hemisfério Norte, amigo do TIO SAM, e leve consigo toda a tucanalhada desse país, só assim viveremos em paz. Vá!!!!
Em 08/01/2012, Adilson Antonio de Lira escreveu:
Espero realmente que as informações se alastrem por toda a rede socil e que blogs e demais meios da internet não deixem de municiar os leitores/internautas com as informações/verdades que o PIG se nega a divulgar. A Privataria Tucana é a prova de que não mais dependemos da grande mídia par fazer repercutir nacionalmente informações que ELLES tentam a todo custo abafar. Parabéns ao Direto da Redação pelos artigos publicados. É isso. E tenho dito.
Em 10/01/2012, jorge pedro almeida braz escreveu:
ENGRAÇADO QUE A REDE GLOBO, O ESTADO , A FOLHA DE SAO PAULO A REVISTA VEJA,E OUTROS MEIO DE COMUNICAÇAO NAO DIVULGAM,ESTA MATERIA, PORQUE SERA ? HEIN,RABO PRESO, OU CONIVENCIA COM TODA ESSA SUJEIRA,ISSO NINGUEM COMENTA ,MAS PRA FALAR DOS MINISTROS, QUE ESTAO EM EVIDENCIA ISTO ELES NAO PERDEM TEMPO,SO SEI QUE ELES QUEREM DERRUBAR A NOSSA PRESIDENTE DILMA,E O PT, MAS ISSO ELES NAO VAO CONSEGUir, nem eles nem o PSDB,que e outro partido ladrao,safados,discarados,enquanto uns roubam 300mil,o psdb rouba milhoes e ninguem vê isto,e nada vem a tona,A PRINCIPAL QUE DEVERIA FALAR TUDO ISTO NAO DIZ NADA, NO CASO REDE GLOBO, E meus caros leitores se voceis continuarem a reeleger o PSDB, O BRASIL VAI SER TOTALMENTE PRIVATIZADO,E NAO TEREMOS MAIS ESTATAIS,coitados dos funcionarios públicos, e isso ai viva o PT VIVA LULA VIVA DILMA E TODOS QUE QUEREM O BEM DO NOSSO PAIS FUIIIII ABRAÇOS
Em 10/01/2012, Guto Jimenez escreveu:
Deixemos estar: em breve, será votado o projeto de regulamentação da mídia. Preparem-se pra mídia do PIG comparar as situações de Brasil e Argentina, que nada têm a ver uma com a outra. É só aguardar pra ver. Ouçam também o silêncio eloloquente (quase ensurdecedor) da "grobo" perante esse e outros assuntos de seu (des)interesse. Vocês repararam que as denúncias sobre o Ministério do Turismo sumiram, certo? Foi só descobrirem um desvio pra AFundação Roberto Marinho e pronto, assunto encerrado - quer dizer, encoberto... Seria até cômico, caso não fosse motivo pra náuseas.
Em 20/02/2012, Nuno Moreira Pereira Souza escreveu:
O livro é interessante ao trazer alguns fatos de bastidores mas não está ai nem 1/8. E não adianta tentar levar o assunto adiante porque nossas mensagens são, de uma certa forma, monitoradas por um certo filtro implementado nos servidores, a título de "cercar-se contra spam". O grupo GAFE é parte em troca de benefícios e milhares de anúncios. Somente quem conviveu de perto sabe da realidade. A única diferença hoje em relação aos anos 70 é que não se publica mais receitas. Hoje temos um suplemento especial a cada semana.