- Publicado em 10/01/2012
Quando mulheres derrubam financistas
Berna (Suiça) - Philipp Hildebrand foi mais uma vítima do charme feminino.
Só lhe restava mesmo apanhar seus papéis sobre a mesa, colocar na pasta de ex-presidente do Banco Nacional Suíço e, sem tremer, sem deixar de sorrir, deixar sua sala, tomar o elevador, sair na rua e se tornar um cidadão comum, rico é claro, mas sem a auréola do poder.
Quando, algumas horas atrás, entrara na sala de imprensa, repleta, flashes espoucando e câmeras gravando, chamou a atenção seu porte de atleta. Sem dúvida o mais elegante dos banqueiros, alto, magro, esportista, nenhum grama excedendo no peso, quando seus colegas sedentários têm geralmente um excesso de gordura proporcional à riqueza obtida nas especulações e investimentos com ventre parecendo esconder uma sacola de dinheiro.
O que estaria pensando Hildebrand, já de costas para a glória, enquanto ressoavam seus passos de homem decidido, competente e prepotente ?
Provavelmente na insistência de sua esposa Kashya (na foto com o marido) em comprar 500 mil dólares, aproveitando a queda da moeda americana naquele mês de agosto, do ano passado. De nada adiantou ele argumentar não poder especular, em razão do seu cargo de direção do banco central suíço. Kashya sabia que dois dias depois, Hildebrand iria desencadear uma ação, no mercado de divisas, para diminuir a força do franco suíço face ao euro, isso em defesa das exportações suíças, e o dólar seria melhor cotado.
Em outubro, a ação do Banco Nacional Suíço, embora tivesse custado alguns bilhões de francos, deu resultado – o franco suíço foi estabilizado na cotação de 1,20 Euro e se evitou a supervalorização e a equiparação do franco com o euro. As empresas suíças exportadoras respiraram aliviadas, as exportações recomeçaram.
Kashya Hildebrand, nascida no Paquistão, filha de pai paquistanês e mãe americana, com estudos feitos em Boston e uma carreira de trader em Nova Iorque, onde conheceu Philipp, viu que a política monetária do marido no BNS tinha dado resultado e reforçado o dólar.
Era a hora de trocar seus 500 mil dólares em francos suíços, o que lhe valeu um lucro de 60 mil francos. Casada com um financista jovem, rico e em plena ascenção, ela não precisava desse dinheiro. Mas o que fazer quando a especulação se tornou parte de sua existência ?
Tudo teria se passado sem problema, não fosse o olhar indiscreto de um informático do Banco Sarasin, onde o casal tinha sua fortuna. Desconfiando se tratar de um caso típico de « delito de iniciado » ou jogar na bolsa tendo informações seguras, fotografou a tela do computador, onde havia a operação, e levou a um advogado, amigo do chefe do partido de extrema-direita, Christoph Blocher, inimigo jurado de Hildebrand.
A informação de delito de iniciado, pela esposa do presidente do Banco Nacional Suíço, foi levada ao governo e acabou caindo na imprensa. Três semanas de incertezas, desmentidos, tentativas de diminuir a importância do delito, até ocorrer o pedido de demissão pelo próprio Philipp Hildebrand.
O caso lembra outro, em situações totalmente diversas, mas envolvendo igualmente um importante dirigente das finanças. Dominique Strauss-Khan, em plena glória e candidato imbatível à presidência da França, tudo perdeu por ter sucumbido ao desejo sexual por uma camareira africana.
Tentando se justificar, nos angustiosos dias precedendo sua demissão, Philipp Hildebrand deixara escapar uma frase, logo apropriada pela imprensa - « minha esposa é uma mulher de caráter forte ». Imagina-se o banqueiro, jovem ambicioso, autoritário entre seus colegas e com seus subordinados, aceitando correr o risco de tudo perder, diante da exigência de sua esposa pequena, magra e voluntariosa.
Justamente, ele, Hildebrand, que chegara a contatar alguns colegas banqueiros para sondar a possibilidade de ocupar o lugar deixado vago por DSK, profissionalmente nocauteado por uma camareira de caráter forte ou interessada em transformar em dólares uma violação ou uma relação sexual consentida.
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Sobre o autor deste artigoRui Martins - Berna
Jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura, é líder emigrante, ex-membro eleito no primeiro conselho de emigrantes junto ao Itamaraty. Criou os movimentos Brasileirinhos Apátridas e Estado dos Emigrantes, vive em Berna, na Suíça. Escreve para o Expresso, de Lisboa, Correio do Brasil e agência BrPress. Artigos mais recentes do autorDe Mitterrand a HollandeBastilha comemora vitória socialistaSarkozy ressuscita a bestaSarkozy perde no primeiro turnoBolsa emigrante?Pelos caminhos do mundoItamaraty distribui cargos honoráriosCRBE - Fraudes e outras coisas maisRui Martins no ConselhoRui Martins no CRBE Todos os artigos deste autor


Em 10/01/2012, Tarcísio Santos de Salles escreveu:
Infelicidade à parte, pelo valor lucrado com a operação, estimo que a Kashya Hildebrand a concernente atitude tenha sido mais inspiradora de uma brincadeira de especulação que de uma providência notoriamente reprovável...! Mas, como ser fiel no pouco sugere a fidelidade no muito, e a relação par para a infidelidade, o caso tomou as proporções institucionais que tomou. Mais pelo cuidado moral que pelo pequeno lucro por ela auferido... Lamentável mas superável...!
Em 12/01/2012, Eliane F.C.Lima escreveu:
Caro Rubens, Sempre aprecio seus artigos. Mas, dessa vez, devo protestar, pois o texto me remeteu a uma passagem bíblica - Gênesis -, quando Eva é responsabilizada pelo pecado de Adão. Não acho que o hercúleo boa-pinta tenha de entrar de pobre coitado nessa história. Ele, e só ele, é responsável por ter levado informações confidenciais profissionais e sob sua responsabilidade para fora de seu ambiente de trabalho . Até quando o mito de Eva vai continuar a perseguir as mulheres? Olhe o título: recende àquela visão das mulheres como diabólicas, que a Igreja Católica cultivou durante séculos. Eliane F.C.Lima