• Publicado em 26/01/2012

    Sabor de Mar (36)

     

     

    Aos 35 anos, Maria Eduarda estava em sua plenitude como mulher e como jornalista. Mudou-se para Ipanema e, por coincidência, para um novo e belo edifício que se erguera na Teixeira de Melo depois de derrubado o antigo prédio em que morara Roberto Adler. O novo edifício tinha uma parte  que dava frente para a Vieira Souto, outra para a Teixeira de Melo. Maria Eduarda morava nesta ala lateral e  tinha uma boa vista da praia, voltada na direção do Leblon, mas calculava que em mais três ou quatro anos talvez pudesse se mudar para a ala com frente para o mar de Ipanema.

    Às vezes sentia saudades dos filhos e pensava que, dentro de toda aquela felicidade que experimentava, faltava algo. Sim, não conseguira dar as filhos coisas  de sua infância  que ainda a encantavam quando delas se lembrava – sobretudo em fins de dezembro, quando entrava em férias no Grupo Escolar e esperava com ansiedade a grande ocasião do ano, a comemoração de Natal.

    Mais especificamente, a véspera de Natal, quando a mãe ainda estava viva e toda a família se reunia em Paraíba do Sul para a Missa do Galo, a missa que se celebrava à meia-noite na igreja branquinha, do outro lado dos  trilhos da Central do Brasil.

    Depois, todos voltavam a pé para casa – avós, pais,  tios, tias, primos, primas, até o fiel empregado, Mudo, que fora educado no Instituto de Surdos e Mudos na rua das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, graças a um bom pistolão. Não que ele precisasse para se comunicar com a família. Antes de ir para o Instituto, e mesmo depois de voltar, Mudo se fazia entender por um sistema todo especial de sons e gestos que havia estabelecido numa espécie de comum acordo com os membros da família e seus agregados. Era uma lingua especial, só deles. Mas o principal é que Mudo voltara do Rio sabendo ler e escrever.  

     

    Nota do Editor: Na última quinta-feira de dada mês, José Inácio Werneck publica um trecho de seu livro “Sabor de Mar”.

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