- Publicado em 29/11/2011
Será que entendi?
Neste mês e meio de São Paulo e interior paulista, uma coisa percebi: praticamente todas as pessoas com as quais falei mostraram-se bem informadas, inteligentes ou de rápida compreensão.
Nos primeiros dias, achei um tanto estranho mas logo me habituei. Fosse pessoalmente ou pelo telefone, as pessoas em lugar de dizerem « sim, sim » em sinal de assentimento, ou aquele maçante « hamham » no telefone, diziam sempre « entendi ».
Como se tivessem todas combinado, na casa de familiares, na rua, no taxi, na livraria, na padaria, era só eu fazer uma afirmação ou contar qualquer bobagem, nessas conversas sem compromisso que se trava num ônibus ou no metrô, e vinha sempre « entendi! ».
Mas entendeu o quê ?, dava vontade de dizer, pois não tinha feito nenhuma pergunta. Quando constatei ser uma reação geral, me veio a idéia de terem sido acometidos meus concidadãos da metrópole de uma epidemia oral, incontrolável, passageira (como todo modismo linguístico) mas inquietante.
Pior que o pensamento único, é ouvir-se todo mundo, como numa orquestra bem regida, dizer e repetir a mesma coisa. E, na tentativa de localizar a procedência e o mecanismo provocador desse comportamento oral coletivo, imaginei que poderia ser alguma telenovela, mas não parece haver nenhum personagem com o cacoete de dizer « entendi, entendi » a todo momento.
De onde saiu essa identificação geral com a primeira pessoa do particípio perfeito do verbo entender ? Quem começou a dizer « entendi » e por que acabou sendo imitado por todos? Não pude localizar o agente desencadeador e nem poderia, numa cidade de doze milhões de pessoas que, maquinalmente, dizem « entendi », quando ninguém lhes pergunta se entenderam.
Encontrei um amigo, versado em semântica e vícios de linguaguem, e lhe perguntei que seria um modismo. E, para meu desespero, ele que é universitário, dono de um grande vocabulário, me respondeu com uma afirmação redundante :
Com certeza!
Desespero, porque, antes do « entendi », na minha viagem precedente, todo mundo falava « com certeza! ».
De onde surgem essas expressões, que logo envelhecem como o « falou! », « beleza! » ? Se você sabe ou tem uma idéia, conte, porque acho uma « beleza », uma língua tão viva como a nossa, mas não « entendi » ainda o mecanismo de reprodução dessas expressões a ponto de afetarem quase a totalidade da população.
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27 Comentários recebidos
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Sobre o autor deste artigoRui Martins - Berna
Jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura, é líder emigrante, ex-membro eleito no primeiro conselho de emigrantes junto ao Itamaraty. Criou os movimentos Brasileirinhos Apátridas e Estado dos Emigrantes, vive em Berna, na Suíça. Escreve para o Expresso, de Lisboa, Correio do Brasil e agência BrPress. Artigos mais recentes do autorDe Mitterrand a HollandeBastilha comemora vitória socialistaSarkozy ressuscita a bestaSarkozy perde no primeiro turnoBolsa emigrante?Pelos caminhos do mundoItamaraty distribui cargos honoráriosCRBE - Fraudes e outras coisas maisRui Martins no ConselhoRui Martins no CRBE Todos os artigos deste autor


Em 29/11/2011, Paulo França escreveu:
Olá, Rui!!! Vejo que vc não se deu conta de que o paulistano usa palavras em inglês a cada frase em português. E, quando não dá para usá-las no original, vai no traduzido. Portanto, o "entendi" deles não passa do "I see". Sério, eles usam inglês até para entregar pizza!!!! Uma mistureba do caramba. Já questionei isso diretamente à Diretoria de Redação do IG, e parece que funcionou. Paulistano se acha cosmopolita quando, na verdade, tem hábitos provincianos. Vc podia era ter vindo ao Rio, me contatado, e visto como nossa cidade está mudando para melhor a cada dia!!! Abraços!
Em 29/11/2011, André Rocha escreveu:
Ahhh, entendi a intenção do autor.
Em 29/11/2011, Moacir Japiassu escreveu:
Se tivesse permanecido mais tempo neste país de todos o considerado iria ser apresentado a coisa muito pior: agora, ninguém mais diz ou escreve "por causa"; é tudo "por conta", num verdadeiro festival de ignorância. Receba um abraço do seu fã, Japi.
Em 29/11/2011, José do Vale Pinheiro Feitosa escreveu:
Rui tenho um aumentativo para acrescentar. Não são apenas estes 12 milhões de SP, são todos os milhões de brasileiros a repetir o "com certeza" e o "entendi". Eu tenho por mim que equivale ao "hamham" lá de cima. Quando o interlocutor nem mais presta atenção ao que estamos dizendo e reproduz qualquer ruído para não demonstrar que não presta mais atenção ao que dizemos ou não tem qualquer vontade de reagir aos nossos argumentos. Talvez no "com certeza" seja puro agrado ao outro, como "pois não doutor".
Em 29/11/2011, vitorcrdias escreveu:
Um dos focos principais para um "spreadding" dessas neo-palavras, vícios linguísticos(incluindo gírias também), são os colégios,faculdades,bares,baladas, e outros lugares que agregam uma população de pessoas com uma faixa etária entre 10 e 25 anos. Seja quem for que tenha ouvido uma determinada palavra, provavelmente irá levar para dentro de casa a "nova" expressão, que na verdade não é tão nova assim, embora seu uso o seja "tá ligado?".
Em 29/11/2011, magdala cavalcanti de melo escreveu:
oi amigo Rui Muito interessante sua constatação. Vale a pena voce vir ao nordeste (fica devendo) e constatar como nosso país é rico com nossas gírias diferntes entre nossas regiões e apesar da influencia estrangeira, há muito de barsilidade. Abs Magui
Em 29/11/2011, Linda Tassitch escreveu:
O pior de tudo é quando a gente liga para uma determinada prestadora de serviços, que oferece atendimento automático aos clientes... Ao dizermos à máquina (sim! É uma máquina!) o que queremos, vem a resposta: "entendi". Não é para chorar?
Em 29/11/2011, Antonio Henrique Dantas Silva escreveu:
Concorda comigo? É bem melhor usarem "ENTENDI" mesmo sem saber do que se estava a conversar, do que "Tô ligado", " É mermo!" ou "Colé" que na Bahia serve para uma centena de situações. É até considerado um vocalário erudito para os intelectuais do MEC.
Em 29/11/2011, Fernando Bernardo escreveu:
Aqui no Rio, quando se fala " É Nóis ", significa que o pessoall é da FACÇÃO do Fernandinho Beira-Mar. Quando se fala " É a Gente ", significa que o pessoall é simpatizante da FACÇÃO do Nem da Rocinha . O assunto é SÉRIO !. Muitos aqui AINDA levam FACÇÕES mais à sério do que todos os partidos políticos SOMADOS !.
Em 29/11/2011, Humberto Cavalcanti escreveu:
Oi! Um dia desses João Ubaldo Ribeiro escreveu uma crônica também desesperado.Coincidiu com o que observo:esse nosso atraso.Já não se fala "Difícil",e sim "Complicado".Pelo status de se falar como dita os meios de comunicação do sudeste pro resto do país,mais exatamente a maior rede. Dita e empobrece vocabulário tanto nacional quanto regionais.Num estado em que morei 20 anos,o RS,e Porto ALegre,de longe a mais civilizada capital e com maior identidade e maior índice de leitura e educação formal, entre outros índices,em TV,rádio, apresentadores,entrevistadores, autoridades falam "Sinaleiras", enquanto em Recife,onde estou e onde nasci,imprensa e o povo já adotou a linguagem de manuais do Detran e diz "Semáforo" ao invés do que a gente dizia e alguns ainda dizem "Sinal, sinais".Daqui a pouco esse nosso imperialismo interno,esse nosso complexo de inferioridade escondido até na fala passará a falar em Cefaléia quando se referir a uma dor de cabeça. "Bizarro"... abç,
Em 30/11/2011, roberto vianna escreveu:
e quando o seu interlocutor,principalmente quando são do rio,começam uma frase com"olha só...".quanto ao "com certeza",acho que começou há mais ou menos uns dez anos atrás com os jogadores de futebol, os quais a cada pergunta dos repórteres respondiam "com certeza".abs.
Em 30/11/2011, Carlos Gama escreveu:
Meu caro cronista A maioria de nós – à parte os recalques regionalistas – é influenciada pelo que vê e principalmente pelo que ouve todo o tempo, na televisão, nos painéis dos metros e até no rádio. Ligados apenas na produção e no consumo, vamos perdendo gradativamente a capacidade de raciocinar e de analisar a realidade falsificada que nos é imposta pelos olhos e pelos ouvidos, vazio adentro. Ilustro, com trechos de dois textos recentes: “A conversa começou por causa de uma destas palavras que passam a ser de uso corrente e repetido, geralmente depois que alguém de peso faz uso dela na imprensa. Sim, pode ser o Jô Soares”. Em: http://www.croniquetas.com.br/634_a_dita.htm Para uma professora da área, o desuso dos pronomes clíticos se dá por uma questão simples: a oralidade da escrita. Ela acha que a coisa está correta. Eu acho que vamos de mal a pior. Em: http://www.croniquetas.com.br/625_ora_porra.htm
Em 30/11/2011, Jorge M Nunes escreveu:
É a resposta retardada a um vício de linguagem dos anos setenta, quando uma epidemia verbal fazia todo mundo encaixar "Entende?" no final das frases. Parece que finalmente entenderam.
Em 30/11/2011, Daniela Brusco Amarante escreveu:
Ah vícios de linguagem! Geralmente vêm de traduções mal feitas ao pé da letra do inglês. Essa é terrível, mas não pior do que a fatídica "eu vou estar enviando, passando, errando o português, etc.". Ainda uma questão: o tempo de verbo da expressão "entendi", é o pretérito perfeito, ou o particípio perfeito como disse o redator da matéria? Tá já sei, matéria não tem mais acento. São os vícios de grafia. Abs.
Em 30/11/2011, Milton Cardoso escreveu:
Pelo fluxo dos comentarios, ja da para perceber que, o povo imigrante,vai ficar ao Deus dara por um bom tempo! O ingles citado pelo Paulo, e compreencivel ja que quase 20% das terras de São Paulo pertence ao estrangeiro, estão vendendo o Latifundio com ajuda da tucanalhada, (Pastoral da Terra). Se eu soubece escrever tão bem como voce Rui, eu escreveria um livro sobre os imigrantes que são vitimas dos caiotes na fronteira com o México, e o dinheiro dinheiro seria para financiar a luta pela Secretaria do Estado Dos Imigrantes. Verifiquei que o termo com certeza e usado mais pelos decendentes de japoneses que é uma substituição ao "garantido" usado e criticado no passado, porem a nossa luta e pelos direitos dos Imigrantes e o senado esta cheio de especialistas em redigir emendas contitucionais.
Em 30/11/2011, paulo vianna escreveu:
Caro Rui O problema mais grave está além do “entendi” e do “então” como vírgula. Está no espantoso analfabetismo funcional que assola esse país. A internet está lotada de exemplos bizarros do português esfarrapado. Compro O Globo só aos domingos exclusivamente para ler na Revista de Domingo, o “Entreouvido por aí”. Vejamos: “Eu não tive depressão pós-parto durante a gravidez. Só depois”; “Qual a faixa de preço das camisetas? A faixa etária das nossas camisetas é R$140”; “Vou mandar um site para reclamar”; “Adoro macarrão, mas não pode ser muito mole. Tem que ser ardente”; “Temos que tomar uma decisão, apesar de sabermos que, nos infringir dos ovos, não altera muita coisa”; “Você vai a passeata dos rottweilers?”.Nesse último caso o rapaz se referia a uma passeata a respeito dos royalties do petróleo. Eu mesmo ouvi num consultório médico lotado, de uma senhorinha aos berros com o filho: “Não vou comprar shereca 3 de jeito nenhum, já comprei shereca 1 e o dois” . Muitos risos abafados. É a única coisa que presta no O Globo.
Em 30/11/2011, Alex Alex escreveu:
Finalizando: " em caso de com certeza, em anexo, ambos os dois "..abraço
Em 01/12/2011, Francisco Barbosa Teixeira escreveu:
Acho que a Linda Tassitch descobriu de onde vem o "entendi", olja o que ela lembrou: O pior de tudo é quando a gente liga para uma determinada prestadora de serviços, que oferece atendimento automático aos clientes... Ao dizermos à máquina (sim! É uma máquina!) o que queremos, vem a resposta: "entendi". Não é para chorar? Acredite se quiser ...
Em 01/12/2011, Edivaldo da Silva escreveu:
Então, é... pra falar desse assunto, você não tá entendendo, é muito complicado... Este "você não tá entendendo" também tem sido repetido por todo lado, o que me deixa na dúvida: estão entendendo ou não? Ah! Entendi.
Em 01/12/2011, Jorge M Nunes escreveu:
Frase de hoje, entre as múltiplas em louvor ao Altíssimo que assolam o Facebook: “Deus escreve serto por linhas tortas.” Quod erat demonstrandum…
Em 01/12/2011, Shirley Nigri Farber escreveu:
Rui, tao bom quanto seu texto sao os comentarios dos seus fãs. Parabens.
Em 01/12/2011, Rita Aguiar escreveu:
Oi,Daniela Amarante, matéria tem acento sim, entendeu?É tipo assim, paroxítonas com ditongo ei, oi, sabe como? Perderam acento. Posso estar falando de hiatos, também, mas tô com preguiça... E vai por aí, cara!Por conta da nova ortografia, estamos meio tontos,sacou? Bração!
Em 01/12/2011, Carlos J Cunha escreveu:
Quanto ao "entendi", acho que entendi. O que não suporto é quando alguém (e parece ser a maioria) diz qualquer porcaria e faz a terrível pergunta: "entendeeeeuuu?" Será que quem ouve é tão burrinho que a todo o momento é preciso perguntar "entendeeeuuu?" Isso é vício, falta de "si mancol" ou mais uma macaquice de colonizado querendo imitar o "You know" do colonizador?
Em 02/12/2011, Leila Adriano escreveu:
Algumas dessas gírias (e não necessariamente vícios de linguagem) são inventadas e popularisadas como uma forma de identificação de grupos. Como no exemplo dos simpatisantes com as favelas no Rio, os grupos criam códigos p identificar os seus membros. A linguagem sempre vai mostrar o q somo, mesmo o tom da voz mostra! e é assim no mundo inteiro! Aqui na Alemanha pode-se idenficar facilmente o público alvo de uma publicidade simplesmente atravez da "gramática" dos slogans. No Brasil existe esse desejo de identificação com a TV e o q ela mostra. Tudo vira febre muito rápido! E as pessoas vivem no dilema: quem vou imitar? falar uma( língua artificial) como a do jornal nacional ou como o ridículo qualquer do próximo pragrama? em Florianópolis, onde nasci, as pessoas não usam mais o "tu"! e a maioria das pessoas ( q querem se mostrar bem informadas, quase cultas!) fala exatamente comoda Fátima Bernardes! bom até é melhor do q onda de falar como o Tiririca ...
Em 02/12/2011, GUSTAVO FRED SCHREPEL escreveu:
O Milton Cardoso tem razão qdo diz que os descendente de japoneses que dizem "com certeza" c/ frequencia... Isso foi disseminado pelos adeptos do "Seicho No Ie". Eles usam esse termo frequentemente, pois alegam que é "Positivismo". E hoje virou "muleta" verbal.Entenderam? Fredão.
Em 02/12/2011, Milton Cardoso escreveu:
Não digo isso para ofender, pois tenho até sobrinho descendente de Japoneses e sinto muito orgulho disso, porem o "com certeza" eu observei e estou tentando dar meu parecer, apesar de achar que o Rui deveria esta tratando da Secretaria de Estado do Imigrante!
Em 06/12/2011, noberto Melchior escreveu:
E o que dizer dos diagnósticos médicos: O Câncer é uma doença "IMPORTANTE"..., é a regressão da educação, graças ao MEC.