- Publicado em 21/03/2010
UNIVERSIDADE PLENA, SONHO DO GOVERNO
Miami (EUA) - Nesta época, o mundo esportivo dos Estados Unidos entra em polvorosa com o chamado March Madness, ocasião em que os times de basquetebol masculino e feminino entram nas retas finais das competições que vão apontar as universidades que conquistarão os tão ambicionados títulos de campeãs universitárias de basquetebol universitário. Somente o futebol americano masculino consegue despertar tanta paixão dos fãs por suas equipes (leia-se, universidades) favoritas.
O frenesi é ainda maior por parte dos membros da mídia esportiva que começam a apontar os jovens que mais se destacam e que fatalmente reforçarão os times profissionais de basquete da NBA, de acordo com o sistema de draft.
O interessante, neste caso, é que aquelas equipes que fizeram campanhas decepcionantes podem ser recompensadas com a escolha daqueles apontados como melhores talentos. Em alguns casos, os garotos saem direto do High School (ensino secundário) diretamente para a NBA, como ocorreu com LeBron James (Cleveland Cavaliers), Dwight Howard (Orlando Magic) e Kevin Garnett (Minesotta Timberwolves e agora jogando pelo Boston Celtics).
Entretanto, o governo federal parece não estar satisfeito com o atual sistema. Tanto que o presidente da República, Barack Obama, e o secretário de Educação, Arne Duncan, ambos egressos da Universidade de Harvard – uma das mais conceituadas do mundo – questionam os critérios para a seleção dos estudantes-atletas. Duncan, aliás, chegou a integrar o time de basquete de Harvard.
Ocorre que as universidades mais conceituadas, conhecidas como Ivy League, pouco sucesso fazem nas competições universitárias. Harvard, MIT, Princeton, Columbia e outras não passam de obscuras participantes das competições. Em contrapartida, algumas universidades obtêm bastante destaque com seus programas de basquete, futebol americano e outras modalidades esportivas.
Isto não seria problema se os atletas fossem estudantes de verdade. Normalmente, o ás do basquete é zero em álgebra e o craque do futebol americano desconhece os expoentes da literatura de seu país. Diante disto, Obama e Duncan querem que seja instituída uma exigência para cobrar um desempenho escolar mínimo destes estudantes, que, por sinal, ganham bolsas de estudo integrais, muitas vezes em detrimento de outros estudantes pobres mais aplicados, mas que não possuem habilidades esportivas.
Evidentemente, os técnicos destas universidades reagiram contra esta medida. Eles alegam ser favoráveis à melhoria do ensino, mas argumentam que isto deve ser feito desde o ensino básico, em vez de querer que o estudante se torne um excelente aluno nas universidades sem nunca ter tido um desempenho escolar satisfatório. Portanto, não consideram justos se verem privados de seus melhores jogadores somente por uma medida questionável.
As universidades, por sua vez, também, fazem o jogo que lhes interessa. Abrem as portas de suas escolas para receber estes estudantes-atletas, porque uma boa colocação nas finais universitárias da liga chamada NCAA atrai bons contratos para transmissão pelas emissoras de TV, verba de patrocínio para manutenção dos programas esportivos e grants – um tipo de verba obtida junto a doadores e/ou órgãos de governos e organizações destinadas a financiar o ensino e incentivar a prática de esportes. Com isto, elas enchem os cofres e podem reforçar estes programas.
A verdade, porém, é que poucos jogadores universitários conseguem ingressar na liga profissional. A NBA conta com 450 atletas, e entre eles diversos estrangeiros, o que diminui ainda mais as vagas para os jovens americanos. Consequentemente, aqueles que não fizeram um bom curso e não alcançaram o objetivo de ir para um time da NBA saem prejudicados porque entram em desvantagem na hora de disputar uma vaga no mercado de trabalho.
É exatamente isto que o governo quer evitar, preparando os estudantes-atletas para o sucesso esportivo e para a vida. Resta saber se conseguirá mudar a mentalidade reinante no meio universitário onde ganhar um título muitas vezes se torna mais importante do que oferecer uma boa qualidade de ensino.-
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Sobre o autor deste artigoAntonio Tozzi - Miami
Foi repórter do Jornal da Tarde e do Estado de São Paulo. Vive nos Estados Unidos desde 1996, onde foi editor da CBS Telenotícias Brasil, do canal de esportes PSN, da revista Latin Trade e do jornal AcheiUSA. Artigos mais recentes do autorRebeldes com causa?EUA e China formam parceriaParceria Brasil-Estados UnidosDupla cidadania, válvula de escapeA coragem de AngelinaDesemprego: o novo vilão mundialCarnificina na Síria: triste realidadeAh, a falta de puniçãoMais uma loucura em nome da religiãoO perigo do fundamentalismo religioso Todos os artigos deste autor


