Quando eu era adolescente, nada inflamava mais os meus hormônios – no sentido negativo, diga-se de passagem – do que ler a arrogante expressão “c.q.d.” ao final das explicações dos teoremas no livro de álgebra, que eu não conseguia entender de jeito nenhum. O “como queríamos demonstrar” era o irreversível atestado de que, para mim, não havia salvação. Para mexer com números e com a lógica imposta por eles, eu era a mais completa nulidade.
Entretanto, a vida continua, o mundo gira, a Lusitana roda, outros sentidos afloram, e a gente acaba aprendendo por outros caminhos. Justamente por minha pedra não ser a ametista nem minha cor o amarelo, é que sem a arrogância do “como queríamos demonstrar” lembro a quem lê a coluna regularmente: você não deve estar surpreso(a), de forma alguma, com o resultado do campeonato mundial de Fórmula 1 de 2007. Kimi Raikkonen, o homúnculo de gelo, levou a corrida e a taça com a cara de sempre, de quem chegou em décimo lugar na prova com os quatro pneus furados.
Foi aqui, há dois domingos, no espaço que me é reservado todas as semanas, que sugeri: o fermento oculto na pizza assada pela FIA durante o imbroglio jamesbondiano Ferrari-MacLaren seria o castigo supremo para a MacLaren: apesar de manter os pontos de seus pilotos na disputa pelo mundial – uma irracionalidade, visto que eles eram os principais beneficiários do esquema de espionagem –, os britânicos teriam que abrir espaço de alguma forma, por mais teatral que fôsse, ao melhor estilo do teatro de Shakespeare, para que a Ferrari fôsse devidamente compensada. Assim, o campeonato seria encerrado com muita expectativa, recordes de bilheteria, audiência de tevê nas alturas e com a necessária preservação da imagem da disputa como sendo algo lícito, sem marmelada. E… convehamos: ficaria muito feio cortar os pontos de Hamilton e Alonso a meio caminho andado quando este se revelava o mas disputado campeonato mundial de F-1 dos últimos anos.
Entretanto, o ato de “estacionar” o carro na brita na entrada dos boxes na corrida anterior, por parte de Hamilton – uma atitude absolutamente não-característica de sua habilidade natural e nível de competência profissional adquirido – foi a marca indelével de que vinha coisa pela frente.
Assim foi scriptado, e assim foi executado. Em Interlagos, começou havendo u’a misteriosa “falha eletrônica” no carro de Hamilton, que teve que dar o boot no sistema com o carro andando para poder fingir que se mantinha no jogo. Já o carro de Alonso não foi abastecido com o combustível fornecido com sua costumeira dose de Viagra, o que deixou o espanhol zanzando pela pista como um zumbi, ainda que ele tenha chegado em terceiro para manter a credibilidade do roteiro previamente traçado.
Quando se configurou a pantomima na MacLaren, executou-se a segunda parte da trama. Felipe Massa, que não apenas fez a pole como deu show do começo ao fim e não teria perdido a corrida de jeito nenhum, foi trazido aos boxes para que Raikkonen desse suas voltas voadoras e se mantivesse em primeiro, mesmo entrando nos boxes para reabastecimento e troca de pneus. Vamos e venhamos: desta vez, fazia sentido. Era o tudo ou nada, era a última corrida do ano, e era – acima de tudo – o supremo teste de companheirismo e de espírito de equipe para quem assinou um contrato com a Ferrari até 2010. Não era uma questão de privilegiar um piloto sobre outro, sem motivo. Massa já estava fora da disputa pelo título. Raikkonen, não. Ainda tinha alguns dedos na taça, e de uma forma “limpa” acabou com as duas mãos sobre ela.
O jogo de equipe foi justificado e a pizza deixou todo mundo feliz, de barriga cheia. Agora, é desligar os motores e esperar as “emoções” reservadas para 2008. Arrivederci!
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