Nem só de Hillary Clinton, Barack Obama ou John McCain vive a política internacional. Então, vamos lá. Quem conhece um pouco história, não a escrita pelos vencedores, sabe muito bem que Brasil, Argentina e Uruguai têm uma dívida muito grande com o Paraguai. Este país, que na metade do século XIX tentava um desenvolvimento autônomo da potência da época, a Inglaterra, sofreu uma dura ação militar da Tríplice Aliança que dizimou mais da metade da população masculina. A verdadeira história desta guerra alimentada pela Inglaterra não se encontra nos livros de história onde os nossos “heróis” continuam sendo cultuados e muitos documentos secretos daquela época não saíram das gavetas.
O Paraguai, ignorado pela mídia, se encontra hoje em um momento decisivo de sua história. Pela primeira vez em muitos anos, os cidadãos terão a oportunidade de através do voto promover mudanças que o país necessita e virar de uma vez por todas uma fase de domínio do Partido Colorado.
No próximo dia 20 de abril, os eleitores estarão escolhendo o sucessor de Nicanor Duarte Frutos, o presidente que, segundo a voz popular, já rendeu muitos frutos ao governo Bush. Frutos não conseguiu o apoio do Congresso para reformar a Constituição e concorrer a um novo mandato. Partiu para apoiar Blanca Ovelar, uma colorada que conta também com a simpatia de Washington.
A preocupação maior da oligarquia paraguaia é com o candidato Fernando Lugo, da Aliança Patriótica para a Mudança (APC, pela sigla em espanhol). Tentaram - e ainda tentam - impugnar a sua candidatura. Este ex-Bispo, que abandonou a batina para se candidatar a Presidente, se for eleito será o único fato novo na política paraguaia. Lugo teve três irmãos que fugiram da ditadura Stroessner e sempre está ao lado dos oprimidos.
Como defini-lo politicamente? É ele quem responde em uma de suas recentes entrevistas: “Em primeiro lugar, creio que a minha formação cristã marca a minha concepção de vida, o desejo de eqüidade, de igualdade social, de justiça, a busca pelo verdadeiro reino de paz, de amor. Carrego também elementos da identidade socialista, de alguma maneira sou socialista, assumo elementos do socialismo moderno, sobretudo, aquele que busca a eqüidade, a igualdade, a não discriminação, a participação de todos os grupos sociais”.
Lugo promete, entre outras coisas, que se for eleito - e ele continua na frente das pesquisas, embora seguido de perto pelo candidato Lino Oviedo – exigirá formalmente a renegociação de tratados, “para dispor livremente de nossos excedentes hidrelétricos e receber um justo preço por eles”. Exigirá acesso técnico, sem custo adicional, a totalidade que corresponde ao Paraguai da energia de Itaipu.
Trocando em miúdos, Lugo pretende colocar na mesa de negociações com o Brasil a questão de Itaipu. Para o paraguaios, o país está sendo prejudicado há anos. Se Lugo conseguir confirmar mesmo o favoritismo das pesquisas, podem estar certos que os analistas de sempre serão acionados para chamar a atenção sobre o novo “perigo paraguaio”.
Washington também está de olho na região, não só pela riqueza das águas subterrâneas do Aqüífero Guarani, como também pela construção de uma base militar numa área próxima a Tríplice Fronteira (Brasil, Paraguai e Argentina) com o objetivo de rastrear a região. Há uma preocupação muito grande do Pentágono com a possível saída de circulação da base de Manta, no Equador, até o fim do ano, segundo já avisou o presidente Rafael Correa. Para o Pentágono, a base no Paraguai será de vital importância para “suprir” a deficiência. Na verdade, uma dor de cabeça para os paraguaios e para os vizinhos.
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